LIXO

O LIXO DAS GUIMBAS DE CIGARRO

1 de abril de 2026

Praias do Brasil estão entre as mais contaminadas com o lixo mais comum do Planeta: 4,5 trilhões de bitucas de cigarro são lançadas por ano na natureza.

Silvestre Gorgulho

A verdade se perde no tempo como fumaça de cigarro:  a indústria do tabaco sempre propagou a ideia de que os filtros de cigarro são biodegradáveis. Esse discurso ainda influi no comportamento das pessoas. O certo é que a poluição por guimbas persiste por um motivo muito simples. Há muitas pessoas sem educação e indústrias que lucram com a venda de cigarros.

A jornalista Poliana Casemiro, de O Globo, fez uma matéria importante sobre a poluição das praias brasileiras: o Brasil está entre os países com as praias mais contaminadas por bitucas de cigarro no mundo. Um estudo global mostra que densidade desse resíduo no litoral do país chega a ser quase 40 vezes maior que a média mundial e coloca o Brasil na 4ª posição do ranking. Essa é uma verdade incontestável: os fumantes descartam as bitucas de cigarro onde bem entendem: nas praias, nas ruas, nas calçadas e até em jardins.

Estudos científicos da OMS – Organização Mundial de Saúde e de pesquisadores vinculados à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), à Universidade Estadual Paulista (Unesp), ao Instituto Nacional de Câncer (Inca), à Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, à Universidad San Ignacio de Loyola, no Peru – e outros 55 centros acadêmicos – revelam que que esses pequenos resíduos atingem densidades médias de 0,24 bitucas por metro quadrado em ambientes urbanos e aquáticos.

É como encontrar uma bituca a cada quatro metros quadrados. Picos extremos no mundo ultrapassaram 38 bitucas por metro quadrado em praias e áreas costeiras altamente frequentadas e populosas. A massa total das bitucas descartadas anualmente no ambiente é da ordem de 766,6 milhões de quilos.

Picos extremos no mundo ultrapassaram 38 bitucas por metro quadrado em praias e áreas costeiras altamente frequentadas e populosas. Foto: Movimento Lixo Cidadão.

 

Para o engenheiro ambiental Victor Vasques Ribeiro, doutorando do Instituto do Mar da Unifesp, nada menos do que 4,5 trilhões de bitucas de cigarro são descartadas incorretamente todos os anos, formando uma das faces mais onipresentes – e menos percebidas – da poluição ambiental global. Isso significa em torno de 550 bitucas lançadas anualmente no ambiente para cada habitante do planeta.

NEM ÁREAS PROTEGIDAS

ESCAPAM DAS BITUCAS

Os estudos mostram que nem as áreas ambientalmente protegidas – principalmente aquelas com regras mais restritivas – conseguem reduzir a contaminação pelas bitucas de cigarro. Elas diminuem em até dez vezes quando comparadas a locais sem qualquer tipo de proteção legal. Mesmo assim, nem parques nacionais ou reservas marinhas escapam totalmente do problema, uma vez que as correntes marítimas podem levar para essas localidades lixo descartado muito longe delas, seja em praias seja em áreas urbanas.

Um relatório da “NBC News” sobre meio ambiente revelou que a bituca de cigarro polui mais o oceano do que as sacolas e canudos de plástico. A organização ambientalista OCEAN CONSERVACY, que financia a limpeza de praias, informou que as bitucas não só podem destruir ecossistemas marinhos e a vida aquática em geral com poluição de rios, córregos e vias navegáveis, mas também comprometem a saúde de animais marinhos que as engolem, confundindo com algas e outros alimentos.

É impossível saber quantos cigarros foram descartados na natureza, mas muitos restos são encontrados nos estômagos dos pássaros, peixes e tartarugas e são uma das principais causas de morte destes animais.

PROGRAMA LIXO ZERO PODE

MULTAR FUMANTES PARA EDUCAR

O problema, no entanto, parece não afetar muito os fumantes que continuam adotando um comportamento errado. No entanto, tem crescido em todo mundo a preocupação em relação a esse descarte incorreto das guimbas de cigarro. O Brasil também está a par do problema e as cidades vem apresentando iniciativas com intuito de dar fim a temível modalidade de “arremesso de bitucas em qualquer lugar”.

O projeto Programa Lixo Zero, realizado pela Comlurb-RJ, em parceria com a Guarda Municipal do Rio, prevê a aplicação de multas para quem sujar a cidade. A iniciativa tem como objetivo tornar a Lei de Limpeza Urbana (3273/2001) efetiva e conscientizar a população da importância de não jogar lixo nas ruas, praias, praças e demais áreas públicas, melhorando a qualidade da limpeza do Rio. As multas variam entre R$106 a R$ 3,4 mil.

O estado do Paraná também adotou medidas contra as bitucas e foram criadas leis para multar quem for pego jogando-as no chão, além de instalação de coletores de bitucas em pontos estratégicos.

Existem praias onde mais da metade do lixo é composta por bitucas. Já houve casos em que praticamente 100% dos resíduos eram filtros de cigarro. Segundo a OMS há que ter um controle e uma redução do tabagismo.

RANKING MUNDIAL – As praias brasileiras estão entre as mais contaminadas do mundo por bitucas de cigarro. (infográfico G1)

 

PRAIAS BRASILEIRAS X BITUCAS

Praias paradisíacas e próximas aos grandes centros urbanos são as mais poluídas por bitucas. O Brasil aparece na lista dos países com as praias mais contaminadas por guimbas de cigarro.

Com pico de 8,85 bitucas por metro quadrado — o equivalente a quase nove filtros de cigarro espalhados em uma área de 1 metro por 1 metro de areia, o índice mais elevado está na praia da Boa Viagem – Recife.

Praia de Porto de Galinhas (Ipojuca, PE): 1,57/m²

Praia do Guarujá, SP – 1,04/m²