Naturalistas Viajantes

PETER LUND (Parte 3)

1 de abril de 2026

O LEGADO DO VIAJANTE DINAMARQUÊS SEDUZIDO PELA NATUREZA BRASILEIRA

Miguel Flori Gorgulho e Silvestre Gorgulho

A História da Paleontologia brasileira tem início com o Naturalista dinamarquês, Peter Wilhelm Lund, considerado o pai da Paleontologia e Arqueologia no Brasil. Por suas pesquisas, escavações e estudos nas grutas da região mineira, principalmente na Gruta do Maquiné, Peter Lund descreveu minuciosamente a fauna de mamíferos e as mudanças ambientais ocorridas durante período Pleistoceno, há aproximadamente 2 milhões a 10 mil anos, quando a Terra era habitada por uma megafauna, onde animais de mais de uma tonelada de peso caminhavam livremente. Entre esses magníficos seres estavam os mamutes, as preguiças gigantes e os tigres dente-de-sabre. Alguns dos quais habitaram a região que hoje faz parte do Circuito das Grutas – um verdadeiro cemitério de fósseis desses animais.

 

É muito importante saber que Peter Lund foi quem encontrou os vestígios do hominídio mais antigo da América Latina, o qual ficou conhecido como o Homem de Lagoa Santa, um “parente” de Luzia, a primeira mulher da América, como entrou para a história. O crânio de Luzia, uma das “vítimas” do incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2 setembro de 2018, foi descoberto na década de 1970, em escavação na Lapa Vermelha, em Pedro Leopoldo, pela arqueóloga francesa Annette Laming Emperaire (1917-1977).

 

CHEGADA EM LAGOA SANTA

As divergências filosóficas com Claussen e familiares logo se instalam e Lund se refugia em Lagoa Santa, para se distanciar dessa convivência.

Para aliviar os aborrecimentos causados pelo sócio aventureiro, herda a fidelidade de um amigo e colaborador advindo da ‘troupe’ de Claussen, Peter Andreas Brandt (1792-1862), um norueguês otimista por natureza e talentoso ilustrador.

Quando Lund chegou a Lagoa Santa, a vila tinha apenas 60 casas. Logo o dinamarquês se embrenhou pelas cavernas e grutas da região cárstica. Para os moradores, era tudo muito estranho, pois gostava de colecionar ossos que encontrava enterrados nas lapas – uma prática que, para ele, significava desvendar e revelar ao mundo científico a pré-história do país que escolheu para viver.

PETER BRANDT, O APOIO QUE PRECISAVA

Peter Abdreas Brandt literalmente caíra no Cerrado para fugir de dívidas acumuladas como comerciante e editor de revistas na Noruega. Deixou para trás mulher e filhos e veio tentar a sorte no Brasil. No Rio de Janeiro encontra-se com os irmãos de Claussen que, acompanhados das esposas, partilhavam do mesmo objetivo. Juntos viajam para a Fazenda Porteirinhas, de propriedade de Claussen, onde Peter Lund também estava hospedado. Desde, então, Brandt passa a acompanhar Lund na exploração, catalogação e descrição científica de centenas de grutas e cavernas. Foi o anjo da guarda que Peter Lund precisava.

LEGADO CIENTÍFICO DE PETER LUND

Todo legado científico é eterno. E o de Peter Lund também o é. Ainda repercute nos dias de hoje.

 

O gato-de-dente-de-sabre (Smilodon populator) descrito pela primeira vez por Lund, pesava o dobro de um leão atual e os gliptodontes, como denominava os parentes extintos do bicho-preguiça, eram do tamanho de um carro pequeno. As coleções de fósseis oriundas de suas escavações em mais de 800 grutas calcárias atraem pesquisadores de todo o mundo para museus da Dinamarca.

O felino Tigre-dentes-de-sabre ou Smilodon foi exinto. Tinha presas de quase 20 centímetros. Existiram três espécies, duas que habitaram a América do Norte, Smilodon gracilis e Smilodon fatalis, e uma, a maior de todas, Smilodon populator, que viveu na região de Lagoa Santa.

 

O interesse em botânica, relegado por ele a segundo plano e reavivado ao perder o interesse pelas caçadas, revela-se no tratado que escreveu sobre o Cerrado brasileiro e em contribuições aos estudos de outros botânicos.

Várias grutas estudadas por Lund e Brandt não resistiram à volúpia econômica das fábricas de cimento. O Monumento Natural Estadual Peter Lund, criado por decreto do então governador Aécio Neves, em 2005, transformou a Gruta de Maquiné e seu entorno em uma Unidade de Conservação.

Dois de seus colaboradores, Reinhardt e Warming, que viveram um tempo com Lund no Brasil, desenvolveram carência permanente por feijão-preto e café, pelas fofocas de Lagoa Santa e pelo canto da seriema. Segundo um velho provérbio citado por Warming “Ninguém vaga impune sob as palmeiras”.

PARQUE ESTADUAL DO SUMIDOURO

O Parque da Memória

O Parque Estadual Sumidouro foi criado com o objetivo de preservar todo o patrimônio cultural e regional do carste de Lagoa Santa, além de promover ações de educação ambiental e o ecoturismo. O parque foi oficializado em 3 de janeiro de 1980, pelo decreto estadual número 20.375-MG. Está situada ao norte da região metropolitana de Belo Horizonte, alcançando os municípios de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo e tem uma área de aproximadamente 2.004,00 hectares.

Caracterizada como uma região cárstica, o Parque do Sumidouro possui um belo conjunto de lagoas, surgências, sumidouros, um relevo composto por paredões, torres, além de suas belas grutas. A UC ainda é composta por fauna, flora e registros de memória cultural de grande riqueza. O Parque é composto por atrativos como a Lagoa e a Lapa do Sumidouro com pinturas rupestres de milhares de anos, Gruta da Lapinha, eleita uma das sete maravilhas da Estrada Real e sítio arqueológico de importância mundial escavado pelo naturalista Peter Wilhelm Lund. Foi onde ele encontrou os ossos fossilizados humanos.

 

PRÓXIMA EDIÇÃO 386 – maio/2026 – Naturalistas Viajantes

PETER LUND (Parte 4 – final)

Em 1862, morre seu amigo Peter Brandt, um luterano que não queria um enterro católico. Então Lund comprou um terreno para fazer um cemitério protestante. Peter Lund evita recebe cientistas e viajantes, ministra aulas e forma uma banda de música – Corporação Musical de Santa Cecília – ainda em atividade.