Biocombustível

A farsa do ecodiesel no Piauí

28 de fevereiro de 2008

A triste história de um fracasso anunciado

As mazelas vêm a reboque do projeto da Ecodiesel: criança trabalha tapando buraco para ajudar a família


 


 


 


O ambientalista Judson Barros mostra as erosões e denuncia que trabalhadores da Fazenda Santa Clara passam fome


 


 


 


 


  A Brasil Ecodiesel não é uma empresa pequena. Ela mantém ações na Bolsa de Valores. Os acionistas que somam a totalidade das ações são: Eco Green Solutions Lic com 35,80%, Nelson José Côrtes da Silveira (9,70%) Zartman Service Lic (19,80%) Wellington Management Company, (5,63%). Os 29,07% que sobram estão em nome de outros.
 Na inauguração, a Brasil Ecodiesel fechou parceria com 600 famílias da região que passaram a morar na área de 40 mil hectares doados pelo o Governo do Piauí à empresa. Foram construídas 20 vilas, denominadas de células, a uma distância de seis quilômetros uma da outra. Uma vila tem 35 casas disponibilizadas no mesmo formato das aldeias indígenas. A cada família fora destinada sete hectares. Cinco para o plantio de mamona e dois para plantio de feijão. Do total da produção 30% é destinada a empresa, os 70% que sobram se destinam ao pagamento do adiantamento de safra de R$ 160,00 que recebem ao mês e que corresponderia a aquisição de três mil quilos de mamona. Com uma produtividade baixa nada sobra para o “parceiro”, como é chamado o trabalhador rural na Santa Clara.
Ainda faz parte do contrato a entrega de uma cesta básica ao mês por família. Segundo os trabalhadores, a cesta atrasa cerca de 60 dias e seu valor não ultrapassa R$ 30,00. No campo de produção, a família que consegue colher mais. A colheita não ultrapassa 300 quilos por hectare. Eles alegam que a terra não é apropriada para a agricultura, em particular para a mamona. Outros atribuem a falta de empenho da fazenda Santa Clara em investir nos insumos, tecnologia e mão-de-obra especializada para assegurar uma boa produtividade.


Praga na lavoura
Na safra de 2008 uma praga de lagarta devorou toda a mamona deixando um rastro de prejuízo incalculável para a Brasil Ecodiesel. O novo plantio teria que ter iniciado em outubro passado. Até o último janeiro não havia começado ainda. “Somos tratados como bicho pela Brasil Ecodiesel”, disse M.P.S.  que não se identifica temendo repressão pela empresa que já agiu assim com quem lhe denunciou.


Desmatamento em larga escala



“Queremos saber se a Brasil Ecodiesel é para produzir carvão
ou biodiesel?”


Judson Barros


Estranho também é o tamanho do desmatamento em relação à área utilizada para o plantio, cerca de dois mil hectares. O ambientalista Judson Barros denunciou a existência de cinco grandes fornos industriais, controlados por computadores, dentro da fazenda que fazem carvão em grande escala. “Todos os 40 mil hectares já foram devastados. Queremos saber se a Brasil Ecodiesel é para produzir carvão ou biodiesel?”, questiona.
 O superintendente do Ibama-PI, Romildo Mafra, disse que a Brasil Ecodiesel não tem autorização para transportar o carvão e que a empresa está apenas fazendo uma experiência com o carvão para depois decidir qual o destino vai dar a madeira retirada do projeto. “Montar toda aquela estrutura para fazer uma experiência é achar que no Piauí todo mundo é ignorante”, ironiza Judson que denuncia também a erosão do solo da área destruída. “Ali a processo de desertificação é evidente e já atinge quilômetros”, diz.


 O sonho e pesadelo
O sonho das centenas de famílias em transformar suas vidas humilhantes em dignas foi destruído com o fracasso das sucessivas colheitas de três anos. A esperança se transformou em conflito entre colonos e empresa. O primeiro embate aconteceu em 2006 com os trabalhadores denunciando ao Ministério  Público do Trabalho maus tratos. Eles interditaram a BR 324  e tudo terminou com um inquérito instalado pelo o Ministério que investigou e constatou uma série de irregularidades inclusive trabalho escravo e infantil.
 Segundo Judson Barros, que é um dos coordenadores da Rede Ambiental do Piauí-REAPI, a situação hoje das famílias parceiras da Brasil Ecodiesel só agrava.
As crianças que deixaram o trabalho da lavoura agora arriscam suas vidas tapando buracos na B 324 para ganhar uns trocados. Meninas e meninos de seis, sete até quinze anos passam o dia debaixo do sol forte do Nordeste com uma pá nas mãos pedindo dinheiro em troca de um serviço que até agrada aos motoristas que evitam o rasgo de um pneu nas crateras expostas no asfalto. A prática está levando ao inicio da prostituição infanto-juvenil na região.
 Duas adolescentes com idade entre 13 e 14 anos, estavam constrangidas com nossa presença e revelaram pouco sobre suas vidas. Segundo elas a estrada é a única maneira de conseguirem dinheiro para comprar roupas. Já a menina T.C. seis anos vai para a estrada com o pai e lá fica durante todo o dia com uma pá na mão ajudando na busca do barro
 Já a preocupação dos irmãos D.P. 10 anos e A.P. 9 anos era saber se éramos evangélicos e se estavamos ali para denunciar-lhes ao conselho tutelar. Eles contaram que o trabalho de um dia rende até 20 reais. “Às vezes a gente só consegue R$ 10 ou menos. O bom é que mesmo sendo pouco a gente sempre ganha”, contou D.P., um menino educado e esperto que sabe definir com realismo a situação que vive.
“Não é culpa de nossos  pais a gente trabalhar tapando buracos. É claro que eles não querem isso, mas é o jeito. Se não passamos fome”, completou o menino que também passa o dia na beira do asfalto.


 TAC: trabalho infantil
O Procurador Geral do Trabalho no Estado, João Luzardo Filho, afirmou que há dois anos a empresa assinou um Termo de Ajuste de Conduta-TAC se comprometendo a coibir o trabalho infantil na região. “Se ela não cumprir, o TAC pode ser executado”, garante o procurador.
O coordenador do Fórum do Trabalho Infantil na DRT, Rubervan do Nascimento, disse que é preocupante a situação e lembra que a Brasil Ecodiesel já respondeu inquérito por ter permitido crianças trabalharem na lavoura com os pais. Ele vai encaminhar a denuncia ao fórum estadual do trabalho infantil. Quem também investiga os desmandos da Brasil Ecodiesel é a Polícia Federal.



O desmatamento para produção de carvão vem provocando erosões por toda parte. O que a comunidade quer saber é se o projeto Ecodiesel é para produzir carvão ou biodiesel.  No detalhe, o ambientalista Judson Barros em visita à Santa Clara conversa com moradores da fazenda.