O RITUAL DAS SAUDAÇÕES
1 de abril de 2025Como os índios dão boas-vindas aos hóspedes
Naturalistas Viajantes – JEAN DE LÉRY (Parte 14)
Abril é o mês que celebra o Dia do Índio. Nada melhor que ler mais um capítulo do livro de Jean de Léry, o cronista francês que escreveu um livro fundamental para entender a vida dos Tupinambás que habitavam o Rio de Janeiro quando o Brasil foi Descoberto.
SAUDAÇÕES AOS HÓSPEDES
A maneira de saudarem quem os visita é detalhada jornalisticamente: “Apenas chega o viajante a casa do mussucá a quem escolheu para hospedeiro, senta-se numa rede e permanece algum tempo sem dizer palavra. É costume escolher o visitante um amigo em cada aldeia e para a sua casa deve dirigir-se sob pena de descontentá-lo. Em seguida reúnem-se as mulheres em torno da rede e acocoradas no chão põem as mãos nos olhos e pranteiam as boas-vindas ao hóspede dizendo mil coisas em seu louvor como por exemplo:
– ‘Tiveste tanto trabalho em vir ver-nos. És bom. És valente’.
Se o estrangeiro é francês ou europeu, acrescentam:
– ‘Trouxestes coisas muito bonitas que não temos em nossa terra’.
Para responder deve o recém-chegado mostrar-se choroso também; se não quer fazê-lo de verdade deve pelo menos fingi-lo com profundos suspiros como me foi dado observar de alguns de nossa nação que com muito jeito imitavam a lamúria dessas mulheres.
Terminada a primeira saudação festiva das mulheres americanas, o ‘mussucá’ que durante todo esse tempo permaneceu sossegado num canto da casa a fazer flechas, dirá sem parecer avistar-nos (costume bem diverso dos nossos, cheios de mesuras, abraços, beijos e apertos de mão): ‘Ereiupe’, isto é, ‘vieste, como estás, que desejas,’ etc. A isto se responderá de acordo com o colóquio formulado em língua brasílica e que se encontra no capítulo XX. Depois disso o ‘mussucá’ perguntará se queremos comer. Se respondermos afirmativamente, mandará depressa aprontar e trazer numa bonita vasilha de barro um pouco de farinha que comem, veações, aves, peixes e outros manjares; como, porém os selvagens não têm mesas nem bancos nem cadeiras, servem-no no chão raso. Quanto à bebida, dão-nos cauim que costumam ter preparado.
OS FRUTOS DA TERRA
Em seguida voltam as mulheres com frutos e objetos da terra, a fim de trocá-los por espelhos, pentes ou miçangas para enfeites de braços. Quando alguém quer dormir na aldeia onde se encontra, o velho manda armar uma bonita rede branca, e, embora não faça frio nessa terra, manda acender três ou quatro fogueiras em torno da rede, já por causa da umidade, já por ser de tradição”.
Já me referi ao fogo, a que os selvagens chamam ‘tatá’ e à fumaça denominada ‘tataim’, cabe-me agora dizer que o acendem quando lhes apraz de uma maneira maravilhosa e desconhecida de nós. (…)
Em suas caçadas no mato ou em suas pescarias nos lagos e rios, para qualquer lado que se dirijam, ignorando o uso da pedra e do fuzil, carregam por toda parte duas espécies de madeiro, uma tão dura como aquela de que os nossos cozinheiros fabricam espetos e outra tão mole que parece podre. Quando querem fazer fogo pegam de um pau em forma de fuso, preparado com a madeira dura e mais ou menos de um pé de comprimento, e colocam com a ponta no centro de outra peça feita com a madeira mole. Esta peça é deitada no chão ou posta sobre um tronco mais ou menos grosso; em seguida rodam em rapidez o pau pontudo entre as palmas das mãos como se quisessem furar a peça inferior. O rápido e violento movimento imprimido ao fuso desenvolve tal calor que em se colocando ao lado algodão ou folhas secas de árvores, o fogo pega perfeitamente; e asseguro aos leitores que eu mesmo acendi fogo desse modo.
A RETRIBUIÇÃO DO HÓSPEDE
Depois de comer, beber e repousar ou dormir em suas casas, o hóspede bem-intencionado deve dar aos homens facas ou tesouras ou pinças de arrancar barba. Às mulheres dará pentes e espelhos, e aos meninos anzóis.
Mostram os selvagens sua caridade natural presenteando-se diariamente uns aos outros com veações, peixes, frutas e outros bens do país; e prezam de tal forma essa virtude que morreriam de vergonha se vissem o vizinho sofrer falta do que possuem; e com a mesma liberalidade tratam os seus aliados.
ADMIRAÇÃO PELAS MERCADORIAS
Como andávamos sempre com um saco de couro cheio de mercadorias que nos serviam de moeda, ao deixarmos a aldeia demos-lhes facas, tesouras e pinças e às mulheres presenteamos com pentes, braceletes e miçangas e aos meninos com anzóis. Para mostrar o caso que fazem dessas coisas, direi que estando certa vez numa aldeia, o meu ‘mussacá’ pediu-me que lhe mostrasse o que tinha no ‘carameno’, isto é, saco de couro. Despejei tudo numa bonita vasilha de barro que ele mandara trazer. O velho admirou a mercadoria longamente e depois chamou outros selvagens e lhes disse: ‘Considerai, meus amigos, o personagem que tenho em minha casa; com tantas riquezas não lhes parece um grande senhor?’ Não pude deixar de sorrir para um companheiro que estava a meu lado, pois tudo isso que o selvagem tanto apreciava se resumia em cinco ou seis facas encabadas de diversas formas, outros tantos pentes, dois ou três espelhos grandes e mais algumas miudezas que em Paris não valeriam grande coisa. Como eles prezam sobretudo às pessoas liberais e como eu desejava crescer ainda na sua admiração, dei-lhe publicamente a maior e a mais bonita das facas; e ele apreciou tanto o presente quanto em França seria apreciado um trancelim de ouro de cem escudos.
PRÓXIMA EDIÇÃO 374 – maio 2025 – Parte 15
Jean de Léry finaliza suas observações sobre os indígenas com a descrição ‘de como tratam os selvagens os seus doentes, dos funerais, a sepultura e do modo de chorar os seus defuntos’.