“Tartaruga vovó” volta a desovar após 37 anos e destaca conservação marinha no Brasil
26 de março de 2026Monitoramento contínuo e políticas públicas ao longo de décadas ajudam a proteger espécies durante a temporada de desova
Filhotes de tartaruga-cabeçuda percorrem a areia rumo ao mar durante a temporada de desova no litoral brasileiro – Foto: João Pompeu/Cequa INPA/AM
Uma tartaruga marinha monitorada há 37 anos voltou a desovar no litoral norte do Espírito Santo, em área de atuação do Projeto Tamar e do Centro Tamar/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), na mesma região onde desovou pela primeira vez. O reencontro para desova consolida o mais longo acompanhamento de uma espécie já documentado no país.
Para além da longevidade do animal, o caso chama a atenção para os resultados de mais de quatro décadas de políticas públicas e monitoramento contínuo das tartarugas marinhas no Brasil. “Esse registro histórico reforça a importância das políticas públicas que vêm sendo implementadas há mais de 40 anos. O trabalho árduo rende frutos quando é contínuo”, afirma o coordenador do Centro Tamar/ICMBio, João Carlos Alciati Thomé.
As ações de conservação das tartarugas marinhas no Brasil começaram no fim da década de 1970, ainda sob a gestão do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), e foram incorporadas posteriormente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Desde 2007, o trabalho é coordenado pelo ICMBio, em parceria com a Fundação Projeto Tamar, que atua no monitoramento e na proteção das espécies em toda a costa brasileira.
“Quando pensamos que as ações para conservar as cinco espécies de tartarugas marinhas começaram em 1979, é gratificante vermos esses resultados. Ou seja, dia após dia, equipes fazem a diferença em campo, em análises técnicas qualificadas e com o apoio das comunidades costeiras, visando mudar o cenário de pressão sobre esses indivíduos”, celebra Thomé.
A fêmea, da espécie tartaruga-cabeçuda, foi marcada pela primeira vez em 1988 e voltou a ser registrada em dezembro de 2025, no litoral norte do Espírito Santo. Com isso, passou a ser considerada a fêmea mais velha a desovar no Brasil, consolidando o registro mais duradouro de monitoramento reprodutivo já documentado no país.
Fêmea de tartaruga-cabeçuda monitorada há 37 anos durante desova no litoral do Espírito Santo, registro mais longevo já documentado no Brasil – Foto: João Pompeu/Cequa INPA/AM
Temporada de desova mobiliza monitoramento no país
O caso ocorre no contexto da temporada de desova das tartarugas marinhas no Brasil, que se inicia em setembro e se estende até março ou abril, dependendo da espécie e da região. Durante esse período, equipes percorrem centenas de quilômetros de praias para monitorar fêmeas, proteger ninhos e acompanhar a eclosão dos filhotes.
As áreas de reprodução variam conforme a espécie. No caso da tartaruga-cabeçuda, os principais pontos estão no litoral norte da Bahia, norte do Espírito Santo e norte do Rio de Janeiro. Já a tartaruga-de-couro concentra sua reprodução no Espírito Santo e no Piauí, enquanto a tartaruga-de-pente ocorre principalmente no Nordeste.
Das sete espécies de tartarugas marinhas existentes no mundo, cinco desovam no Brasil. Entre elas, a tartaruga-oliva e a tartaruga-cabeçuda são as que apresentam maior número de ninhos. Outras, como a tartaruga-de-couro e a tartaruga-de-pente, ainda estão entre as mais ameaçadas.
Ações coordenadas e políticas públicas fortalecem a conservação
O trabalho de monitoramento envolve uma rede de instituições distribuídas por praticamente toda a costa brasileira. O Centro Tamar/ICMBio coordena as políticas públicas voltadas à conservação das espécies e define protocolos para ações como proteção de ninhos, monitoramento de encalhes e avaliação de impactos ambientais. “Trabalhamos ao longo de todo o ano em diversas frentes, como análise de impacto ambiental, ações de sensibilização e educação ambiental, além do monitoramento em campo”, explica o coordenador do Projeto Tamar. A atuação também inclui a análise de empreendimentos com potencial impacto sobre áreas de reprodução, garantindo a proteção das tartarugas marinhas de forma contínua.
Nas últimas décadas, o cenário de conservação mudou significativamente. Segundo Thomé, espécies que antes eram amplamente exploradas para consumo e uso do casco apresentaram queda em seus níveis de ameaça. A tartaruga-verde, por exemplo, deixou a categoria de ameaçada e passou a ser considerada quase ameaçada.
Apesar dos avanços, as ameaças permanecem. A poluição por resíduos sólidos, especialmente plásticos, é um dos principais problemas, já que os animais confundem o material com alimento. A pesca incidental também segue como um desafio, embora iniciativas como o uso do Dispositivo Exclusor de Tartarugas (TED) tenham contribuído para reduzir os impactos e evitar a captura acidental.
Nesse contexto, o retorno da tartaruga monitorada há quase quatro décadas deixa de ser apenas uma curiosidade e passa a simbolizar o resultado de um trabalho contínuo de conservação. Um esforço que envolve ciência, políticas públicas e comunidades costeiras — e que segue sendo essencial para garantir o futuro das tartarugas marinhas no Brasil.
Analista ambiental e gestor da Base Avançada do Centro Tamar/ICMBio em Caravelas-BA, Marcello Lourenço, em ação de monitoramento noturno – Foto: João Pompeu/Cequa INPA/AM
Comunicação ICMBio

