Naturalistas Viajantes

PETER LUND (Parte 1)

1 de fevereiro de 2026

PETER WILHELM LUND (* 1801 – +1880) O VIAJANTE SEDUZIDO PELA NATUREZA BRASILEIRA

Miguel Flori Gorgulho e Silvestre Gorgulho

Há 146 anos, o mundo perdia o genial homem das cavernas, considerado o pai da paleontologia brasileira. Peter Lund viveu mais de 40 anos em Lagoa Santa e fez suas pesquisas em mais de 800 grutas na região. Para os parentes e amigos dinamarqueses ele era Wilhelm. Para os brasileiros era chamado carinhosamente por doutor Lund. Para o mundo científico ele é o naturalista Peter Wilhelm Lund.  E para pesquisadores, como o professor Cástor Cartelle, da PUC-MG, e estudiosos da espeleologia, da paleontologia e da arqueologia ele é considerado o pai destas três ciências. Seu trabalho final em medicina, em 1824, foi adotado como livro-texto em universidades europeias e antecipou o reconhecimento que o cientista teria no futuro. Uma boa herança, administrada criteriosamente por seu irmão que, como diretor do Banco Nacional da Dinamarca, permitia a independência financeira para custear suas viagens e explorações.

 

 

CHEGADA DE PETER LUND AO BRASIL

Peter Wilhelm Lund (Copenhague 14 de junho de 1801 – 25 de maio de 1880, em Lagoa Santa-MG) formou-se primeiro em Medicina, em 1824, pela Universidade de Copenhague.  Pertencia uma próspera família na região da Jutlândia, na Dinamarca. Fez duas viagens ao Brasil. A primeira entre 1825 e 1829, pelo seu grande interesse nos estudos de Botânica e de Zoologia. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro, mas fez várias expedições pelo interior do País. Voltou para a Dinamarca em 1829, para se aprofundar nos estudos. Doutorou-se pela Universidade de Kiel e visitou vários centros de estudos na Europa e cursos especiais em Berlim, Praga, Viena, Roma e Paris.

A Editora UFMG publicou o livro “Peter Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa”, de Birgitte Holten e Michael Sterll. A obra aborda a trajetória do naturalista dinarmaquês Peter Wilhelm Lund, que chegou ao Brasil em 1832 e passou dez anos pesquisando as grutas calcárias próximas de Lagoa Santa. Os resultados de suas buscas conduziram a novas explicações sobre o aparecimento e evolução da Terra, flora, fauna e do ser humano e contribuiu para a aceitação da teoria da evolução de Darwin.

A SEGUNDA VIAGEM (DEFINITIVA) AO BRASIL

Depois de se sentir mais preparado cientificamente, Peter Lund voltou, em 1833, para o Brasil. Aí de forma definitiva. Motivado pelos relatos de Alexander von Humboldt, que percorreu a América Espanhola no início do século XIX, Peter Wilhelm Lund parte em 28 de setembro de 1825 para o Brasil, terra interdita aos naturalistas estrangeiros até a mudança da Família Real em 1808.  Lund chega ao Rio de Janeiro em oito e dezembro, durante os festejos de comemoração do nascimento do futuro imperador.

A INFLUÊNCIA QUE LUND RECEBEU

DE ALEXANDER VON HUMBOLDT

Os relatos e estudos de Alexander Humboldt fascinaram Peter Lund. Quando voltou para a Europa, Humboldt levou consigo as novidades de uma expedição de cinco anos pelo Novo Mundo, entre 1799 e 1804. Nesse tempo, Alexander visitou lugares que hoje fazem parte da Venezuela, Colômbia, Cuba, Equador, Peru e México, reunindo, registrando e estudando povos, artefatos e espécies de plantas então desconhecidas.

Alexander von Humboldt (1769-1859) nasceu no Reino da Prússia, atual Alemanha. De família abastada, ele viveu sua infância no famoso Castelo de Tegel, no norte de Berlim, segundo Willi Bolle, professor de literatura da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Junto com seu irmão mais velho, Wilhelm von Humboldt, Alexander recebeu esmerada educação e se mostrou sempre interessado por assuntos ligados à natureza. Assim, Alexander decidiu estudar ciências naturais nas universidades de Frankfurt an der Oder e Göttingen após concluir seus estudos fundamentais.

Depois da morte de sua mãe, em 1796, os irmãos Humboldt herdaram uma fortuna, o que lhe permitiu largar seu emprego no serviço público para se dedicar apenas à ciência. Antes da aventura científica na América, Alexander se mudou para Paris, centro científico mundial da época. Lá iniciou o planejamento de sua viagem, financiada com recursos próprios. Os irmãos vieram para a América e ficaram na Venezuela por 16 meses, durante os quais exploraram a região dos llanos e as florestas tropicais às margens do rio Orinoco, viajando até a fronteira com o Brasil.

Retrato do naturalista Alexander Humboldt feito por Weitsch em 1806.

 

PESQUISA E ESTUDOS SEM APOIO

As pesquisas científicas realizadas por Peter Lund, em Lagoa Santa, na primeira metade do século XIX, estavam longe dos centros de referência da época e sem o apoio científico necessário no Brasil. Numa área de egos exacerbados e na dependência de correios morosos e ineficientes, levam o pesquisador a transferir sua coleção de ossos fossilizados para Copenhague. Lá seriam catalogados e estudados sob sua orientação. A supervisão a cientistas mais jovens e a agradável convivência com as pessoas simples da região harmonizam seus interesses. Em carta a um colaborador, explica assim sua opção: “O que me mantém é o fruto principal da filosofia: resignação, a vista do céu tropical de palmeiras e bananeiras, o ar e o clima do Brasil, a relação livre com a natureza, dispensa de conduzir política e duas mil milhas da Europa delirante. Entretanto, é, naturalmente, sempre lamentável não poder fazer nada, e se minha existência no momento inútil para a ciência, ainda pudesse prestar um serviço indireto, para facilitar as pesquisas do Senhor por aqui, seria ainda melhor”.

 

PROXIMA EDIÇÃO: MARÇO DE 2026

Naturalistas Viajantes – PETER LUND (Parte 2)

O VIAJANTE SEDUZIDO PELA NATUREZA BRASILEIRA

Peter Lund fez duas viagens ao Brasil. A primeira entre 1825 e 1829, pelo seu grande interesse nos estudos de Botânica e de Zoologia. Em 1829, voltou para a Dinamarca. Doutorou-se pela Universidade de Kiel e conheceu outros centros de pesquisa na Alemanha e França. Retornou ao Brasil, em 1833 para não mais voltar à Europa.