PETER LUND (Parte 2)
1 de março de 2026O RETORNO À DINAMARCA PARA NOVOS ESTUDOS E A VOLTA DEFINITIVA PARA MINAS GERAIS.
Peter Lund fez duas viagens ao Brasil. A primeira entre 1825 e 1829, pelo seu grande interesse nos estudos de Botânica e de Zoologia. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro, mas fez várias expedições pelo interior do País. Voltou para a Dinamarca em 1829, para se aprofundar nos estudos. Doutorou-se pela Universidade de Kiel e retornou ao Brasil, em 1833 para não mais voltar à Europa.
Na sua primeira viagem ao Brasil, entre 1825 e 1829, Peter Lund evita o Rio, pois a vida social e o calor impedem seus estudos, e hospeda-se em Niterói, com a mesma família francesa que recebera Saint-Hillaire alguns anos antes. Viajou para Nova Friburgo, onde permanece alguns meses. Lund deixou registrado:
“Para chegar lá levamos quatro dias cavalgando de manhã até a noite. Atravessávamos rios com a água subindo até a cintura em uma forte corrente e sobre pedras lisas arredondadas com que o fundo era coberto, tornando tremendamente difícil controlar os cavalos. Logo à frente, os cavalos tinham que enfrentar uma légua inteira dentro do lodo com a lama subindo até os seus quartos. O último dia foi especialmente difícil, quando tivemos que atravessar uma cadeia de montanhas de 6.000 pés de altura”.
Depois de uma temporada em uma fazenda de nome Rosário, mais no interior, retorna para o povoado de pesca Taipu, na região do Rio, para preparar seu regresso à Europa.
Diz Peter Lund: “É impossível explicar os diferentes tipos de sentimento, a quase alegria misturada com uma melancolia impronunciável que me invadia quando, sob a brisa refrescante após o pôr-do-sol, acabávamos o trabalho do dia deitando-se em nossos couros de boi, enquanto o puro céu estrelado livre de qualquer interferência humana lançava o seu manto gelado sobre as nossas cabeças. Vozes noturnas em incessante variação ressoavam de florestas nas proximidades, e os seus tons misteriosos provocaram surpresa e temor, mantendo-me acordado por diversas horas até que o farfalhar das folhas de buriti me fizessem cair no sono, do qual eu só despertaria graças ao som de milhares de pássaros cantando a alvorada”.
A VIAGEM DEFINITIVA DE LUND AO BRASIL
Ainda em Paris, Lund começa a questionar sua transferência para algum lugar de clima mais quente, para fugir do frio nórdico que causara a morte precoce de dois de seus irmãos. Depois de uma temporada em Paris e de um curto período no aconchego familiar.
Outro fato leva Peter Lund a retomar suas pesquisas no Brasil. Ele é procurado pelo botânico alemão Ludwig Riedel, que acompanhara Langsdorf em uma trágica expedição até a Amazônia. Riedel, que abrasileirou seu nome para Luiz e casou-se por aqui, convida Lund para uma expedição pelo interior do Brasil.
Chegam ao Brasil em 20 de janeiro de 1833, para nunca mais voltar à Europa. Mas isso ele ainda não sabia.
Lund descreve assim o início da viagem: “Em toda a parte estamos rodeados por florestas queimadas, cuja fumaça do fogo aliada à poeira da estrada ameaça sufocar-nos. Não há capim para os nossos animais, nem água nos rios ou riachos. Tivemos que alimentá-los com milho e matar a sede com cana de açúcar”.
A expedição passa por Taubaté, São Paulo, São Carlos de Campinas, Sorocaba, São Bento d’Araraquara e Villa de Franca.
Na travessia do Rio Pardo, Lund anota: “Os canoeiros que deveriam nos atravessar apareceram no começo da noite, anunciando a sua chegada com o som de um berrante ao longe que, combinado com o eco da floresta e o silêncio total que nos rodeava, criou um efeito mágico. Eram mulatos e negros seminus. Deixamos que eles enchessem seus estômagos vazios ao lado do fogo, onde se acomodaram e nos entretiveram uma boa parte da noite com as histórias infantis sobre todos os monstros que deveriam se alimentar nas profundezas do rio”.
DE CATALÃO PARA PARACATU
Em Catalão, decidem redirecionar a expedição para a região das Minas Gerais e seguem para a Villa de Paracatu do Príncipe.
Escreve extasiado:
“Diariamente acampávamos nas encostas daqueles vales de buritis. As impressões da maravilhosa paisagem natural eram e sempre serão indeléveis em minha memória. Ao mesmo tempo é impossível explicar os diferentes tipos de sentimento, a quase alegria misturada com uma melancolia impronunciável que me invadia quando, sob a brisa refrescante após o pôr-do-sol, acabávamos o trabalho do dia deitando-se em nossos couros de boi, enquanto o puro céu estrelado livre de qualquer interferência humana lançava o seu manto gelado sobre as nossas cabeças. Vozes noturnas em incessante variação ressoavam de florestas nas proximidades, e os seus tons misteriosos provocaram surpresa e temor, mantendo-me acordado por diversas horas até que o farfalhar das folhas de buriti me fizessem cair no sono, do qual eu só despertaria graças ao som de milhares de pássaros cantando a alvorada”.
Atravessam o Rio São Francisco em cinco canoas, pouco acima do rio Abaeté, antes de chegarem à Villa de Santo Antônio do Curvello. Um ano após a partida do Rio, ao pernoitarem no rancho dos tropeiros da vila, Lund ouve outro viajante argumentar com Riedel que contava sempre com a vantagem de usar o dinamarquês quando lhe convinha, pois ninguém o compreenderia. Enrolado em seu couro de boi, rebate de pronto para não contar muito com isso.
PEDRO DINAMARQUÊS
APRESENTA GRUTAS A LUND
Conta-se, assim, seu encontro com Peter Claussen, que se autodenominava Pedro Cláudio Dinamarquês, misto de fazendeiro, geólogo amador e negociante oportunista. Foi Claussen que apresentou a Lund as grutas calcárias da região e os fósseis pré-históricos. O fato altera a vida de ambos. A expedição segue por Lagoa Santa, Santa Luzia e Caeté. Riedel e Lund coletam na Serra da Piedade e descansam por um tempo na mina de Gongo Soco, administrada pelos ingleses.
Em carta para o primo Peter Christian Kierkegaard, irmão do filósofo Soeren Kierkegaard, resume: “No sertão eu encontrei a paz e a ocasião perfeita para a mais profunda contemplação e trabalhei arduamente para construir a minha concha, a filosofia da vida prática, na qual se busca abrigo e proteção contra as tempestades do mundo. Mas a falta de notícias é penosa”.
AS CAVERNAS MÁGICAS
Em Ouro Preto, Lund despacha suas coleções e despede-se do amigo, com quem mantém contato por cartas até a morte de Riedel em 1861.
Retorna ansioso para a região das cavernas de Curvelo, que denomina de “cavernas mágicas’, para dedicar-se à exploração de fósseis e ossadas em associação com Claussen, que o buscara em Ouro Preto.
Não se decepciona: “Com um arrepio secreto adentrei a primeira dessas grutas místicas. Tudo o que me cercava dirigia-se a mim em um idioma estranho. Por todo lado eu via os traços de acontecimentos horríveis, que fecharam o capítulo anterior da história da evolução do globo terrestre, e, não sem horror, contemplei as infelizes vítimas da grande cena de sofrimento, cujos ossos jaziam aos milhares, espalhados aos meus pés. Uma voz secreta logo me disse que esses monstros não pertenciam ao mundo próximo; mal ousei, com as mãos trêmulas, tocar esses santuários da natureza e levou um longo tempo antes que, finalmente, com a mais ansiosa das expectativas, eu partisse para o penoso trabalho de tentar decifrar esses veneráveis hieróglifos”.

Gruta Maquiné na visão de Peter Lund: “Os esplêndidos reflexos produzidos pela luz, ferindo as inúmeras facetas destes cristais, deslumbram a vista, de modo que o homem se julga transportado a um palácio de fadas”.
Na Gruta de Maquiné, não se contém: “Os esplêndidos reflexos produzidos pela luz, ferindo as inúmeras facetas destes cristais, deslumbram a vista, de modo que o homem se julga transportado a um palácio de fadas. A mais rica imaginação poética não saberia criar tão esplêndida morada para seres maravilhosos; diante dessa notável gruta, ela seria forçada a confessar a sua impotência. Meus companheiros permaneceram durante muito tempo mudos à entrada deste templo; depois, involuntariamente, se ajoelharam e, persignando-se, exclamaram, diversas vezes: ‘Milagre! Deus é grande!’ Foi-me impossível dissuadi-los da ideia de que este templo devia servir de morada a Nosso Senhor. Quanto a mim, confesso que nunca meus olhos viram nada de mais belo e magnífico nos domínios da natureza e da arte”.

Peter Wilhelm Lund não estava só em seu grande trabalho nas grutas no entorno de Lagoa Santa. Ele teve um importante colaborador, o pintor visionário norueguês Peter Andreas Brandt. Brandt era indispensável para Lund em muitos aspectos, mas os mais notáveis foram as belas e precisas ilustrações que ele fez para os tratados pioneiros de Lund. Este livro mostra todo o Caderno de Esboços de Brandt, que ilustra o trabalho de Lund nas grutas e contém as primeiras representações de Lagoa Santa.
Próxima edição – abril de 2026 – Naturalistas Viajantes
PETER LUND (Parte 3)
O LEGADO DO VIAJANTE SEDUZIDO PELA NATUREZA BRASILEIRA
Por suas pesquisas, escavações e estudos nas grutas da região mineira, principalmente na Gruta do Maquiné, em Cordisburgo, Peter Lund descreveu minuciosamente a fauna de mamíferos e as mudanças ambientais ocorridas durante período Pleistoceno, há aproximadamente 2 milhões a 10 mil anos, quando a Terra era habitada por uma megafauna.

