FOTOGRAFIA DE MICHAEL NAIFY
1 de janeiro de 2026A impactante defesa da natureza e da vida
Conheça algumas das obras do fotógrafo americano, Michael Naify, um brasilianista (melhor dizendo, “mineiranista”), que vem realizando minucioso trabalho de pesquisa ambiental e social (2018-2024) nas trilhas e caminhos, antigos e novos, da mineração, em Minas Gerais. Uma de suas fotografias (aerial view of mine), foi incluída, pelo The Independent Photographer, entre as 10 melhores imagens icônicas do Brasil, ao lado de outros grandes artistas, com destaque para Sebastião Salgado.

O fotografo Michael Naify apresenta uma série de cianotipias, a partir de pesquisas em Minas Gerais, em resposta às tragédias ambientais e sociais. Naify questiona as profundas cicatrizes deixadas pelo colonialismo, capitalismo e escravidão.

Michael Naify: autorretrato
ORIGENS, um de seus trabalhos, inicia-se com uma fotografia (cianótipos) intitulada “Autorretrato”, apresentando um ser híbrido, parte homem, parte animal (com uma flor?), que parece emergir, ereto, das sombrias paredes rochosas do interior de uma mina. Seus pés, cravados nos desmoronados de rochas no chão, dão a impressão de flutuar no espaço; seu corpo claro, em contraste com o escuro do ambiente, desprega-se do restante da imagem, como se projetado no ar.

Paredes que sangram, em Catas Altas.

A foto de um anjo de asas abertas, silhueta desfocada, tendo ao fundo a cidade de Beagá.

Trabalhador nas siderurgias trabalhando mascarado para se proteger da poluição.
Uma bela alegoria ao conjunto de fotografias de Michael Naify nas regiões das Minas, com imagens que capturam fragmentos de objetos, bocas de minas abandonadas, grilhões, instrumentos de intimação e tortura, destroços de muradas, construções depredadas, detritos, corpos, mato, brasões, emblemas esquecidos ou abandonados.
Entre elas (intencional?), a foto de um anjo de asas abertas, silhueta desfocada, tendo ao fundo uma cidade grande.
Tais imagens, e o anjo embaçado, evocam outro anjo, Angelus Novus (desenho de Paul Klee, 1920), utilizado por Walter Benjamin, na sua proposição sobre a história como um processo incessante de destruição, morte e ruinas; ou seja, progresso, acumulação, extermínio.
A arte possui a capacidade de transformar resíduos e vestígios em relíquias preciosas, como demonstra seu trabalho que, segundo ele, preocupa-se em “registrar reflexos e sombras de uma história” não contada; de documentar “feridas deixadas no corpo da terra e da humanidade”, sabendo, de antemão, que seus registros “apenas arranham a superfície de uma história rica, mas brutal”, associada à atividade mineradora no Quadrilátero Ferrífero.

Vista aérea de mina a céu abeto na região de Congonhas do Campo.
OS CICLOS ECONÔMICOS DE MINAS
A região presenciou sucessivos ciclos econômicos. Primeiro, o do ouro (século XVIII), caracterizado por intensa exploração da natureza e do ser humano, seguido por um longo e doloroso período de estagnação e decadência.
O segundo, do ferro, avançou ao longo do século XX, ingressou no XXI, e encontra-se em pleno curso. Ouro e ferro vêm, desde a origem, forjando e condicionando a trajetória econômica, social. Ambiental e cultural do estado. E o destino do povo mineiro.
Na viagem mítica que esse ser mutante empreende pelos caminhos da antiga e nova Estrada Real, assume ele o papel de arqueólogo/geólogo, que garimpa rastros do passado e do presente, dispersos e por vezes sobrepostos, em diferentes camadas estratigráficas do tempo e do espaço. Talvez por essa razão, sua criação escapa de um tempo lógico, circunscrito e compreensível, transversal ou longitudinal, para ingressar numa temporalidade própria do artista.
Sua imersão no território onde as minas são mais generalizadas, “são gerais” e profunda. Estende-se inclusive para a técnica de reprodução fotográfica utilizada, cianótipos manchados de pó de café. A cianotipia, originária do século XIX, utiliza, como ingrediente ativo do processo de impressão, elementos extraídos do minério de ferro, os chamados sais de ferro, que puxam a cor para o ciano.
Quando o café (um dos principais produtos de exportação do estado) é associado ao ferro, a reação entre os dois elementos (sais de ferro e tanino do café) mancham a imagem, diluindo ou desfazendo detalhes, introduzindo a inquietante sensação de incompletude, de insuficiência. Provocando no observador a desejo de ir além, de desvendar o que se perdeu, de recompor a peça de porcelana irremediavelmente quebrada, desfeita.
Alerta, resgate, denúncia, reconhecimento, mas nunca aceitação ou condescendência.
Indícios do que foi, do que teria sido e não foi, do que ainda é e não é. Do que será?
A provável flor que se segura no interior de uma mina abandonada carrega uma mensagem de esperança. Como disse o poeta Drummond, que viu sua cidade natal – Itabira – ser dilapidada pela mineração:
“Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia.
Será realmente uma flor?
