Parque Nacional

Parque Nacional do Itatiaia revela as primeiras pinturas rupestres registradas no estado do Rio de Janeiro

4 de abril de 2025

Traços similares à Tradição São Francisco sugerem trocas culturais entre povos do Sudeste e Nordeste há milênios

Comunicação ICMBio

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– Foto: Equipe Museu Nacional/UFRJ – UERJ

No final de 2023, um sítio arqueológico com pinturas rupestres foi identificado no Parque Nacional do Itatiaia, trazendo novas perspectivas para a arqueologia brasileira. Batizado de Sítio Agulhas Negras, o local está a cerca de 2.350 metros de altitude e foi descoberto por Andres Conquista, colaborador da concessionária Parquetur.

“Estava fotografando os lírios e escalando uma pedra durante meu horário de almoço. Ao subir em outra rocha e descer pelo lado oposto, vi as pinturas na superfície”, relata Conquista.

As pinturas

Os desenhos encontrados no Sítio Agulhas Negras são predominantemente geométricos, alguns apresentando bicromia (duas cores), combinando tons de vermelho e amarelo-alaranjado. Além disso, há grafismos zoomorfos, como uma figura que lembra um lagarto visto de cima.

“Os traços dessas pinturas guardam semelhança com a Tradição São Francisco, cujos registros estão concentrados no médio e baixo curso do Rio São Francisco, entre Minas Gerais e Bahia. Caso essa relação se confirme, as pinturas de Itatiaia representarão a manifestação mais ao sul dessa tradição no Brasil”, afirma Carlos Gabriel, arqueólogo.

Foto: Equipe Museu Nacional/UFRJ - UERJ Foto: Equipe Museu Nacional/UFRJ – UERJDatação e importância histórica

Ainda não é possível determinar a idade das pinturas. Os registros estão em uma pequena formação rochosa e serão analisados por especialistas nos próximos meses.

Além de seu valor artístico e cultural, o Sítio Agulhas Negras reforça a presença contínua de povos indígenas no Brasil antes da chegada dos europeus. A localização no planalto de Itatiaia, uma região de clima distinto dentro do Sudeste, sugere que diferentes paisagens foram habitadas ao longo dos milênios. Além disso, as semelhanças com registros de outras partes do país indicam uma intensa circulação de ideias e símbolos entre os povos ameríndios.

Conexão com outros sítios arqueológicos 

O Sítio Agulhas Negras pode estar relacionado a outros sítios arqueológicos da região, como os localizados em Andrelândia, Baependi e Carrancas, no Sul de Minas Gerais. O destaque fica para o Sítio da Serra de Santo Antônio, em Andrelândia, o mais estudado da região e associado à Tradição São Francisco.

No nível arqueológico mais antigo escavado nessa área, uma datação revelou 3.030 anos antes do presente (AP). É possível que os autores das pinturas de Itatiaia tenham pertencido à mesma “onda cultural”.

O que são pinturas rupestres? 

As pinturas rupestres são uma das expressões culturais mais antigas da humanidade, transmitindo informações sobre valores estéticos e simbólicos das sociedades que as produziram. Essas representações eram feitas com pigmentos naturais como carvão, argila, sangue e minerais, retratando cenas do cotidiano, figuras humanas, animais e símbolos abstratos.

As mais antigas já encontradas têm cerca de 51.200 anos e estão localizadas em uma ilha da Indonésia. No Brasil, esta é a primeira vez que um registro desse tipo é identificado no estado do Rio de Janeiro, tornando o achado no Parque Nacional do Itatiaia um marco inédito.

Foto: Equipe Museu Nacional/UFRJ - UERJ Foto: Equipe Museu Nacional/UFRJ – UERJMedidas adotadas pelo Parque Nacional e Instituto Chico Mendes

Assim que a descoberta foi confirmada, a gestão do Parque Nacional do Itatiaia notificou o IPHAN/RJ para o registro oficial e orientações sobre a proteção do sítio. Em abril de 2024, equipes do IPHAN, UERJ e Museu Nacional/UFRJ visitaram o local para as primeiras análises.

A pesquisa foi autorizada pelo Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (SISBIO) sob o título “Identificação, pesquisa e gestão de sítios arqueológicos no planalto do Parque Nacional de Itatiaia, RJ, Brasil”, com o número 98090-1.

Entre os pesquisadores envolvidos, estão:

  • Núcleo de Pesquisas Arqueológicas Indígenas da UERJ: Anderson Garcia, Diego Emmerich e Paulo Seda
  • Laboratório de Antropologia Biológica do Museu Nacional/UFRJ: Cláudia Carvalho e Marcos Davi Cunha
  • Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu Nacional: Madu Gaspar e Carlos Gabriel Paes
  • Laboratório de Imagem do Museu Nacional: Pedro Von Seehausen
  • Núcleo de Preservação Ambiental do Museu Nacional: Eduardo Barros
  • Laboratório de Geologia do Museu Nacional: Renato Ramos

A direção do Parque Nacional do Itatiaia mantém contato permanente com os arqueólogos e está comprometida com a preservação da área, que agora recebe oficialmente o nome de Sítio Arqueológico Agulhas Negras.

Visitação não será permitida neste momento 

A proteção do sítio arqueológico é uma responsabilidade compartilhada entre ICMBio, pesquisadores, IPHAN e a sociedade.

“Neste primeiro momento, a visitação ao sítio arqueológico não será permitida. Vamos aguardar o avanço dos estudos para avaliar, junto aos pesquisadores, a melhor estratégia para visitação futura”, afirma Felipe Mendonça, gestor do Parque Nacional do Itatiaia.