Olhos da sociedade na natureza: engajamento social impulsiona avanço do Programa Monitora
30 de abril de 2026Da experiência individual ao compromisso coletivo, conhecimentos tradicionais apoiam ciência e se transformam em ação pela conservação da biodiversidade brasileira
Protocolo de monitoramento de borboletas frugívoras no Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque (AP) – Foto: Bruno Bimbato
Nos caminhos que cruzam florestas, rios e savanas, são as comunidades que vivem nas unidades de conservação que dão sentido mais profundo à proteção da natureza — gente que conhece o tempo das águas, o canto das aves e os sinais da mata como quem lê a própria história. São esses saberes que alimentam e fortalecem o Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade — o Programa Monitora.
Criado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Monitora nasce do encontro entre ciência e vida cotidiana. A iniciativa reúne dados sobre a fauna e a flora ao mesmo tempo em que fortalece o papel de moradores, voluntários e povos tradicionais como guardiões ativos da biodiversidade brasileira.
Com 12 anos de atuação, o programa se consolidou como uma das principais estratégias do ICMBio para orientar políticas públicas ambientais no país. Seu objetivo é acompanhar o estado de conservação da biodiversidade nas Unidades de Conservação (UCs) federais. Instituído pela Instrução Normativa nº 3/2017 e reformulado pela Instrução Normativa nº 2/2022, o Monitora passou por aprimoramentos metodológicos e operacionais ao longo dos anos.
Estruturado em três subprogramas — Terrestre, Aquático Continental e Marinho-Costeiro —, o programa já alcança mais de uma centena de UCs distribuídas pelos diferentes biomas brasileiros. Os dados gerados também subsidiam outras frentes estratégicas do Instituto, como a avaliação do risco de extinção da fauna brasileira.
Um dos motivos para priorizar a participação social é a relação direta da população com o território, o que a torna mais sensível e engajada no monitoramento. João Alves, 58, é um exemplo dessa conexão. Morador do entorno da Reserva Biológica do Gurupi (MA), na Amazônia, ele começou no programa com participações pontuais e hoje integra o time de monitoramento do ICMBio como Agente Temporário Ambiental (ATA).
“Antes de trabalhar no ICMBio, eu já morava aqui perto da reserva. Conheço a mata, a maioria das trilhas fui eu que abri. Não lembro de um monitoramento que eu não tenha participado. Eu conheço tim-tim por tim-tim e tudo eu aprendo a fazer. Captura de bicho, de mamífero, eu “tô” junto. Isso é muito gratificante para mim”, conta João Alves, colaborador do Monitora.
Como o Monitora se estrutura e enfrenta desafios
O monitoramento da biodiversidade é uma atribuição estratégica prevista desde a criação do ICMBio. A coleta sistemática de dados, iniciada em 2014, tem permitido avanços importantes na compreensão do estado de conservação das espécies e dos ecossistemas. A continuidade e a expansão dessas ações, no entanto, dependem de investimentos, equipes qualificadas e da colaboração entre diferentes atores.
Embora apresente resultados positivos, o Programa Monitora enfrenta desafios para manter e ampliar suas ações. A abrangência nacional exige uma gestão complexa de recursos — provenientes do orçamento da União e de parcerias institucionais —, além da coordenação de equipes diversas.
Esse esforço inclui a padronização de técnicas de baixo custo e fácil aplicação, com ganhos de escala regional e nacional, e a gestão de um corpo técnico formado por servidores, pesquisadores e agentes temporários ambientais.
Ainda assim, é no território que o programa encontra um de seus principais pilares. Voluntários e comunidades locais têm papel decisivo, atuando próximos às unidades de conservação. Ao reforçar a missão do ICMBio — cuidar da natureza com as pessoas —, o programa amplia a coleta de dados e fortalece diagnósticos sobre a biodiversidade brasileira.
| Surucuá-dourado, Trogon rufus — Protocolo avançado de aves por ponto de escuta na Rebio Gurupi (MA) – Foto: Leonardo Victor | Atividade de campo dentro da mesma Reserva Biológica – Foto: Acervo João Alves. |
A conservação da fauna e da flora é um dos principais indicadores do uso equilibrado do território — e quem melhor percebe essas mudanças são as comunidades que vivem da sociobiodiversidade. Inseridas nesse contexto, elas atuam diretamente na conservação, seja pelo fortalecimento de seus modos de vida tradicionais, seja pela geração de renda.
Nesse cenário, o Programa Monitora mobiliza pescadores, agricultores, extrativistas, castanheiros, criadores de quelônios para subsistência, profissionais do ecoturismo, artesãos e outros grupos ligados a sistemas produtivos tradicionais. Naturalmente, tornam-se agentes de conservação.
O Monitora incentiva, principalmente, o envolvimento das comunidades locais que vivem nas UCs, mas também recebe voluntários. A psicóloga Letícia Alves, 39, e o economista Dennis Hyde, 44, por exemplo, cruzaram o Brasil com a missão de visitar e documentar todos os parques nacionais do país, sendo três deles por meio do Programa Monitora: Serra do Pardo (PA), Serra da Cutia (RO) e Campos Amazônicos (RO).
Neles, a experiência ultrapassou o olhar do visitante e se tornou participação ativa. “Como monitores tivemos a oportunidade de conviver com a equipe do ICMBio e com os comunitários. Aprendemos a identificar, contabilizar e registrar os avistamentos de mamíferos, aves e borboletas. É uma experiência diferente do turismo, pois o objetivo é registrar dados, o que precisa ser feito com muito rigor e de acordo com o protocolo. Foi fundamental para compreendermos como se faz conservação e como se medem os resultados”, explica Dennis.
Resultados do monitoramento
“O Monitora começou como um projeto piloto, em 16 UCs, com apoio de projetos externos. O sucesso foi tão grande que, 12 anos depois, observamos sua consolidação: hoje atendemos cerca de 130 UCs, com três subprogramas. Estamos avançando para biomas como Caatinga, Pampa e Pantanal. Mesmo com dificuldades de recursos e logística, cresce o interesse das unidades, que reconhecem a importância de gerar seus próprios dados de biodiversidade”, explica a coordenadora-geral de Pesquisa e Monitoramento da Biodiversidade do ICMBio, Cecília Cronemberger.
Na Reserva Biológica do Gurupi (MA), dados coletados em campo e por armadilhas fotográficas têm orientado o desenvolvimento de metodologias e políticas públicas. Entre as decisões está a definição de áreas prioritárias para três projetos de restauração já aprovados.
Dentre os resultados observados, na Rebio Gurupi, foi constatada a queda do Índice Fotográfico da Vida Selvagem (Wildlife Picture Index –WPI, em inglês), indicador que mede mudanças na riqueza e na ocupação das espécies. Os dados apontando perda de biodiversidade motivaram estudos específicos para identificar causas, compreender flutuações populacionais e planejar ações de fiscalização contra a caça ilegal.
“Essa tendência de declínio acende um sinal de alerta. No entanto, só com a continuidade do monitoramento será possível avaliar se trata de uma oscilação temporária ou de uma tendência de longo prazo”, explica a analista ambiental Eloísa Mendonça.
Registros de cachorro-vinagre — espécie ameaçada de extinção — com sarna indicaram a proximidade de cães e gatos domésticos dentro e no entorno da unidade. Diante disso, equipes técnicas passaram a adotar medidas para reduzir esses impactos, como diagnóstico e tratamento de animais domésticos e campanhas anuais de vacinação com apoio de parceiros.
Além dos pontos de atenção, também há resultados positivos. A Rebio Gurupi é considerada a área com a maior riqueza de aves dentro do Centro de Endemismo de Belém (CEB) e recebe o protocolo por ponto de escuta, realizado em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave) e com pesquisadores atuantes na unidade. Os registros têm contribuído para identificar novas ocorrências no Maranhão e subsidiar o Plano Nacional (PAN) de Aves Amazônicas.
“Os dados de borboletas frugívoras também têm trazido informações importantes, especialmente no manejo integrado do fogo. Entre 2016 e 2022, houve aumento na abundância de espécies de habitats fechados e estabilidade nas de habitats abertos — um resultado positivo para a gestão da unidade, principalmente após o grande incêndio de 2015”, explica a analista ambiental Lorrane Catanhede.
Aplicação do protocolo avançado na Rebio Gurupi — Registro feito por armadilha fotográfica – Foto: Divulgação
Ciência com participação social
Ao integrar ciência, gestão pública e participação social, o Programa Monitora se consolida como um instrumento essencial para a conservação da biodiversidade no país. A troca de saberes ocorre de forma contínua, da coleta de dados à análise e ao planejamento, fortalecendo o papel da sociedade como agente da conservação.
“Um dos momentos em que essa tecnologia social se materializa é durante o Seminário Brasileiro sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social (Sapis), realizado em Brasília (DF). Nesse encontro, compartilhamos dados, análises, dúvidas e ouvimos os comunitários, que muito contribuem para interpretar os resultados”, destaca Cronemberger.
O Sapis, realizado em conjunto com o Encontro Latino-Americano sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social (Elapis), é um evento técnico-científico que reúne, a cada dois anos, pesquisadores, gestores públicos, organizações da sociedade civil e representantes de povos indígenas e comunidades tradicionais para debater a relação entre conservação ambiental e inclusão social.
No fim, a lição é, ao mesmo tempo, simples e profunda: só se protege aquilo que se conhece. Observar, medir e compreender o uso dos recursos naturais não é apenas um exercício técnico voltado ao futuro — é, antes de tudo, um gesto de pertencimento. Cuidar do território é reconhecer-se parte dele e assumir, no presente, a responsabilidade de garantir que a vida, em toda a sua diversidade, continue a existir.
“Como eu ando muito com os biólogos eu “tô” sempre aprendendo. Aprendi a amar os bichos. Vem gente que trabalha com flor, com inseto, mosquito, ave, todo tipo de bicho. Às vezes a gente tem que explicar a importância da reserva para a própria comunidade. Eu explico que não pode pescar na reserva e que se não tivesse essa proteção, talvez nem existiria mais peixe nas outras regiões. Do mesmo jeito que aprendo, eu ensino. E eles perguntam. É bom conversar sobre isso porque eu amo onde eu moro, amo meu trabalho e quero que todos cuidem da terra também”, relata o comunitário João Alves.
Comunicação ICMBio
