Natureza

Dez peixes-bois mantidos em readaptação serão devolvidos à natureza no Amazonas

12 de março de 2018

A soltura, inédita por devolver de uma só vez ao habitat natural tantos animais ameaçados de extinção, vai ser realizada pelo Inpa numa reserva entre Anori, Coari, Beruri e Tapauá

 

 

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As ações do Programa de Reintrodução de Peixes-bois da Amazônia começaram em 2008 e até agora já foram devolvidos para a natureza 12 animais, de acordo com o Inpa (Foto: Luciete Pedrosa/Ascom Inpa)

 

 

 

Dez peixes-bois da Amazônia mantidos em um lago de readaptação, em Manacapuru, a 68 quilômetros de Manaus, voltarão para a natureza no fim deste mês. A soltura, considerada inédita por devolver tantos animais de uma só vez ao habitat natural, vai ser realizada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu-Purus, localizada entre os municípios de Anori, Coari, Beruri e Tapauá. 

 
O biólogo Diogo Souza, responsável pelo Programa de Reintrodução de Peixes-bois da Amazônia, revelou que os dez animais serão levados de uma vez em razão dos bons resultados das últimas solturas. “Os indivíduos que soltamos em 2016 (quatro) e 2017 (cinco) têm conseguido sobreviver por mais de um ano. Isso nos permite afirmar que eles se adaptaram novamente ao ambiente. Então queremos acelerar o processo já que recebemos mais ou menos dez filhotes por ano”, explicou.
 
 
 
 
Cuidado com os animais (Foto: Winnetou Almeida)
 
 
 
 
Atualmente, o Inpa tem 52 peixes-bois no Parque Aquático Robin C. Best, no Bosque da Ciência, em Manaus, e 24 no lago em Manacapuru. Souza afirmou que o objetivo é levar cada vez mais animais para o semi-cativeiro para facilitar a adaptação na natureza. “Eles permanecem no lago entre um e dois anos, tendo acesso a alimento natural, estando em contato com outras espécies de animais, ou seja, todas as características naturais do ambiente, o que ajuda na readaptação”, destacou. 
 
O biólogo lembra que no início do projeto os animais eram soltos diretamente dos tanques na natureza. Mas eles tiveram muita dificuldade de se readaptar. Dois dos quatros animais soltos entre os anos de 2008 e 2009 morreram, um perdeu o equipamento de monitoramento e o outro foi capturado pela equipe do Inpa muito debilitado, pois tinha perdido peso. “Com isso nós sentimos a necessidade de reavaliar o programa e criar essa etapa intermediária, o que vem dando certo”, disse. 

 

 

Diogo Souza (Foto: Winnetou Almeida)
 
 
 
 
 
Comércio ilegal
 
Para Souza, os maiores desafios enfrentados para a conservação do peixe-boi da Amazônia é o controle da caça e do comércio ilegal em áreas urbanas. Ambas atividades contribuem para a extinção da espécie. Se a caça fosse feita de forma equilibrada, conforme ele, o peixe-boi não estaria ameaçado de extinção. Seria possível daqui a dez, 20 anos ou mais, a população ter acesso a ele como ocorre com o pirarucu, com conservação e manejo. 
 
“Só que a caça e o comércio ilegal torna mais difícil pensar que um dia isso possa acontecer visto que a fiscalização não é eficiente. O desafio é sensibilizar o maior número de pessoas quanto à caça para que esse animal não seja extinto da natureza”, ressaltou. 
 
 
 
 
 
Peixes-bois (Foto: Winnetou Almeida)
 
 
 
 
 
Avaliação
 
Em fevereiro deste ano, uma equipe composta por 15 colaboradores do Inpa, entre técnicos, veterinários, tratadores e biólogos, realizou uma expedição para avaliar as condições clínicas e sanitárias dos 24 peixes-bois mantidos num lago de readaptação, no município de Manacapuru. Na ocasião, eles realizaram a biometria (pesagem e medidas), coleta sangue e fezes dos animais e selecionaram os dez indivíduos mais aptos para serem introduzidos de volta à natureza.
 
O Programa de Reintrodução de Peixes-bois da Amazônia é coordenado pelo Laboratório de Mamíferos Aquáticos (LMA) do Inpa em parceria com o Projeto Museu na Floresta – uma cooperação científica entre o instituto e a Universidade de Kyoto (Japão). 

 

 

 

Em readaptação (Foto: Winnetou Almeida)
 
 
 
 
 
Mais 15 em semi-cativeiro
 
O veterinário Anselmo D’Affonseca, do Laboratório de Mamíferos Aquáticos (LMA) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), revelou que após a reintrodução dos dez peixes-bois a natureza, no fim deste mês, a ideia é levar outros 15 que ficam no Parque Aquático Robin C. Best, no Bosque da Ciência, para o lago de readaptação, em Manacapuru (a 68 quilômetros de Manaus).
 
O objetivo é acelerar a readaptação dos animais a natureza, bem como desafogar os tanques do Inpa. Conforme D’Affonseca, nos últimos anos tem chegado muito filhotes que foram resgatados em rede de pesca, antes vinham mais filhotes encontrados debilitados depois que a mãe foi morta por caçadores.
 
 
 
 
 
Anselmo D’Affonseca (Foto: Winnetou Almeida)
 
 
 
 
 
“A gente recomenda que no primeiro caso, se o animal estiver em boas condições, à pessoa deve soltar no mesmo local. Mesmo que não veja a mãe, ela está lá com certeza, pois o peixe-boi é um animal difícil de encontrar, e na natureza eles tem maior chance de sobreviver”, aponta o veterinário.
 
De acordo com ele, alguns dos animais que estão nos tanques no Bosque da Ciência não serão mais soltos, exemplos, os cinco que nasceram e foram criados no cativeiro – por serem muito mansos –, outros dois que têm sequelas – o que dificultaria a sobrevivência nos rios –, bem como os quatro que tem mais de 30 anos.
 
 
Monitorados por ribeirinhos
 
Os peixes-bois da Amazônia reintroduzidos a natureza pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu-Purus são monitorados por um sistema de radiotelemetria. Os animais recebem uma espécie de cinto na calda com um transmissor. Seus movimentos são acompanhados pelos assistentes de campo, ex-caçadores da espécie que agora lutam pela sua conservação.

 

 

Soltura (Foto: Luciete Pedrosa/Ascom Inpa)
 
 
 
 
 
De acordo com o biólogo Diogo Souza, esse monitoramento permite afirmar que os peixes-bois se adaptaram novamente ao ambiente e estão usando áreas adequadas. E o trabalho em conjunto – conhecimento local com o científico – tem sido importante para definir as áreas prioritárias para os animais. “Os comunitários fazem parte do processo de monitoramento e proteção, afugentam possíveis caçadores de fora da reserva. Essa relação com a comunidade está sendo bem interessante. É um dos pontos fortes do projeto”, destaca.
 
O biólogo revelou que os dados de reintrodução e dos estudos feitos em cativeiro nos últimos anos, sobre comportamento, fisiologia, acústica, entre outros, vão servir de ferramenta para descobrir as áreas prioritárias de conservação do peixe-boi. “Nós não queremos só saber se o peixe-boi está se adaptando ou não a natureza, mas também entender um pouco qual o tamanho da área de vida do animal na Amazônia, onde prefere ficar na vazante ou na cheia, quais os lagos são importantes. Isso é fundamental para sua conservação”.