Al Gore: Mensageiro da agonia

Gore: depois do Oscar, vem aí o Nobel da Paz

21 de março de 2007

A Academia de Cinema anuncia: o Oscar vai para… o meio ambiente!

Numa atitude inovadora, a Academia de Cinema premiou o documentário ecológico “Uma Verdade Inconveniente” e também deu um Oscar de melhor canção ao filme de Al Gore.


 


Para Carl Pope, diretor-executivo da ONG Sierra Club, o filme, ao ser visto por tantos norte-americanos, especialmente em DVD, leva a questão além do terreno distante da política, colocando-a num nível mais corriqueiro. “O aquecimento global parecia abstrato, distante, algo “para gente que sabe mais do que eu”‘, disse Pope à imprensa logo após a entrega da estatueta a Al Gore.
“Acho que as premiações colocam a questão na sala de estar. Embora a climatologia seja realmente complicada, os espectadores vão ver que as soluções dependem do bom senso, vão falar nisso e vão se entusiasmar”, alertou o ambientalista.
Em colaboração com o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, os produtores do Oscar colocaram veículos híbridos à disposição de apresentadores e funcionários, providenciaram que quase tudo fosse reciclado e compraram créditos de energia renovável para contrabalançar as emissões de gases do efeito estufa resultantes do espetáculo. As iniciativas da Academia e as su-gestões que oferece para todos adotem iniciativas ecológicas estão disponíveis no endereço www.oscar.com.
Mesmo o Baile do Governador, o grande evento de gala após a cerimônia, tinha comidas orgânicas e ambientalmente corretas, como um grande Oscar de chocolate que foi cortado e servido como sobremesa. “É uma vitória para a questão da mudança climática”, disse Fred Krupp, diretor-executivo do grupo Environmental Defense. “Quando se ganha um Oscar, mais gente sai para ver o filme e isso vai ajudar.”
Eileen Claussen, presidente do Centro Pew para a Mudança Climática Global, disse que o filme de Gore pode influenciar as políticas públicas a conscientizar o público comum. “Nem sei mais quantas vezes fui ao gabinete dos parlamentares e me disseram que os eleitores deles nunca falam nesse assunto”, lembrou Claussen. “Acho que o filme e a cobertura sobre o filme estão realmente fazendo as pessoas entenderem isso, e acho que os legisladores vão ouvir os eleitores falarem”.
Al Gore, candidato derrotado à Presidência em 2000, provocou alguns risos ao fingir que tinha um anúncio importante a fazer – ele ainda não descartou totalmente uma nova candidatura à Casa Branca em 2008, mas foi interrompido por uma brincadeira de Di Caprio e deixou o palco, sendo muito aplaudido.
Eileen Claussen lembrou que os políticos andam muito mais atentos à questão climática, pois agora percebem – como é o caso do ex-ator Arnold Schwarzenegger, hoje governador da Califórnia – que defender a redução de poluentes responsáveis pelo aquecimento pode dar voto. É benéfico para uma carreira política.
Al Gore hoje é o nome mais cotado para receber o Prêmio Nobel da Paz em 2007.


Problema de todos


“A Academia é verde. Mais um exemplo de indústria que está entre os líderes mundiais na hora de enfrentar esta crise”, disse Al Gore logo após receber a premiação . Ele se alegrou com o uso de veículos híbridos e ecológicos na cerimônia, confiando que exemplos como esses sirvam para encorajar os demais para que façam sua parte.
Na opinião de Al Gore, os Estados Unidos devem assumir a liderança das mudanças necessárias para proteger o meio ambiente, mas também insistiu em que o resto dos países cumpra sua parte. “Este não é um tema político, é preciso encontrar um caminho que inclua todas as partes”, afirmou.
Al Gore espera que o Oscar convença os que ainda não viram o documentário a “ser parte da solução”. Uma Verdade Inconveniente mostra os problemas do aquecimento global e oferece caminhos para a solução. No entanto, o político disse que a mensagem não é sua. “Temos um grande aliado que é a realidade. A “mãe natureza” fala alto. Se este filme ajudou a ligar os pontos, fico orgulhoso”, disse o ex-vice-presidente americano.


Al Gore?


Dois personagens importantes na vida de Al Gore. Primeiro seu pai,  Albert Gore, que foi senador e o introduziu na política. Depois seu filho, Albert III, que sofreu um acidente aos seis anos, em 1989, e ficou  entre a vida e a morte. O atropelamento do filho mexeu com sua cabeça. A partir daí, nasceu sua porção humanista, no sentido de cuidar mais da família, das futuras gerações e das causas ambientais. Sobretudo inverter o processo acelerado de aquecimento global.
A vida política do pai influenciou o filho. Al Gore foi candidato e eleito para deputado aos 28 anos. Ocupou a cadeira no Congresso até 1984, quando foi eleito senador. Chegou a concorrer, em 1988, às primárias pelo partido Democrata. Perdeu para Michael Dukakis. Mas os Repu-blicanos ganharam de forma arrasadora com a reeleição de Ronald Reagan. Ficou senador até ser convidado por Bill Clinton para ser seu vice-presidente.
Participou, como senador, da RIO-92, a Conferência da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, no Rio de Janeiro, em 1992, quando criticou duramente a administração de George Bush – o pai – por não ter conseguido colocar os EUA na liderança das causas ambientais, por não ter assinado o Tratado da Biodiversidade e, pior, por lutar ativamente contra os avanços ambientais.
Tudo isto está no seu primeiro livro A Terra à Procura de Equilíbrio:  “… o que desapontou a atuação do presidente Bush no Rio de Janeiro foi que ele não conseguiu reconhecer este grande desafio moral e ficou surdo perante o grito de ajuda que o mundo enviou aos Estados Unidos”.
Day after – Qual será o “day after” do filme Uma Verdade Inconveniente? A primeira consequência: na visão de muitos cientistas, ambientalistas e de grande parte da população estadunidense é que na eleição e reeleição Bush (2001 e 2006) o grande derrotado foi o planeta. E não foi porque até hoje os EUA não assinaram o Protocolo de  Kioto. Foi porque a administração Bush só valorizou o comércio e a indústria, sobretudo de petróleo e a guerra. E acabou com vários compromissos ambientais.
O fato de 221 cidades de 39 Estados dos EUA terem assumido por conta própria medidas para redução das emissões de gases de estufa e o país até hoje não ter assinado o Protocolo de Kioto é algo que incomoda a consciência de grande parte da população. Os EUA hoje contribuem com 30% das emissões globais de dióxido de carbono.
Analistas políticos especulam que, mesmo se dizendo longe da política partidária ativa (para Gore a salvação do planeta não é uma questão política, mas moral), o impacto do filme e do livro podem provocar sua “ressurreição”. A pregação pela salvação do planeta, com duras críticas ao seu país, pode provocar um efeito reverso que acabaria por levá-lo à Casa Branca. A última mensagem do filme é messiânica: se você acredita em oração, reze para que os países, os líderes e os homens tenham coragem de mudar. Mas, enquanto reza, faça alguma coisa.
Todo o lucro do filme e do livro serão destinados ao treinamento de pessoas, em diversos países, para divulgar a mensagem de angústia: o caminho da salvação  é  o desafio de lutar pela defesa do  meio ambiente.  A humanidade  mostrou que é capaz e já  venceu outros desafios. Para Gore, hoje, nenhum desafio é tão forte, nenhuma causa é mais urgente e nada é mais improrrogável do que preservar os ecossistemas e proteger o planeta. O que está em jogo é  a própria  sobrevivência da espécie humana.
E é justamente essa luta que pode dar a Al Gore a uma outra vitória política importante: recebimento do Prêmio Nobel da Paz 2007.