SERTÃO ROSEANO IV

Manuel Nardi, o guia de Guimarães Rosa

1 de dezembro de 2020

Manuelzão: de vaqueiro a uma personalidade da História brasileira

da redação

Tudo começou em 1956, ano importante na História do Brasil: o presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira assume a Presidência da República em 31 de janeiro, Brasília sai do papel para o concreto e Pelé faz seu primeiro jogo profissional pelo Santos, ganhando aos 15 anos a Taça Independência. Pois também em 1956, a literatura ganhou três lançamentos revolucionários: “Vila dos Confins”, de Mário Palmério, “Encontro Marcado” de Fernando Sabino, e “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa.

“Grande Sertão: Veredas”, publicado em 1956, nasceu quatro anos antes, quando Guimarães Rosa organizou uma boiada para entender melhor a cultura sertaneja. Nessa aventura, Guimarães Rosa registrou lugares, palavras, expressões e personagens. Entre tantos vaqueiros que se juntaram à empreitada, um pode foi definitivo para as obras roseanas: Manuelzão.

Manuel Nardi, mineiro de Dom Silvério, na esquina do Rio de Janeiro com o Espírito Santo, era dono de um carisma contagiante e de um senso de humor raro. Ficou órfão de pai ainda menino e arranjou trabalho como cozinheiro de tropa. Saiu de casa para vencer na vida e como achou que não venceu, nunca retornou.

Espontâneo e bem educado, não fez faculdade nem completou o primário. Vaqueiro, foi guia de Guimarães Rosa pelo sertão de Minas Gerais. Sua viagem com o escritor o tornou personagem representante de um mundo rural que deixou saudades. Com os olhos claros de Diadorim, se tornou um clássico da literatura em “Grande Sertão: Veredas”.

“Manuelzão saiu cedo de casa para vencer na vida.

Como achou que não venceu, nunca retornou”.

 

MANUELZÃO: O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Apoiava-se em um cajado sustentando encurvado suas longas barbas brancas. Com faquinha e garruchinha na cintura, chapéu e capa colonial, tinha disponibilidade para receber bem e contar causos a quem o procurasse. Dizia que dormia pouco e por isso contava as horas dobrado, somando dias e noites. Assim, não faltava tempo para puxar o fio da memória numa conversa sem fim. Filho de dona Rosa Amélia, devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, era do mundo. Não foi controlado pela política local, nem pela família, menos ainda pela igreja. Entre as muitas histórias que gostava de contar, uma das mais comoventes é a da morte da mãe que resultou, no lugar onde foi enterrada, na construção de uma capelinha na beira do Rio São Francisco.

MANUELZÃO E O VIGÁRIO

O caso inspirou o cineasta Helvécio Ratton, que fez um curta metragem. “Passei dez anos sem ver minha mãe”, contou o vaqueiro. “Levei ela prá morar comigo e pouco depois ela morreu”. Dias antes do acontecido, a mãe comentou que determinada paisagem era bonita: “O lugar ideal para se fazer um cemitério e uma capela”. Dito e feito. Manuelzão sepultou-a no local escolhido. “A melhor coisa que fiz foi enterrar minha mãe. Tive a satisfação de cumprir aquele seu desejo, do jeito que eu pude fazer”. Só que o padre de plantão recusou-se a benzer o lugar. Então, aconteceu o seguinte diálogo entre o vigário e Manuelzão:

Com ordem de quem o senhor fez a capela e o cemitério?

Fiz eu mesmo na minha ignorância.
 Mas o senhor precisa ter um patrimônio para deixar para a igreja.
Mas como? Eu não tenho patrimônio nem para morar! Vou ter para doar para os outros?
– Então vai ter que desmanchar a capela.
(O boiadeiro não concordou e o padre disse que ia pedir ordem ao bispo)
– Não precisa, ‘seu’ padre. Se o senhor não pode dar a bênção, então deixa como está. Se esse mundo todo foi Deus quem fez, então já está tudo abençoado.

 

A BÊNÇÃO TARDIA

Mais tarde, outro padre abençoou o lugar e o vaqueiro deu uma festa, imortalizada por Guimarães Rosa no conto “Festa de Manuelzão”, que integra o livro “Manuelzão e Miguilim”.

Sobre a morte, Manuelzão gostava de dizer: “Não adianta. Se não chegou a hora a pessoa escapa de tiro e até de acidente de avião. Mas quando chega, até um passarinho que voa assusta o sujeito que desequilibra e morre…”

 

Capela construída por Manuelzão em homenagem a sua mãe. A igrejinha aparece no conto Manuelzão e Miguilim, de Guimarães Rosa (foto: Léo Rodrigues)

 

“Não tenho medo da morte

porque sei que vou morrer.

Tenho medo do amor falso

que mata sem Deus querer”.

 

IMORTALIDADE EM VIDA

 Um dia Manuelzão começou uma viagem com destino a São Paulo. Em Lagoa Dourada conheceu um dono de boiada chamado José Figueiredo que resolveu contratar seus serviços. “Foi a viagem mais longa da minha vida”, disse Manuelzão.

 

Pois não é que Manuelzão só chegou a São Paulo em julho de 1992 quando concedeu entrevista ao “Jô Soares Onze e Meia”?

O vaqueiro via seu sucesso com ironia: “Estão gastando muito papel com um simples vaqueiro”.

A distância entre as diferentes realidades do mundo fez de Manuel Nardi personalidade pública. Não se preocupava em ganhar dinheiro com a imagem. Dizia: “Não sou um soberbo. Se derem, recebo e agradeço. Se não, é mais um amigo que tenho”. Foi uma existência que valorizou o viver.

Manuel Nardi morreu aos 92 anos em 1997. Tinha seis filhos, 22 netos e três bisnetos. Morava em Andrequicé, distrito de Três Marias, Minas Gerais, e vivia com uma pensão de aposentadoria do Funrural e uma pequena ajuda da prefeitura local. “Não tenho medo da morte / porque sei que vou morrer. / Tenho medo do amor falso / que mata sem Deus querer”.

MUSEU MANUELZÃO

O Museu Manuelzão faz parte do Projeto Memorial Manuelzão, em Andrequicé.

 

O Museu Manuelzão guarda as histórias e os bens culturais de Manuel Nardi tem seu conteúdo voltado para os hábitos e costumes cotidianos de um vaqueiro do sertão mineiro.  O Museu do capataz da viagem do escritor Guimarães Rosa em 1952, que, posteriormente, se tornou personagem de sua obra “Manuelzão e Miguilim” foi instalado de 2001 a 2003, os bens culturais que compõem o museu foram adquiridos da família de Manuel Nardi. No museu também estão disponíveis os registros das homenagens e a participação de Manuelzão em eventos e mídia. O restante do acervo ficou sobre a guarda técnica da UFMG, de 1997 até 2003, quando retornou para o Distrito de Andrequicé e, hoje, faz parte do Museu.

O local pertencia à família e foi adquirido, em 2001, pela Associação Comunitária de Andrequicé e o acervo doméstico pela Prefeitura de Três Marias, em 2003.