Naturalistas Viajantes

PETER LUND (Parte 4)

28 de abril de 2026

O MAIOR PERSONAGEM DE LAGOA SANTA

Miguel Flori Gorgulho e Silvestre Gorgulho

Desde 1835, instalado definitivamente na sua casa-laboratório em Lagoa Santa, Peter Lund pesquisava centenas de grutas no vale do rio das Velhas e enviava, anualmente, para a Dinamarca suas memórias, amostras e estudos. Nessa época, Lagoa Santa tinha apenas 60 casas. Em 1862, morre seu amigo Peter Brandt, um luterano que não queria um enterro católico. Então, Peter Lund comprou terreno para fazer um cemitério protestante para receber o corpo de Brandt. Peter Lund evita temas políticos e começa a receber cientistas e viajantes, além de ministrar aulas. Importante: cria uma banda de música para a Corporação Musical de Santa Cecília, ainda hoje em atividade.

A morte de Brandt, em 1862, desfaz, por um tempo, a associação da dupla que era muito importante para Doutor Lund, tanto emocional, científica como economica. O luterano Peter Andreas Brandt não queria um enterro católico e Lund compra um pequeno terreno, que se tornou o cemitério protestante de Lagoa Santa, para receber o corpo de Brandt. Ao lado da sepultura, Peter Lund plantou um pequizeiro (Caryocar brasiliensis), a árvore preferida de Brandt. Em seus passeios diários, Lund costumava se sentar e meditar no local, até se reunir definitivamente a Brandt em 1880. Hoje o antigo cemitério é um parque em sua memória.

AULAS, MÚSICA E MÉDICO POPULAR

Peter Lund vira uma pessoa popular e reverenciada pela comunidade

Peter Lund gostava de ministrar aulas e até criou uma banda de música para a Corporação Musical de Santa Cecília. Cuidava com carinho de seu quintal e travava uma guerra constante contra as saúvas. Declara em uma carta: “Procuro fazer minhas condições tão confortáveis e agradáveis quanto possível, e desenvolver os recursos que o lugar oferece, e que são compatíveis com minha saúde. Ademais, meu quintal, pelo qual sempre tive paixão, é minha ocupação e recreação principais”.  

A centenária Corporação Musical Banda Santa Cecília é uma das principais manifestações que compõe a memória e a identidade cultural de Lagoa Santa. Com 184 anos, fundada por Peter Wilhelm Lund, em 1842, é composta por instrumentos de sopro como flautim, flauta, clarinetes, saxofones, trompetes, trompas, trombones e tubas, que são acompanhados por instrumentos percussão. Ela continua sendo um elo vivo entre o passado e o presente simbólico de Peter Wilhelm Lund.

Além da participação cultural, suas atividades como médico popular fazem dele a figura paternal e protetora na comunidade. Ele receita remédios simples, orienta e socorre as pessoas em seus apertos circunstanciais de falta de dinheiro. Por isso é reverenciado até hoje em toda a região, 146 anos depois de sua morte.

A Corporação Musical Santa Cecília é um elo vivo entre o passado e o presente simbólico de Peter Wilhelm Lund.

OS ESTUDOS DE UM SÁBIO ERMITÃO

Desde 1835, instalado definitivamente na sua casa-laboratório em Lagoa Santa, Peter Lund pesquisava centenas de grutas no vale do rio das Velhas e enviava, anualmente, para a Dinamarca suas memórias, amostras e estudos. Todo seu acervo era publicado e lido em reuniões da Real Academia Dinamarquesa. Este acervo encontra-se hoje no Museu da Universidade de Copenhague. Os estudos feitos por Lund foram citados por Darwin no livro Origem das Espécies (1854).
Em 1849, Lund enviou suas últimas caixas de amostras coletadas. Pensava em voltar para a Europa, mas nunca o fez. Encerra suas atividades de pesquisa passando a viver em Lagoa Santa como um sábio ermitão silencioso, amigo do povo e da banda de música local e sustentado pelo seu patrimônio familiar.  Sua casa era referência obrigatória para qualquer naturalista-viajante que passasse pelas Estradas Reais de Minas.
Em 25 de maio de 1880, aos 79 anos, morre. O corpo de Lund é sepultado em cemitério particular por ele comprado e murado. Juntamente com ele, estão sepultados, em Lagoa Santa, alguns amigos e colaboradores: um suíço, um alemão e um norueguês. Peter Lund tem um legado fantástico e é um testemunho da internacionalidade da ciência.
Em Belo Horizonte, os museus de História Natural da UFMG e da PUC expõem informações sobre a paleontologia e dados sobre a vida de Peter Lund.

BOA NOITE, DOUTOR LUND!

Por Carlos Drummond de Andrade (*)

Cuidado, Dr. Peter Wilhelm Lund, que dorme em seu último sono em Lagoa Santa: previno-lhe que seu repouso eterno corre perigo.

A região em que o senhor viveu, pesquisou e estabeleceu os fundamentos da Paleontologia Brasileira está sendo varrida pelo ciclone do desenvolvimento-acima-de-tudo, que promete acabar com as suas grutas, os seus fósseis e toda a pré-história nacional.

A exploração de calcário para fabrico de cimento vai arrasar as maravilhosas formações naturais que compuseram o cenário definitivo de sua vida. Amanhã, quem sabe? Esgotados os depósitos de matéria-prima, o senhor mesmo será tecnicamente classificado como calcário de 2º grau, e do seu jazigo inscrito nos livros do Patrimônio Histórico do Brasil se fará uma fornada de cimento para novas torres redondas na Barra da Tijuca.

De resto, sei que não adianta meu aviso, sei que não adianta impedir a transformação da paisagem em cimento. Temos que viver o nosso tempo, ou, mais corretamente, morrer o nosso tempo. Quem falou aí em preservar os traços deixados pelo homem primitivo, como tarefa de sumo interesse para a compreensão da vida? Esse perdeu o seu latim – o mesmo latim de que o senhor se serviu para identificar o seu megatherium, o seu chlamidotherium, o seu glyptodon. Pois o próprio latim não acabou, no quadro da cultura geral?

Desculpe, meu sábio venerando, este chamado importuno, que nem sequer deve tê-lo acordado. Certamente já o acordara antes o tonitrom dos tratores incumbidos de devastar o solo, a vegetação e toda lembrança do mundo imemorado. A esse som nada musical sucederá outro, que o manterá desperto: o das britadeiras funcionando em ritmo de Brasil grande e apressado. O senhor perdeu o direito à paz, como de resto nós todos o perdemos, e as próprias máquinas. Fique aí quietinho em seu túmulo, enquanto se anuncia para meados de 1975 o desaparecimento da Lapa Vermelha, ou Lapinha, que era a menina-dos-seus-olhos…

A Lapinha, sabe? Que vinha sofrendo a agressão dos namorados, dos torcedores de futebol, dos fotógrafos de Manchete, que nela rabiscavam inscrições bobas ou que revestiam de óleo suas pinturas, para melhor efeito de cores das reproduções, enquanto os afeitos a souvenirs furtavam lascas de estalactites e estalagmites, para se gabarem de ser proprietários de esculturas da natureza. Esse pessoal executou os serviços preliminares de desbastamento da área. Vem agora a fase sistemática de desintegração plena da Lapinha, aquela mesma em cujo recinto sombrio e rico de mistérios telúricos o senhor passeou e meditou, no itinerário do sonho para a ciência.

Prometo versejar uma elegia, quando tudo estiver consumado. É só o que posso fazer, em honra da caverna clássica e do sábio que a indicou ao zelo das novas gerações, cuidando que, no futuro, suas investigações teriam prosseguimento, e que ali se instalaria um mutirão de pesquisadores ávidos de descobrir os enigmas da Terra e do Homem.

Daqui a seis anos, sabe? Passará o centenário da morte do senhor. Podemos conjeturar que até lá sua morte se desdobrará e multiplicará na morte das grutas. Então, na rasa planície, extinto o eco dos tratores, britadeiras e esteiras transportadoras de calcário, memória não haverá nem do senhor nem dos grupos alegres de turistas que começaram a demolir as criações da natureza para que outros completassem a obra.

É possível que, no silêncio, ouvido mais apurado ouça aquela música sem som que se filtra entre o vazio e a ruína, a música do nada. Teremos chegado à perfeição do não-existente, àquele estado de não-ser, que até a morte se distancia. E nessa música irreal se perceberá a vaga exalação de um responso: Minas Gerais vendeu sua alma ao desenvolvimento, e deu de pinga sua pré-história.

       (*) “Boa-noite, Dr. Lund.”  Crônica de Carlos Drummond de Andrade, publicada no Jornal do Brasil em 12/03/1974

O HOMEM DE LAGOA SANTA

LONGA-METRAGEM SOBRE PETER LUND

O filme reproduz a trajetória do naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, que fez extraordinárias escavações em grutas calcárias no vale do Rio das Velhas e cujas pesquisas abriram caminho para Charles Darwin dar prosseguimento à teoria da Origem das Espécies.

Em 2013, Renato Menezes concluiu a produção do filme, mas faleceu em 2014. Antes disso, felizmente, ele chegou a realizar o sonho de exibir o filme em Lagoa Santa para uma plateia de 300 pessoas que lotaram o auditório da Escola Municipal Dr. Lund.

Longa-metragem foi roteirizado e dirigido pelo belo-horizontino Renato Menezes, falecido em 2014.

Apaixonado pela história de Lagoa Santa e admirador confesso de Peter Lund, o cineasta mineiro, Renato Menezes, foi diretor e roteirista do longa sobre o Paleontólogo dinamarquês Peter Lund. O ator Chico Aníbal interpretou as cenas ficcionais do filme.

Esta biografia em quadrinhos conta como o patrono da paleontologia no Brasil, Peter Wilhelm Lund, deixou uma vida confortável na Dinamarca e veio parar em Lagoa Santa, onde realizou descobertas incríveis, escavando as grutas do cerrado de Minas Gerais. Autoria: Piero Bagnariol, Gabriel Lucas e Yuri Alves.

 

MUSEU PETER LUND

O Museu Peter Lund compreende todo o Parque do Sumidouro, onde foi construída a sede ao lado da Gruta da Lapinha. No local estão reunidos 82 fósseis descobertos por Lund, no século 19, durante suas pesquisas na região de Lagoa Santa.

Endereço: Rodovia AMG 115 KM 06 / Estrada Campinho – Lapinha – 

LAGOA SANTA – MG – Funciona de terça a domingo Horário: 9h às 16h30.

PRÓXIMA EDIÇÃO 387 – junho/2026 –

GRUTA DE MAQUINÉ.

O MUNUMENTO NATURAL ESTADUAL PETER LUND, pelo decreto número 44.120 de 29 de setembro de 2005. Com 650m de extensão, Maquiné tem uma entrada imponente e, lá dentro, estalactites e estalagmites formam figuras majestosas, com “cristais” brilhando em formato de franjas, grinaldas e lustres.