Enchente no Nordeste

Jaqueira, não. Mãezona !

30 de julho de 2010

Muquém: 56 pessoas de comunidade quilombola dividem os galhos de duas jaqueiras para escapar da enchente em União de Palmares-AL.

Mortes confirmadas pelas chuvas e enchentes: 51 pessoas, nos estados de Pernambuco e Alagoas. Pessoas desabrigadas: milhares. Em União dos Palmares – comunidade quilombola de Muquém: das 90 casas, apenas 8 ficaram de pé. E 56 pessoas foram salvas por duas jaqueiras. O desastre aconteceu no sábado (19 de junho) e as equipes da Defesa Civil já como como desaparecidas e mortas.


Não havia como chegar ao local. Só quando chegaram alguns helicópteros de socorro, enviados por outros estados brasileiros e de Brasília, é que veio a surpresa: os quilombolas estavam vivos, salvos por duas jaqueiras. “Tivemos que ficar plantados nos galhos da jaqueira quase um dia e uma noite. Foram 18 horas”, contou o quilombola Aloísio Nunes. Já com 65 anos, Aloísio disse que nunca tinha visto uma coisa assim. “Olha, moço, não tive tempo nem de escolher que árvore subir. Eu, meus parentes e todo mundo subia na primeira árvore que encontrava. Parecia que a gente estava correndo de um cachorro bravo”.
Apenas com 13 anos, Auricéia Maria Nunes da Silva, foi esperta e conseguiu pegar o primo Nandiel, de 2 anos, no colo. “Subi com ele na árvore. Ele estava dormindo. Só ficou um pouco assustado quando acordou. Imagina o nosso medo de noite, com chuva, segurando um menininho de 2 anos, até a gente podia dormir e cair na água… Olha, não dá para acreditar”. A cena era incrível: as pessoas grudadas nos galhos das jaqueiras, com medo, e vendo a água passar lá embaixo carregando móveis, madeira, panela e tudo que se pode imaginar. “Não é de acreditar. Parecia um filme de terror”, desabafou a mãe de garoto de quatro anos.


Jaqueira salvadora
Para o cortador de cana Gilvan Nunes, a jaqueira salvou a vida de muita gente. “Agora, vou me dedicar a defender as jaqueiras”, afirma ele ainda traumatizado. “Se qualquer um tentar cortar um galho dessa jaqueira, a gente vai dar uma surra para ele nunca mais esquecer”.
Aos 21 anos, Gilvan ocupou um dos galhos mais altos da jaqueira e ficou a abraçado ao tronco “das seis da tarde até as três da manhã.” Os mais velhos e as crianças ficavam mais baixo. “A maior expectativa era com a água subindo. Quem estava nos galhos mais baixos ficava observando e mandando recado: – A água baixou…. a água subiu… Foram muitas horas para a gente descer e se abraçar. A jaqueira tinha nos salvado”, conclui Gilvan.


Fotos: Glauco Araújo/G1




 


 


 



 


Uma das jaqueiras e os 56 quilombolas que foram salvos da enchente pela árvore


A mãe jaqueira do Sertão
De como duas jaqueiras salvaram vidas e a natureza ecoa um grito de esperança


Sandra Lopes (*)


É lamentável que a Mãe Natureza, na maioria das vezes se faça presente na mídia por matérias relacionadas a desastres  ambientais. Talvez seja esta a única maneira que ela, acuada e  desprotegida, tenha para gritar por socorro: vulcões adormecidos durante anos, despertos; temperaturas elevadas que racham o solo e degelam os polos ou nevascas colossais que congelam e paralisam cidades inteiras; furacões e terremotos em
intensidade e frequência alarmantes… Petróleo jorrando sem parar e poluindo o mar turquesa do Golfo do México…


O Planeta parece ensandecido! Tudo como resultado das ações do homem. Maus tratos e desrespeito geram todo este desequilíbrio ecológico acarretando uma série de fenômenos, como este que podemos assistir no nordeste nesse mês de junho: as enchentes em Pernambuco e Alagoas. O solo que sempre sofreu com a seca, eternizado no romance ?Vidas Secas? de Graciliano Ramos, foi inundado! Que ironia! Nem mesmo Quebrangulo, a cidade do romancista, no sertão alagoano, escapou! A única biblioteca e todo seu acervo foram perdidos!
Diante das tevês, um Brasil perplexo assistiu as águas do Rio Mundaú, que corta a cidade de União de Palmares-AL, carregar tanques, torcer e levantar trilhos, lavar e levar vidas.  Diante das tevês, um Brasil emocionado assistiu aos depoimentos dos sobreviventes, que foram salvos por uma jaqueira, que ficava na parte mais alta da cidade. Mas, desta vez, a mãe natureza, personificada numa árvore, acolheu em seus galhos e pôs no colo os seus filhos. Os braços da jaqueira salvaram a vida de náufragos desesperados.
Durante 18 horas, idosos, crianças, homem e mulheres – e até uma gestante – num total de 56 pessoas esperaram, no aconchego do abraço materno, as águas baixarem. A água baixou. A mãe-jaqueira forte, firme e solidária devolveu à vida aquelas pessoas desesperadas. E o grito da Natureza ecoooooou longe… Não mais um grito de socorro. Desta vez, o grito foi de Esperança!


(*) Sandra Lopes é professora,  poeta e escritora, autora de
“Catavento”, “Azul por Natureza”,  “Tuca Cutuca” e “Convite Carioca”.