UM PAI SABE RETIRAR-SE?
1 de março de 2026Março: fim do verão, início do outono e o mês de São José
Chegou o equinócio de outono, sinal de celeste da mudança de estações. Nos equinócios, noite e dia duram 12 horas precisas, em qualquer lugar do planeta: Canadá, Angola, Mongólia, Chile, Brasil, Timor, Niger… e nos polos. Equinócio: equi (igual) nócio (noite). Dia igual a noite. Equilíbrio entre luz e trevas. Em 20 de março, fim do verão e início do outono. Ao meio-dia, sol a pino na latitude zero, na Fortaleza de S. José de Macapá.

São José é festejado na véspera do equinócio de outono, no dia 19. Se até “o São José” não chover, o sertanejo perderá a esperança, como na canção Triste Partida, de Luís Gonzaga e Patativa do Assaré.

O cosmos e o tempo do equinócio ilustram os atributos do esposo de Maria: estabilidade, equilíbrio, comedimento e prudência.
José, modelo de pai, soube retirar-se. É mais fácil estar presente na vida de um filho. É mais difícil, retirar-se. Dar espaço e lugar aos filhos. Há pais onipresentes e dominadores na vida dos filhos, a quem impõe seus desejos e projetos. Os filhos já passaram dos 40 anos e os pais seguem presentes. E os projetos paternos os perseguirão mesmo depois de mortos. Passam a vida tentando provar algo ao pai, de quem não sentiram um amor gratuito.
Retirar-se não significa abandonar. José foi um pai diligente.
Agiu com coragem, presença e eficiência quando necessário: assistiu Maria no parto, organizou a fuga e a vida no Egito, o retorno a Palestina etc. Diante do crescimento e da vida própria do filho, José soube se retirar e dar-lhe espaço.
Com um desapego de dar inveja. Num silêncio e discrição tão sutis. José desaparece sem ser notado, até dos textos evangélicos. Esse pai soube retirar-se diante da autonomia da vida, face às dimensões e exigências da esposa e do filho. Abdicou de muita coisa. E até, de certa paternidade.
Seu abdicar da paternidade biológica, da propriedade, da posse e do poder – revela um homem extremamente centrado. No adultério, o marido podia levar a mulher a tribunal e ela ser apedrejada. “José, seu homem, é um justo. Não desejando sua desgraça resolve deixá-la secretamente (Mt 1,19).” Essa retirada, ele não cumprirá. Ao sonhar, ele entende: nela é gerado o Sopro Sagrado (Mt 1,20). Ele manteve com sua mulher, uma relação de abertura e serviço ao feminino particularmente radical.

Um homem com quem Deus só falava por sonhos! Pelo menos quatro falas e quatro sonhos (Mt 1,20; 2,13; 2,19 e 2,22) são relatados no evangelho de Mateus. Ele vive atento, em harmonia e diálogo com seu ser profundo. Essa extraordinária capacidade de lembrar, interpretar e agir segundo seus próprios sonhos, diz muito sobre sua alma, sua interioridade e seu equilíbrio psicológico. Quem é capaz de tal desempenho psicológico?
No catolicismo, São José é o *Padroeiro da Boa Morte*. Pela tradição, ele morreu antes de Jesus e Maria, tendo os dois em sua cabeceira. Difícil imaginar morte em melhor companhia: de um lado, fisicamente, Jesus e do outro Maria. Daí a Boa Morte. Imaginação a parte, ele é mesmo o Padroeiro da Boa Morte, dada a sua vida de desapego. Morre bem quem está desapegado de tudo não está destinado a eternidade. Livre de qualquer amarra. O desapego de José na paternidade e no matrimônio o faz exemplo do caminho para a boa morte. A morte, de forma equinocial, os filhos anunciam. E ajudam o pai a aceitá-la, como parte da Vida.

