Brasília

Ex-funcionário do Zoo relembra trajetória: ‘Construí os primeiros recintos’

3 de setembro de 2023

Gilberto Figueiredo fez parte das primeiras turmas de funcionários do Zoológico de Brasília e completará 100 anos de idade em outubro

Agência Brasília* | Edição: Saulo Moreno

Próximo de completar 100 anos de idade, o sergipano Gilberto Rollemberg Figueiredo lembra das primeiras tábuas que carregou para construir o recinto que abrigava a fêmea de elefante-asiático Nely, primeiro animal do Zoológico de Brasília. O aposentado fez parte das primeiras turmas de funcionários da fundação, criada em 1957.

Gilberto com a esposa e um colega ao lado da elefanta Nely | Foto: Divulgação/Fundação Zoológico de Brasília

Hoje, com as mãos calejadas de uma vida inteira dedicada ao trabalho, Gilberto se orgulha em dizer que era chefe de compra do Zoológico e ergueu os recintos dos primeiros animais: Nely, um lobo-guará e uma anta.

“Era tudo de madeira naquela época, improvisado. Mas fazíamos bem-feito. Minha casa era próxima ao recinto da anta. Nós não só trabalhávamos no zoológico, como morávamos lá. Meus filhos foram criados todos lá dentro, e aquilo faz parte da minha vida”, conta Gilberto.

O sergipano estava morando no Rio de Janeiro quando veio para a prometida capital federal trabalhar no zoológico. Em Brasília, Gilberto casou-se e teve dois filhos. “A cidade não existia ainda. Não havia nada. Eu e a minha turma fomos os pioneiros”, conta.

Dedicação

Além dos primeiros recintos, na época chamados de “jaulas”, Gilberto também plantou as primeiras mudas de árvores do Jardim Zoológico.

O ex-funcionário guarda o quadro que ganhou de presente de colega artista mostrando o recinto da anta, que ele mesmo construiu, e o escritório do ex-funcionário no zoológico

“Fiquei no Zoológico por sete anos. Fiz um pouco de tudo e gosto de lembrar dos anos que passei com esses meus colegas funcionários do Zoo. Éramos todos bons amigos. Acho que apenas eu e um outro colega estamos vivos. Todos já partiram”, lamenta Gilberto.

E as histórias da turma são muitas. Ele e os colegas criavam solto um quati, apelidado de “Megatério”. Apaixonado pelos tratadores, o animal não fugia. “O Megatério era bem esperto. Aparecia para fazer graça com a gente. Subia no nosso ombro e roubava cigarros dos bolsos da camisa ou da calça”, relembra Gilberto.

Saudade

Apesar do carinho pelo Zoológico, Gilberto está há mais de dez anos sem visitar o local. Com a locomoção comprometida, ele conta que ficou mais difícil sair de casa, mas que um dos desejos é ainda poder passear pelo parque.

“Sei que está tudo muito diferente, mudado. As coisas evoluem muito e se modernizam. Com certeza, está muito diferente de tudo que fizemos lá nos primeiros anos”, relata.

Em 1958, Gilberto ganhou um quadro com uma pintura que mostra o recinto da anta, que ele mesmo construiu, e o escritório do ex-funcionário no zoológico. A imagem, ele faz questão de guardar com muito carinho pendurada na parede da casa onde mora, em Taguatinga.

Animais antigos

A famosa elefanta Nely morreu em 1992, provavelmente por causa da idade avançada. Estima-se que ela tinha cerca de 60 anos. A morte dela coincidiu com uma visita oficial do ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, a Brasília. Comovido pela tristeza em que os brasilienses ficaram com a morte da elefanta, Mandela presenteou o DF com um casal de elefantes.

Babu e Belinha chegaram ao zoo em 1995. O macho morreu em janeiro de 2018. Hoje, quem faz companhia a Belinha, 27, é Chocolate, 30, resgatado de um circo em 2008.

De acordo com os registros do zoológico, não há animais da época de Nely. Os bichos mais antigos são a hipopótamo Bárbara, que chegou em 1983, e uma arara-azul, de 1999.

*Com informações do Zoológico de Brasília