Denúncia grave

Agressão ambiental em Barra do Garças

25 de agosto de 2006

Efluentes tóxicos de um curtume poluem o solo, o ar e o lençol freático da região

O despejo de efluente é feito de duas maneiras: uma carreta faz várias viagens dia e noite e por uma tubulação,
num processo de dispersão. O mau cheiro se espalha no ar e vai até o aeroporto

Barra do Garças é onde o belíssimo rio Araguaia se junta ao Rio Garças. Além dos rios, a região oferece ao turista lindas cachoeiras na Serra Azul e o sensacional Parque das Águas Quentes. Mas a cidade é conhecida pelas grandes fazendas de pecuária, por dois frigoríficos e por grande curtume. O maior dos frigoríficos, o Friboi, abate uma média de 1200 cabeças de gado por dia e emprega 750 trabalhadores. Da produção média mensal de 4.100 toneladas de carne por mês, 90% é transportada para São Paulo, e o restante é exportado para a Inglaterra e Holanda. Já o Curtume Santo Antônio (Curtusa) produz o couro curtido e semi-acabado, matéria prima vendida para o mercado interno, Europa e Estados Unidos.
Desenvolvendo o projeto Brasil das Águas, pousamos no aeroporto de Barra do Garças em duas ocasiões. Nos dias 13 e 24 de julho. Em ambas oportunidades, constatamos que os efluentes do processo industrial do Curtusa são levados e despejados num campo de terra nua. Esses efluentes (substância líquida resultado de o processo de curtimento de couros chamado “wet-blue”) deixam uma terrível marca de contaminação no solo. Como vemos pela cor, no processo de curtimento é utilizado sulfato de cromo entre outros químicos nocivos. E a poluição, além de atingir solo e subsolo se espalha também do ar. Segundo funcionários do aeroporto, quando o vento sopra o cheiro fica insuportável.
O despejo do efluente – ou pelo menos parte dele – é feito de duas maneiras.  Primeiro, jogado dia e noite por uma carreta-tanque de 30 mil litros. Aliás, na sua carroceria já vem estampada outra contravenção para enganar os incautos fiscais. Em letras garrafais está escrito: "Transporte de óleo vegetal".
A segunda maneira é por dispersão. Os efluentes são transportados por um sistema de tubos que, durante nosso sobrevôo, bem parecia um sistema de irrigação.  Efluentes de curtume costumam conter metais pesados, como cromo, nocivos à saude e deveriam ser devidamente tratados em tanques especiais de destilação. Do jeito que está sendo feito, infiltram nos lençóis freáticos.
Qualquer justificativa de que a Curtusa agride o meio ambiente, mas gera muito emprego é uma falácia. Além desse comportamento irresponsável ser um tiro no próprio pé, envenenando a população, todo negócio que não leva em conta o meio ambiente é sempre um negócio estéril. Uma empresa moderna e responsável tem que ter licenciamento ambiental e sabe que tem que tratar seus efluentes corretamente. Isto faz parte de um plano gerencial responsável.
Vale ressaltar que o uso do processo "wet-blue" é utilizado por 90% dos curtumes no Brasil e são conhecidos como grandes poluidores das águas. Mas isso não é desculpa. O fato que a Curtusa joga os efluentes num campo aberto e não diretamente no rio. Isso indica que a empresa está ciente do grua de poluição que causam à água. Vale especular: não seria porque a Secretaria de Meio Ambiente fiscaliza apenas a qualidade da água no córrego perto do curtume? O novo jeitinho é claro: jogando os efluentes no campo, estão driblando a lei. Foi a alternativa encontrada para evitar o custoso processo de tratamento dos efluentes.
A conclusão que se tira da ação do Curtusa são duas: primeiro, o descarte irresponsável dos efluentes tóxicos e cancerígenos, cheios de metais pesados, em área aberta, sem o devido tratamento, indica que os proprietários pouco se importam com o meio ambiente e com a saúde da população de Barra do Garças. Segundo, é a pergunta que fica no ar: até quando vai durar este crime ambiental?
(*) Margi Moss e Gerard Moss são responsáveis pelo Projeto Brasil das Águas  www.brasildasaguas.com

Os proprietários do curtume pouco se importam com o meio ambiente e com a saúde da população.

 

Na carroceria da carreta, a prova de uma outra contravenção. Para enganar a fiscalização, está escrito em letras garrafais: “Transporte de óleo vegetal”

 

 

 

O Projeto Brasil das Águas monitora sete rios brasileiros

O Projeto Brasil das Águas, comandado pelo casal Margi e Gerard Moss, está monitorando desde maio sete importantes rios brasileiros. Uma equipe profissional estuda a qualidade de suas águas e a situação das  populações ribeirinhas. Segundo Gérard Moss, idealizador do projeto, o objetivo maior é gerar sugestões detalhadas para conservação de cada rio estudado, em harmonia com as necessidades das populações, otimizando e priorizando os investimentos dos órgãos governamentais competentes.
Rios que estão sendo estudados:
Rio Guaporé – localizado na fronteira Brasil e Bolívia, é o único rio internacional a ser estudado. Tem grande potencial turístico.
Rio Araguaia – Com mais de 2.000km de extensão, nasce em Goiás e deságua na bacia do Amazonas entre Tocantins e Pará. Será o primeiro a ser estudado e é o de maior potencial turístico.
Rio Verde – Tem mais de 300km de extensão, faz parte da bacia amazônica, mas sofre muita pressão pelo avanço da cultura da soja em Mato Grosso.
Rio Grande – Afluente do São Francisco, é um rio de cerrado que nasce em Goiás mas seu maior percurso é na Bahia. Também é ameaçado pelo avanço da fronteira agrícola.
Rio Miranda – Com mais de 400km de extensão, é afluente do rio Paraguai pela margem esquerda. Suas águas se espalham pelo Pantanal e também está muito pressionado pela expansão da fronteira agrícola.
Rio Ribeira – Sem represas, é um rio essencialmente paulista que deságua no Atlântico. A ação predatória do homem na região tem sacrificado muito o rio Ribeira.
Rio Ibicuí – Deve ser um dos rios mais estudados, pois está muito comprometido pelas plantações de arroz no Rio Grande do Sul. A degradação de seu leito aumenta a cada ano.