BRASILIA 65 ANOS
1 de abril de 2025O ‘X’ DE FONTENELLE E O SINO DE TIRADENTES
Brasília saiu do papel para o concreto em 1956, quando Ernesto Silva, diretor da Novacap, publicou, em 30 de setembro, o edital para o concurso do Plano Piloto. Havia uma premiação definida para os cinco primeiros classificados: Cr$ 1 milhão, para o primeiro; Cr$ 500 mil, para o segundo; Cr$ 400 mil, para o terceiro; Cr$ 300 mil, para o quarto; e Cr$ 200 mil, para o quinto lugar.
O edital, aberto em 11 de março de 1957, teve apresentação de 26 projetos participantes. A comissão julgadora selecionou 10 projetos, depois de uma inusitada polêmica. O representante do IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil, Paulo Fagundes, se recusou a votar em um dos dez escolhidos. Justamente o projeto de Lucio Costa. Fagundes justificou: “Não era um projeto. Era apenas uma ideia com alguns desenhos”. O representante do IAB pediu que o projeto de Lucio Costa fosse retirado e entrasse o 11º em seu lugar”. Israel Pinheiro, presidente do júri, pediu que Paulo Fagundes, do IAB, fizesse um voto em separado. Colocou-o em votação. Por maioria, a comissão negou o pedido. O projeto de Lucio Costa foi salvo graças ao empenho e clarividência do consultor inglês, Sir William Holford, e pela determinação do arquiteto Oscar Niemeyer, que usou de sua autoridade para definição do primeiro lugar. Assim, em 16 de marco de 1957, foi anunciado o projeto vencedor: o Plano Piloto de Lucio Costa, inventivo, inovador e revolucionário, com uma cidade em quatro escalas. Monumental, que confere à cidade o caráter de Capital, onde se concentram as principais atividades administrativas, com destaque para a Esplanada dos Ministérios, Catedral e Praça dos Três Poderes. Gregária, no cruzamento dos dois eixos, onde se situam os setores bancário, hoteleiro, comercial e de diversões. Residencial, onde estão localizadas as superquadras que reinventaram a forma de morar. Além dos blocos de pilotis, há áreas destinadas a escolas, clubes, comércio e igrejas. E a Bucólica, permeando as três escalas, para formar as áreas livres e arborizadas, conferindo a Brasília o caráter de Cidade-Parque.
Assim começou a gestação da cidade. Era a burocracia das ordens e das leis, antes do ronco dos tratores.
Depois de um mês de estudos, o engenheiro Augusto Guimarães Filho, braço direito de Lucio Costa, permitiu que os tratores da Novacap abrissem a primeira clareira: o “X” de Mario Fontenelle. Este Sinal da Cruz é a marca seminal da nova capital, que espelha a aventura geopolítica mais épica do povo brasileiro. O mecânico de avião, Mario Fontenelle, que ganhou uma câmera fotográfica do presidente JK, cravou sua lança no coração do Cerrado. A foto dos eixos, ainda coberto de vegetação, tornou-se o ícone do início da construção.
E o que tem a ver o “X” de Fontenelle com o sino de Tiradentes?
Aí entra a sensibilidade cívica e cultural do Fundador, presidente Juscelino Kubitschek. Como ex-seminarista e seresteiro, JK conhecia a linguagem dos sinos. Ele sabia que sinos falam. Sabia que cada sineiro está preparado para tocar várias linguagens. Cada toque tem um significado diferente. Pode dar notícia de nascimento ou fúnebres, de festa e hora da Missa. Os repiques e os dobres sonoros são uma orquestra de bronze, ecoando por montanhas e vales.
Mas, onde Tiradentes e Brasília entram na história dos sinos? Na inauguração de Brasília, o presidente JK mandou buscar o sino da Capela do Padre Faria, de Ouro Preto, para ser instalado na Praça dos Três Poderes e anunciasse a boa nova: inauguração da cidade. Veja o ressonante simbolismo do pedido de JK. Ele queria o mesmo sino que anunciou e chorou a morte de Tiradentes, em 21 de abril de 1792, anunciando a inauguração de Brasília. Por que este mesmo sino? Porque o sino da Capela do Padre Faria foi o único sino do Brasil que pranteou a morte de Tiradentes, desobedecendo ordens da Corte Portuguesa, que obrigava todos os sinos da Colônia a tocar a alegria da morte de um traidor.
Profundo simbolismo desse ato. O presidente JK fez questão de que o único sino brasileiro que pranteou a morte de nosso Herói da Liberdade, Joaquim José da Silva Xavier, estivesse com sua forte carga de emoção e de História entre os pilares laterais do prédio do Supremo Tribunal Federal, onde foi armado o altar para a celebração da missa rezada pelo Cardeal Cerejeira, o Legado Pontifício.
Na quarta-feira, dia 20 de abril, às 23:30horas, o sineiro ouro-pretano, Amador Gomes, exibiu sua arte com repiques e dobres festivos do sino da Capela do Padre Faria, enquanto o cardeal Cerejeira abençoava a Nova Capital. Logo em seguida, por rádio-mensagem direto do Vaticano, o papa João XXIII exaltou o “laborioso e generoso povo brasileiro” com sua Bênção Apostólica.
O “X” de Fontenelle e o sino que pranteou o enforcamento de Tiradentes revivem hoje os 65 anos de Brasília com uma mensagem mais do que simbólica. Tão real quanto atual, clamando por Independência e Liberdade. Cada servidor do Legislativo, Judiciário e Executivo precisa servir ao povo brasileiro e não se servir do Brasil.