Maior gavião das Américas é confirmado no Parque Nacional da Serra das Lontras (BA)
8 de abril de 2026Trabalho conjunto entre gestão da unidade e pesquisadores fortalece o monitoramento e a proteção de espécies ameaçadas, como é o caso da harpia
Harpia na RPPN Estação Veracel (BA), onde este ano aconteceu o nascimento de um filhote da espécie – Foto: Jailson Souza
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) celebra um marco histórico para a conservação da biodiversidade no sul da Bahia. Em parceria com o Projeto Harpia Mata Atlântica, pesquisadores confirmaram a ocorrência da Harpia harpyja, o maior gavião das Américas, no Parque Nacional da Serra das Lontras.
A descoberta foi recebida com entusiasmo pela equipe gestora vinculada ao Núcleo de Gestão Integrada (NGI) de Ilhéus, responsável também pela administração da Reserva Biológica de Una e do Refúgio de Vida Silvestre de Una. Segundo Pablo Casella, analista ambiental do NGI que acompanhou o trabalho dos pesquisadores durante o registro da espécie, já havia indícios sobre a possível ocorrência da harpia na região.
“Já havia uma suspeita sobre a presença da harpia no Parque Nacional da Serra das Lontras e nas demais unidades sob gestão do NGI Ilhéus. A parceria com o Projeto Harpia trouxe essa confirmação, o que foi motivo de imensa alegria. Saber da existência da rainha das florestas em nosso território é, além de uma honra, também uma grande responsabilidade”, destacou.
A equipe reforça ainda que o registro representa uma renovação de ânimo para continuar o trabalho de conservação: “É uma renovação de energia para seguirmos firmes na luta pela sobrevivência de todos os seres da Mata Atlântica”.
Criado em 2010, o Parque Nacional possui pouco mais de 11 mil hectares e tem como objetivo a conservação ambiental aliada à pesquisa científica e à visitação pública. A região representa o limite mais ao norte da Mata Atlântica com registros recentes da espécie.
Para garantir a sobrevivência da harpia, a gestão destaca que é fundamental assegurar a integridade não apenas do Parque, mas também da “cabruca”, tradicional sistema agroflorestal de cultivo de cacau sob árvores nativas. Esse sistema pode ser decisivo para manter a conectividade entre os fragmentos florestais da região sul-baiana.
Nasce filhote de harpia em RPPN federal
No sul da Bahia, não apenas o Parque Nacional comemora um evento relacionado as harpias. Na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Estação Veracel aconteceu o nascimento de um filhote da espécie.
O evento representa o único ninho com sucesso reprodutivo monitorado na Mata Atlântica em 2026, ocorrido em uma área reconhecida como RPPN em âmbito federal.
A reserva é considerada um reduto histórico para a espécie. Em 2005, foi ali que ocorreu o primeiro registro de ninho documentado no bioma. Desde 2018, no entanto, os casais monitorados vinham apenas reformando ninhos, sem sucesso reprodutivo. O nascimento do novo filhote, ocorrido há cerca de duas semanas, rompe esse período e reacende as expectativas dos pesquisadores.
A presença de um filhote ativo no Corredor Central da Mata Atlântica funciona como um importante indicador ambiental. O fato demonstra que ainda existem fragmentos florestais maduros, disponibilidade de presas de médio e grande porte, como macacos e preguiças e árvores de grande porte capazes de sustentar os ninhos da espécie, que podem pesar até 100 quilos.
Para garantir a segurança do filhote, o monitoramento inicial é realizado à distância, com o uso de técnicas que minimizam interferências no ambiente natural. A expectativa é que, ao atingir cerca de seis meses de idade, a ave receba um rastreador GPS, permitindo a coleta de dados espaciais fundamentais para subsidiar políticas públicas e estratégias de conservação voltadas à proteção da espécie.
Ao fim do último ano, na mesma região, foi realizado um registro inédito de uma harpia no Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal. O registro foi feito por indígenas Pataxó, evidenciando a força do saber tradicional aliado ao monitoramento da biodiversidade.
A presença da harpia em diferentes áreas protegidas do sul da Bahia reforça a importância das unidades de conservação e de territórios aliados para a proteção da biodiversidade.
A gigante dos céus que revela a saúde das florestas
A harpia, também conhecida como gavião-real, é uma ave majestosa, extremamente sensível às alterações ambientais e dependente de florestas bem preservadas. Uma fêmea adulta pode chegar a nove quilos e atingir mais de dois metros de envergadura, uma das maiores entre as aves de rapina do mundo. Suas garras, que podem medir cerca de 10 centímetros, possuem força suficiente para esmagar presas com grande eficiência.
Como predador de topo de cadeia, a harpia não possui predadores naturais, e sua presença é considerada um importante indicador da saúde ambiental. Segundo Pablo, a existência da espécie ajuda a evitar desequilíbrios ecológicos que podem comprometer a vegetação e, consequentemente, a formação e retenção de recursos hídricos.
Além disso, a ave de rapina apresenta um ciclo reprodutivo lento, gerando apenas um filhote a cada dois ou três anos e necessitando de grandes territórios, que podem variar de quatro mil a dez mil hectares por casal. Por isso, cada novo registro da espécie representa um valioso indicativo da qualidade ambiental da região.
Comunicação ICMBio

