preservação

Planta “perdida” por mais de um século reaparece em Alcatrazes (SP) e reforça o valor científico do arquipélago

7 de abril de 2026

Reencontro com a Begonia larorum indica a potência da biodiversidade da Estação Ecológica de Tupinambás e do Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes

Flores de Begonia larorum em costão rochoso da Ilha de Alcatrazes, no litoral paulista – Foto: Gabriel Sabino

Na paisagem rochosa da Ilha de Alcatrazes (SP), onde o sol, o vento e a salinidade impõem desafios à vida vegetal, uma pequena planta voltou a chamar a atenção da ciência. 

A redescoberta da Begonia larorum no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes encerra um silêncio botânico que durava mais de cem anos. Conhecida apenas a partir de uma coleta realizada na década de 1920, a espécie era um enigma para pesquisadores – registrada nos herbários, mas ausente da paisagem por gerações de botânicos. 

O reencontro com a espécie ocorreu durante um levantamento sistemático da flora vascular da Ilha, a maior entre as cinco do arquipélago. O trabalho reúne pesquisadores que investigam a diversidade vegetal e buscam atualizar o conhecimento científico sobre as espécies presentes na região. Entre eles, está o biólogo Gabriel Sabino, doutorando em Biologia Vegetal na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Segundo ele, a redescoberta não foi exatamente um acaso, mas o resultado de um olhar treinado ao longo de muito tempo. A espécie sempre despertou curiosidade entre os botânicos, já que era conhecida apenas a partir de uma coleta realizada na década de 1920, utilizada para descrever a planta. 

“O refúgio reúne uma combinação de fatores que favorecem descobertas científicas: isolamento geográfico, baixa pressão antrópica histórica e uma grande diversidade de micro-habitats terrestres e marinhos”, explica Thayna Mello, chefia do NGI Alcatrazes. 

“Antes de cada trabalho de campo, estudávamos cuidadosamente as imagens e informações desse material para treinar o olhar e reconhecer a planta caso ela ainda existisse na ilha”, conta Sabino. 

Uma ilha duas vezes ilha 

A sobrevivência silenciosa da begônia também ajuda a contar a história de Alcatrazes. O arquipélago, situado a cerca de 35 quilômetros da costa paulista, reúne condições ambientais muito particulares e, em muitos aspectos, extremas. 

“Alcatrazes é uma das ilhas continentais mais isoladas do Brasil”, explica Sabino. E é esse isolamento, segundo o biólogo, que reduz bastante o impacto direto de atividades humanas. 

Mas o que torna o ambiente ainda mais singular é a natureza geológica do lugar. A ilha é formada por grandes afloramentos graníticos, semelhantes aos chamados inselberg – termo alemão que significa “ilha de montanha”. 

Essas formações rochosas criam ambientes que funcionam como verdadeiras ilhas ecológicas, mesmo quando estão em terra firme. Em Alcatrazes, essa condição se soma ao isolamento marítimo. “Por isso brincamos que Alcatrazes é duas vezes ilha”, diz o pesquisador. 

Solo raso, ventos constantes, alta incidência de sol e influência da salinidade criam condições ambientais desafiadoras. Paradoxalmente, é justamente esse conjunto de fatores que favorece o surgimento e a persistência de espécies altamente especializadas.  

Um território de espécies únicas 

Hoje, a ciência reconhece ao menos nove espécies de plantas endêmicas da Ilha de Alcatrazes, ou seja, que não existem em nenhum outro lugar do planeta. 

A equipe especializada de pesquisa responsável pelo levantamento já participou da descrição de duas dessas espécies – ambas bromélias do gênero Tillandsia – e trabalha atualmente na identificação de outra possível novidade científica. 

Para Sabino, o reaparecimento da Begonia larorum indica que ainda há muito a descobrir. “Como Alcatrazes é muito isolado e possui ambientais pouco estudados, é possível que novas espécies ou populações raras ainda estejam esperando para serem encontradas”, afirma. 

Redescobertas como essa também ampliam as possibilidades de conservação. Com a planta novamente localizada, pesquisadores podem investigar melhor sua ecologia e planejar estratégias para garantir sua sobrevivência. 

Essas características criam condições ideais para o surgimento de linhagens únicas. Ao mesmo tempo, a dificuldade de acesso científico ao longo da história contribuiu para que muitas espécies permanecessem pouco conhecidas. “O arquipélago funciona como um verdadeiro laboratório natural”, afirma a chefe do Núcleo de Gestão Integrada (NGI) Alcatrazes, Thayna Mello. 

O isolamento geográfico, por exemplo, restringe o fluxo gênico com populações do continente. Isso faz com que espécies presentes na ilha sigam trajetórias evolutivas próprias, muitas vezes resultando em formas geneticamente distintas. Além disso, o relevo íngreme, a influência marinha intensa e as variações microclimáticas criam pressões seletivas que favorecem adaptações muito específicas. 

O resultado é uma biodiversidade singular: rica, especializada e sensível a mudanças ambientais. 

Além do Refúgio, a área do arquipélago abriga, desde 1987, a Estação Ecológica Tupinambás – Foto: Gabriel Sabino

Ciência que orienta a conservação 

As descobertas científicas em Alcatrazes não ficam restritas aos laboratórios ou às páginas de revistas especializadas. Elas também ajudam a orientar o manejo das duas unidades de conservação que compõem o NGI. 

Segundo Mello, os dados gerados pelas pesquisas permitem decisões mais precisas, como a definição de áreas prioritárias para proteção, o controle de espécies invasoras e o planejamento das atividades permitidas no território. “A produção de conhecimento fortalece a justificativa para a conservação integral da área e amplia sua relevância no contexto nacional e internacional”, afirma. 

A preservação do arquipélago também se conecta diretamente ao desenvolvimento sustentável da região. Os ecossistemas de Alcatrazes contribuem para a produtividade pesqueira, ajudam na regulação climática e mantêm uma biodiversidade marinha de grande importância. 

Mesmo protegidos, ambientes insulares como este enfrentam desafios crescentes. Entre os principais estão os impactos das mudanças climáticas, como o aumento da temperatura do mar, eventos extremos e alterações nos padrões ecológicos. 

Mais de cem anos depois do último registro, a pequena begônia reaparece entre rochas, vento e sal. Um lembrete de que, em ambientes preservados como Alcatrazes, a natureza ainda guarda segredos – e que a ciência continua aprendendo a encontrá-los. 

Comunicação ICMBio