Naturalistas Viajantes

MARIANNE NORTH (PARTE 3)

1 de janeiro de 2026

Nenhum dos artistas viajantes do Século 19 foi capaz de retratar a paisagem e a flora brasileiras com a intensidade e o colorido dos óleos da pintora inglesa Marianne North

Silvestre Gorgulho

Marianne North cuidou e viajou com seu pai viúvo durante grande parte de sua vida. Após a morte dele, em 1869, totalmente independente financeiramente, aos 40 anos, Marianne partiu sozinha para explorar e pintar o mundo. Marianne viajou pelos continentes pintando a natureza de 18 países. Marianne North recebeu, em 2001, uma homenagem da Fundação João Pinheiro de Belo Horizonte, que publicou uma edição sobre a desenhista com título muito sugestivo: Marianne North – Memórias de uma Vida Feliz. E sua felicidade continua a contaminar os amantes da natureza ao longo de mais de 135 anos.

 

Depois de aprender as técnicas de pintura a óleo e abandonar as aquarelas, Marianne North viajou o mundo. Com o casamento de sua irmã mais nova, Catherine, e a perda da representação parlamentar do pai em 1865, os destinos das viagens se expandiram até o Egito e a Síria. Segundo seus biógrafos, a jardinagem, os estudos botânicos e a pintura já faziam parte de sua vida. Mas a morte de seu pai, em 1869, desfez as peripécias aventurescas da dupla pai e filha. Marianne North, solteira, rica e beirando os 40 anos, retirou-se por um tempo do convívio social para digerir a perda do pai. Decidiu então a dedicar sua vida à pintura de plantas e flores em seu ambiente natural.

Marianne North viajou com seu pai viúvo durante grande parte de sua vida. Após a morte dele em 1869, Marianne, financeiramente independente aos 40 anos, partiu sozinha para explorar e pintar o mundo.

COM CHARLES DARWIN

Marianne North era amiga de Joseph Hooker e Francis Galton, – primo de Charles Darwin – amizade que estreitou sua relação com o naturalista, geólogo e biólogo britânico, célebre por seus avanços sobre evolução nas ciências biológicas. O próprio Darwin a incentivou a visitar a Austrália. Pintou quase mil espécies de plantas, algumas desconhecidas pela ciência e descritas com base em seus desenhos, reconhecimento inconteste à sua precisão científica. Projetou e bancou a construção de uma galeria para exposição permanente de seus quadros, pela qual recebeu carta de agradecimento da rainha Vitória.

Em 1885 viaja para o Chile, para pintar in locu a Araucaria imbrigata, lacuna em sua coleção que a incomodava. Já mostrava sinais da saúde debilitada e, a partir de 1887 até sua morte em 1890, cuidou de sua casa/jardim sempre amparada por sua sobrinha favorita, seus amigos e sua irmã Catherine, que editou postumamente suas memórias, publicadas em dois volumes com o romântico título de “Recollections of a Happy Life”. As partes de maior interesse para o leitor brasileiro foram publicadas, em 2001, pela Fundação João Pinheiro em uma linda edição: ‘MARIANNE NORTH – Memórias de uma Vida Feliz”.

CARTA DE CHARLES DARWIN

O apoiador mais famoso de Marianne North foi Charles Darwin, o naturalista inglês cujas observações meticulosas se tornaram a base da biologia evolutiva. Em 1880, North foi “convidado pela filha do naturalista, senhora Lichfield, para conhecer seu pai, Charles Darwin, que queria me ver, mas não conseguia subir as escadas”. North se refere a Darwin como “o maior homem vivo, o mais sincero, bem como o mais altruísta e modesto. Ele sempre tentava dar aos outros, e não a si mesmo, o crédito por seus grandes pensamentos e obras”. Segundo registros do Jardim Botânico Real de Kew o “poder de Darwin de trazer à tona os melhores pontos de vista de outras pessoas” estendeu-se a Marianne North, a quem ele aconselhou a ver e pintar a vegetação australiana “que era diferente da de qualquer outro país”. North, tomando o conselho de Darwin como “uma ordem real”, foi “imediatamente” e retornou ansiosamente a Down House, em 1881, para sentar-se com Darwin e seus filhos sob uma árvore frondosa para inspecionar suas pinturas juntos.

Em 2 de agosto de 1881, Marianne recebe uma carta de Charles Darwin.

A CARTA

“Minha cara Srta. North, – Sou muito grato pela “Carneira Australiana”, que é muito curiosa. Se eu a tivesse visto a um metro de distância sobre uma mesa, teria apostado que era uma cobra coral do gênero Porites.

Estou tão feliz por ter visto suas imagens australianas, e foi extremamente gentil de sua parte trazer à tona, com considerável vivacidade, cenas de vários países que visitei, e não são vários países que visitei, e não é um prazer pequeno; mas minha mente, nesse aspecto, deve ser um mero deserto estéril comparado à sua.

Permaneço, querida Srta. North, seu, verdadeiramente grato, CHARLES DARWIN”.

Árvore de almíscar e fundo de “Faia” perene, Victoria. Olearia argophylla por Marianne North –  pintada em 1880 em Victoria, Austrália.

Os sobreiros (Quercus suber L.) pintados em Sintra, Portugal

‘Quase me tirou o fôlego com sua beleza encantadora e fantástica; a própria névoa que sempre parecia pairar entre as árvores e plantas tornava tudo ainda mais encantador e misterioso. Havia uma infinidade de samambaias e todos os outros tipos de samambaias, todos crescendo empilhados uns sobre os outros; árvores com galhos e caules completamente cobertos por elas… Um rosa ceroso e denso cobria tudo, assim como a samambaia rasteira e muitos licódios, musgos e líquens. Era como uma cena de pantomima, boa demais para ser real, com as folhas das samambaias se cruzando e se recruzando como uma rede.’ [p. 50]

North cuidou e viajou com seu pai viúvo durante grande parte de sua vida. Após a morte dele em 1869, Marianne, financeiramente independente aos 40 anos, partiu sozinha para explorar e pintar o mundo.

O RESGATE DE SUA OBRA

Ao contrário de outras naturalistas, a riqueza de seu pai proporcionou a Marianne os meios adequados para resgatar sua obra da obscuridade. Em 1882, uma galeria com obras de Marianne North foi inaugurada no Jardim Botânico Real de Kew, na Inglaterra. Financiada por North, a galeria foi projetada por James Fergusson sob sua supervisão – a própria Marianne arranjou as pinturas e criou o friso e as decorações que cercavam as portas da galeria. As 832 pinturas de North proporcionam aos cientistas de Kew e ao público em geral prazer empírico e estético – a precisão científica das pinturas de North levou até mesmo a que quatro espécies de plantas recebessem seu nome.