Sonhos Esvoaçantes

11 de fevereiro de 2014

As faculdades humanas ainda são insuficientes para compreender alguns acontecimentos da natureza e a ausência de um maior conhecimento sobre os fatos acabam tornando-os sobrenaturais.

 
"O mundo é grande demais para que qualquer pessoa consiga preencher seus espaços em apenas uma existência."
 

Quando ele nasceu, uma enorme borboleta azul esvoaçou pelo quarto e pousou na cabeceira da cama, ali ficando até o primeiro choro de vida. Imediatamente, a imaginação dos presentes deu alusão ao simbolismo popularmente específico da espécie. No caso, a borboleta azul tinha especial significado para aqueles que conseguiam dela se acercar, tal como a alegria, a esperança, a felicidade e outros simbolismos mitológicos associados. 
Significados à parte, ele nada disto queria saber, apenas adorava as borboletas e todos os lugares onde elas se desenvolviam eram para ele sagrados. Não queria saber os seus nomes e nem como trabalhar com elas. Adorava observá-las e ficava fascinado com seus vôos entre as flores e as reverenciava como se fossem pedaços de sua vida iluminando e colorindo os espaços vivificados. 
Quando pousavam em locais floridos, com suas asas abertas, ele abria os braços imitando-as, como se fosse uma delas. Diurnas ou noturnas, bonitas ou não, tinham o mesmo valor, pois espalhavam formosura e não atrapalhavam ninguém. 
Quanto mais borboletas junto a ele, mais sua vida tornava-se gloriosa. Desejava poder fazer do mundo um imenso jardim, onde elas reinariam soberanas e todas as pessoas  renasceriam simbolizadas de amor e ladeadas pela alegria e felicidade. Seus bolsos estavam sempre cheios de sementes florais, que espalhava por todos os cantos onde passava. Como se isso, por si só, não fosse o suficiente, transplantava mudas e estaqueava ramos aleatoriamente. 
As flores eram um desabrochar contínuo, misturando seu perfume com o colorido das borboletas, numa perfeita integração entre todas as estações. 
O mundo é grande demais para que qualquer pessoa consiga preencher seus espaços em apenas uma existência e ele parecia estar despertando para esta consciência. Embora não desanimasse por nenhum instante dos seus objetivos, o corpo não correspondia às suas necessidades. Vez por outra, o descanso obrigatório pela fadiga era uma constante. 
Não tinha auxiliares, já que seu trabalho era considerado esquizofrênico, mas ele dizia que as pessoas é que não sabiam usufruir dos benefícios da natureza. Na realidade, ele também não compreendia totalmente os fenômenos da natureza, aplicando nela, tecnologias para que se manifestasse a seu gosto e maneira. Mas ele não conseguiu. 
Agora deitado num caixão, estava sendo velado  por borboletas dos mais variados tipos e cores, que se revezavam no contínuo vôo sobre o ataúde florido, onde também elas pousavam. Uma enorme borboleta azul pousou nas mãos postas, ali ficando até que o caixão fosse lacrado. 
As borboletas acompanharam o cortejo e debandaram após o sepultamento. Tudo isto causou muita estranheza e falsas percepções. 
É imprescindível conhecer os fundamentos da natureza, para que se possa, através do seu uso racional, manter a existência de todos os seus componentes, conhecidos ou não.
Jurandir Schmidt