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Expedição científica revela novas espécies e mais de 200 amostras da biodiversidade na cadeia submarina Vitória-Trindade

14 de abril de 2026

Pesquisadores registram recifes profundos inéditos, coletam centenas de amostras e identificam possíveis novas espécies em áreas protegidas a 1.200 km da costa brasileira

 

Coleta científica de corais durante a 2ª Expedição à Cadeia de Montanhas Submarinas Vitória-Trindade. As amostras coletadas contribuem para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade e os ecossistemas recifais profundos do Atlântico Sul – Foto: Carmina Renones

Após 20 dias de expedição a cerca de 1.200 km da costa do Espírito Santo, pesquisadores retornaram com resultados de valor incalculável para a Ciência do Mar e para consolidação de uma cultura oceânica na sociedade. A missão integrou a 2ª Expedição Científica à Cadeia de Montanhas Submarinas Vitória-Trindade/ES e resultou na coleta de mais de 200 amostras biológicas, além do registro de possíveis novas espécies para a ciência. 

Durante a expedição, foram coletadas 155 amostras de corais, pertencentes a 12 espécies diferentes, e 67 amostras de peixes, representando 29 espécies. As coletas foram realizadas em ambientes recifais rasos e profundos, com registros de biodiversidade em áreas que alcançam até 200 metros de profundidade. 

“Entre os resultados mais notáveis, destacam-se o registro inédito de ambientes recifais de alta diversidade no Monte Columbia, a documentação da biodiversidade de recifes até 200 metros de profundidade em Martim Vaz e no Monte Columbia, além do registro de três possíveis novas espécies de peixes para a ciência e da coleta de censos visuais até 60 metros de profundidade em Martim Vaz”, destaca Hudson Pinheiro, cientista do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP) e coordenador científico da expedição. 

As áreas oceânicas estudadas são geridas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio): a Área de Proteção Ambiental (APA) do Arquipélago de Trindade e Martim Vaz e o Monumento Natural (MONA) das Ilhas de Trindade e Martim Vaz e do Monte Columbia. Essas regiões constituem importantes reservatórios de biodiversidade marinha e vêm sendo gradualmente reveladas à sociedade por meio de pesquisas científicas e expedições oceanográficas. 

Esta segunda edição dá continuidade à 1ª Expedição Científica à Cadeia Vitória-Trindade, realizada em julho de 2025. “A expedição visa dar sequência aos esforços para conhecer e conservar ecossistemas marinhos profundos e remotos que compõem os Monumentos Naturais ao redor da Ilha da Trindade”, explica Geraldo de França Ottoni Neto, oceanógrafo e analista da Estação Ecológica Tupinambás, representando o ICMBio na expedição. 

A iniciativa reúne instituições de pesquisa e conservação em um esforço conjunto, envolvendo o ICMBio, por meio do Centro Tamar, o Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP), a Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST), a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes – LabNecton, IctioLab e LabOGeo) e a Associação Ambiental Voz da Natureza. 

Equipe de pesquisadores e profissionais que participaram da 2ª Expedição Científica à Cadeia Vitória-Trindade, reunindo instituições de pesquisa, conservação e tecnologia dedicadas ao estudo da biodiversidade marinha brasileira – Foto: Carmina Renones

Tecnologia e pesquisa em ambientes profundos 

A equipe de pesquisadores utilizou equipamentos de mergulho de circuito fechado de alta tecnologia, conhecidos como rebreathers. Com esses equipamentos, foram realizados mergulhos entre 5 e 60 metros de profundidade, possibilitando a execução de 79 transectos de censos visuais para o registro de peixes e da comunidade bentônica, composta por organismos associados ao fundo marinho. 

Além dos mergulhos científicos, foram realizados 19 mergulhos com ROV – Remotely Operated Vehicle (Veículo Operado Remotamente) em áreas ainda pouco exploradas pela ciência, como recifes profundos da Ilha da Trindade, do Arquipélago de Martim Vaz, do Monte Columbia e do Monte Davis. 

“O ROV permitiu registros em vídeo de alta resolução em profundidades de até 200 metros, possibilitando a observação direta de organismos e estruturas submarinas, além de observações em áreas inacessíveis por mergulho”, explica João Batista Teixeira, pesquisador da UFES e da Associação Voz da Natureza. O pesquisador também desenvolveu um equipamento que permitiu a coleta remota de peixes utilizando o ROV, como o raro peixe-sabonete (Decodon sp.), coletado a cerca de 170 m de profundidade. 

Para Hudson Pinheiro, os organismos coletados serão incorporados a coleções científicas de referência, como o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP) e a Coleção Ictiológica da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). “Nessa próxima etapa, pesquisadores especialistas de cada grupo taxonômico farão a identificação das espécies em laboratório, a partir das imagens captadas desses organismos durante a amostragem de ROV ou dos mergulhos”, explica. 

Chegada da equipe científica à Ilha da Trindade, um dos principais pontos de pesquisa da expedição e área estratégica para o estudo da biodiversidade marinha nas Unidades de Conservação oceânicas brasileiras – Foto: Carmina Renones

Biodiversidade e conservação em áreas protegidas 

Os dados gerados a partir dos censos visuais subaquáticos e das imagens registradas pelos ROVs são fundamentais para o monitoramento contínuo das unidades de conservação e para estudos futuros sobre biodiversidade, biogeografia e processos ecológicos da região. 

“A expedição consolida uma rede de cooperação interinstitucional que promete avançar ainda mais nas próximas investigações, provando que há verdadeiros tesouros biológicos e geológicos a serem revelados nesse ponto mais distante da costa brasileira”, destaca o coordenador do Centro Tamar/ICMBio, Joca Thomé. 

A expedição também contou com a presença da cinegrafista Carmina Reñones, responsável pela captação de imagens que abasteceram redes sociais e conteúdos jornalísticos durante a missão. Um dos desdobramentos do trabalho será a produção de um vídeo-documentário sobre o Arquipélago de Martim Vaz e o Monte Columbia, dirigido pela jornalista ambiental Paulina Chamorro. 

A expedição foi viabilizada graças à disponibilização do navio DRS DeepSea pela Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST) e a recursos do projeto “Biodiversidade e conservação do Monumento Natural das Ilhas de Trindade, Arquipélago de Martim Vaz e do Monte Columbia”, aprovado na Chamada CNPq nº 17/2024 – Programa Arquipélago e Ilhas Oceânicas. 

O projeto conta com autorização do ICMBio, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Marinha do Brasil e tem como objetivo ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade e o estado de conservação das comunidades marinhas da Unidade de Conservação de Proteção Integral Monumento Natural das Ilhas de Trindade, Martim Vaz e Monte Columbia. 

O foco das pesquisas é priorizar áreas de difícil acesso e ainda pouco estudadas, utilizando métodos diretos e indiretos em ambientes recifais mesofóticos – ecossistemas que ocorrem em profundidades intermediárias do oceano, entre aproximadamente 30 e 150 metros de profundidade, onde ainda há incidência de luz, porém em menor intensidade. 

Navio DRS DeepSea, embarcação que deu suporte às atividades científicas da expedição, incluindo operações de mergulho técnico, lançamento de ROV e logística de pesquisa em alto-mar – Foto: Carmina Renones

Resumo

2ª Expedição à Cadeia de Montanhas Vitória-Trindade/ES

Duração:
20 dias (de 17/03 a 04/04/2026)

Itinerário:
Vila Velha – Ilha da Trindade – Arquipélago de Martim Vaz – Ilha da Trindade – Monte Columbia – Monte Davis – Vila Velha

Coordenação Científica:
Hudson Tercio Pinheiro (CEBIMar/USP)
João Batista Teixeira (Voz da Natureza – LabNecton/FEST/UFES)

Coordenação ICMBio:
Geraldo de França Ottoni Neto

Instituições participantes:
CEBIMar/USP, UFES, Voz da Natureza, ICMBio, FEST, UFSCar, University of Newcastle

Equipe a bordo:
Hudson Tercio Pinheiro (CEBIMar/USP), João Batista Teixeira (UFES e Voz da Natureza), Marcelo V. Kitahara (CEBIMar/USP), Katia Capel (UFSCar), Chancey MacDonald (University of Newcastle), Nelson Barcelos (FEST), Dilson Cajueiro (Scuba Turismo), Carmina Reñones (Cinegrafista), Luiz Antônio de Sant Anna (Médico), Geraldo de França Ottoni Neto (ICMBio).

Cobertura jornalística/cinematográfica:
Sandra Tavares (Centro TAMAR/ICMBio – @centrotamaricmbio e @icmbio), Paulina Chamurro (Vozes do Planeta Podcast – @vozesdoplaneta.podcast e @paulichamurro); Clarissa Souza (ICMBio Grandes Oceânicas – @icmbio.grandesoceanicas); Vanessa Pianca (@fundacaofest e @ufes) e Camina Rañones (Cinegrafista – @carminarenones).

Equipamentos:
Equipamentos de mergulho SCUBA, Equipamento de mergulho circuito fechado rebreathers, ROV, drone, câmeras subaquáticas, ecosonda e haste, Compressor elétrico, 15 cilindros, kits de coleta e armazenagem de material biológico.

Embarcação:
DRS Deep Sea

Objetivos

  • Levantar a biodiversidade e estrutura da comunidade de peixes e comunidade bentônica de ambientes recifais do Monte Columbia e do Arquipélago Martim Vaz;
  • Realizar um checklist da biodiversidade de peixes dos locais estudados, incluindo espécies inéditas, raras e ameaçadas para a região;
  • Analisar padrões de estrutura de comunidades dos locais estudados;
  • Gerar dados genéticos para múltiplas espécies de peixes recifais.

Metodologia

ROV – Remotely Operated Vehicle:

Censos visuais subaquáticos e coleta de organismos

DNA Ambiental

Confira a rica biodiversidade encontrada!

155 Amostras de Corais

12 espécies diferentes: Siderastrea sp., Favia gravida, Montastraea cavernosa, Mussismillia leptophylla, Mussismillia hispida, Mussismillia sp., Madracis decactis, Agaricia sp., Meandrina brasiliensis, Scolymia wellsii, Millepora sp., Stylaster roseous.

67 Amostras de Peixes

29 espécies diferentes: Serranus aff. annularis, Heteropriacanthus cruentatus, Myctophidae, Belonidae, Hemiramphus brasiliensis, Harengula aff. clupeola, Sparisoma aff. axillare, Cantherhines pullus, Decodon puellaris, Phaeoptyx pigmentaria, Chromis multilineata, Apogon pseudomaculatus, Stegastes trindadensis, Acyrtus simon, Scartella poiti, Elacatinus pridisi, Cryptotomus aff. roseus, Sparisoma aff. tuiupiranga, Choranthias sp.n., Pontinus cf. coralinus, Hemiramphus sp., Coryphaena sp., Prognathodes brasiliensis, Xanthychthys ringens, Platybelone argalus, Thunnus obesus, Scarus zelindae, Clepticus brasiliensis.

ROV – Remotely Operated Vehicle (Veículo Operado Remotamente)

62 espécies de peixes registradas em imagens, por ordem de ocorrência: Pseudopeneus maculatus, Melichthys niger, Prognathodes brasiliensis, Holocentrus adcensionis, Heteropriacanthus cruentatus, Sargocentrodon bullisi, Sphyraena barracuda, Diodon holacanthus, Holacanthus tricolor, Chromis jubauna, Caranx lugubris, Chromis flavicauda, Aluterus scripta, Paranthias furcifer, Cephalopholis fulva, Gymnothorax moringa, Cantherhines macrocerus, Myripristis jacobus, Apogon pseudomaculatus, Apogon aff. affinis, Carcharhinus perezi, Chaetodon sedentarius, Seriola rivoliana, Caranx latus, Bodianus pulchelus, Halichoeres rubrovirens, Stegastes pictus, Amblicirrhithus pinus, Chromis multilineata, Sparisoma rocha, Mycteroperca intertitialis, Decodon puellaris, Centropyge aurantonota, Liopropoma aff. rubra, Liopropoma aberrans, Choranthias sp., Aulostomus strigosus,Pronotogrammus martinicensis, Rypticus saponaceus, Chromis vanbeberae, Plectropopis retrospinnis, Synodonthidae, Serranus phoebe, Clepticus brasiliensis, Xanthichthys ringens, Prognathodes guyanensis, Gobiidae, Pontinus corallinus, Canthigaster figueiredoi, Sparisoma tuiupiranga, Acantostracyon polygonius, Dermatolepis inermis, Balistes vetula, Malacanthus plumieri, Galeocerdo cuvier, Pristigeys alba, Serranus sp., Acanthurus coeruleus, Apogon americanus, Acanthurus bahianus, Phaeoptyx pigmentaria, Lutjanus aff. analis.

Comunicação ICMBio