Unidades de Conservação fortalecem o astroturismo e a preservação dos céus escuros no Brasil
15 de abril de 2026Localizadas com frequência longe de luzes artificiais, áreas protegidas se destacam na proteção do céu noturno, na promoção do turismo sustentável e na conservação da biodiversidade
Noite nas cataratas – Foto: Urbia Cataratas
As unidades de conservação (UCs) federais têm papel fundamental na proteção dos chamados “céus escuros”, ambientes onde a baixa incidência de luz artificial permite a observação clara do firmamento.
Além de proteger a biodiversidade, essas áreas preservam paisagens naturais e condições ambientais essenciais para a observação astronômica. Essa conexão entre conservação e visitação contribui para sensibilizar visitantes e fortalecer a valorização do patrimônio natural.
Segundo coordenadora substituta de Estruturação e Qualificação da Visitação, Serena Reis, o astroturismo está diretamente alinhado com os objetivos das unidades de conservação. “O astroturismo dialoga diretamente com os objetivos das unidades de conservação ao promover a valorização do patrimônio natural e a sensibilização dos visitantes para a importância da conservação. A atividade também contribui para a aproximação de diferentes perfis de visitantes e reforça a importância da proteção de ambientes com baixa poluição luminosa”.
Entre as atividades que podem ser realizadas nas unidades, destacam-se a observação do céu estrelado, fotografia noturna e astrofotografia, caminhadas em trilhas durante a noite e ações educativas voltadas à astronomia.
No Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, a baixa incidência de nuvens e a reduzida poluição luminosa tornam a região uma das mais indicadas para a observação do céu noturno no Brasil. Em áreas mais afastadas das cidades, é possível visualizar a Via Láctea em determinados períodos do ano, uma experiência cada vez mais rara em regiões urbanizadas.
Além da observação do céu noturno, o pôr do sol também integra as experiências ligadas ao astroturismo na unidade. Segundo o chefe do parque, André Ribeiro, as paisagens naturais da região tornam esse momento um dos mais valorizados pelos visitantes. “Aqui na Chapada dos Veadeiros, pelas paisagens todas, o pôr do sol é parte importante do astroturismo”, destaca.
Segundo André, preservação do céu escuro é um diferencial importante para a visitação e uma preocupação constante diante do crescimento urbano e da expansão da iluminação artificial. “Quando a iluminação não é adequada, vamos perdendo gradativamente a possibilidade de observar o céu noturno. A poluição luminosa é uma preocupação crescente, especialmente com o avanço das cidades e a ocupação de áreas rurais”, destaca.
A experiência de contemplação do céu noturno foi ampliada ao longo dos anos. Em 2013, a abertura da Travessia das Sete Quedas permitiu que visitantes passassem a pernoitar dentro do parque, vivenciando o ambiente noturno em meio à natureza. Já em 2022, trilhas passaram a ser abertas para visitação noturna na região de São Jorge, iniciativa viabilizada no contexto do contrato de concessão firmado pelo ICMBio e a concessionária Parquetur, com acompanhamento obrigatório de condutores credenciados, garantindo segurança aos visitantes e reduzindo possíveis impactos ambientais.
Bioluminescência de larvas de vagalumes ilumina cupinzeiro no Parque Nacional das Emas (GO), fenômeno natural que depende da preservação de céus escuros e da baixa incidência de luz artificial – Foto: Alisson da Silva
Conservação que vai além da paisagem
Preservar áreas com baixa luminosidade não beneficia apenas o turismo, é essencial para a manutenção dos ciclos naturais de diversas espécies.
No Parque Nacional das Emas (GO), por exemplo, a baixa presença de iluminação artificial no entorno contribui diretamente para a qualidade do céu noturno e para a conservação da biodiversidade.
De acordo com a analista ambiental do ICMBio, Taynara Castro, a distância das áreas urbanas é um fator decisivo para a visibilidade do céu estrelado na unidade. “A baixa presença de luz artificial ao redor do Parque Nacional das Emas faz toda a diferença para a qualidade do céu noturno por aqui. Como quase não tem iluminação forte por perto, a poluição luminosa é bem baixa, e o céu acaba sendo classificado como ‘ótimo’ pelo Índice de Potencial Astroturístico dos Parques Nacionais (IASTRO), principalmente na parte norte do Parque”.
Em condições favoráveis, é possível observar constelações, planetas e até mesmo o braço da Via Láctea com nitidez. Esse cenário também favorece fenômenos naturais raros, como a bioluminescência de larvas de vagalumes presentes em cupinzeiros, um espetáculo natural que depende diretamente da ausência de luz artificial.
Segundo a analista, manter o céu escuro é essencial para garantir o equilíbrio ecológico. “Vai além de ser um atrativo turístico. Ele é importante para a biodiversidade e para o equilíbrio ecológico, pois muitas espécies dependem da escuridão para se orientar, caçar, se alimentar e se reproduzir”.
A expansão urbana e o crescimento de atividades humanas próximas às unidades de conservação representam desafios para a manutenção dos céus escuros. A poluição luminosa, causada pelo excesso de iluminação artificial, pode comprometer a observação astronômica e afetar diretamente os ecossistemas.
Segundo Taynara, medidas simples e planejamento territorial adequado são fundamentais para evitar esses impactos. “É importante pensarmos no planejamento do território e reduzir atividades que joguem luz em excesso para o céu ou causem impacto direto na unidade. A fiscalização dos empreendimentos na zona de amortecimento também precisa ser reforçada, para garantir que o céu continue limpo e escuro”.
Entre as ações recomendadas estão o uso de iluminação direcionada e de baixa intensidade, a substituição de lâmpadas por modelos mais eficientes e a criação de regras municipais que limitem o excesso de luz artificial próximo às áreas protegidas.
Campanhas de conscientização com moradores e produtores rurais também são consideradas fundamentais, pois ajudam a demonstrar que a preservação do céu noturno pode trazer benefícios ambientais, científicos e econômicos.
Via Láctea registrada no céu do Parque Nacional da Serra da Capivara (PI)- Foto: Rafael Pereira
Projeto Entre Parques e o astroturismo no Brasil
O potencial do astroturismo em áreas protegidas tem sido estudado por iniciativas como o projeto desenvolvido pelo Instituto Entre Parques, que criou o IASTRO, ferramenta que avalia o potencial de parques nacionais para a prática do astroturismo, considerando fatores como poluição luminosa, condições climáticas e infraestrutura disponível para visitantes.
A iniciativa surgiu a partir da percepção de que a população mundial vem perdendo o contato com o céu estrelado. Segundo o site do Entre Parques, estima-se que cerca de 80% das pessoas já não conseguem observar a Via Láctea a partir de suas áreas de residência, em razão do crescimento da poluição luminosa.
A estruturação do índice foi resultado de uma expedição realizada pelo projeto Entre Parques ao longo de mais de três anos. A ferramenta foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais das áreas de turismo, economia, psicologia, geografia e astronomia, incluindo especialistas vinculados a instituições públicas e acadêmicas.
Com base em conceitos de ciência cidadã e no uso de dados públicos disponíveis, o índice passou a avaliar os parques nacionais considerando critérios como a qualidade do céu noturno, a probabilidade de céu aberto ao longo do ano e a existência de infraestrutura turística, como condutores e locais adequados para pernoite.
Diversas unidades de conservação federais apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento do astroturismo. Entre os exemplos estão o Parque Nacional das Emas, em Goiás, conhecido pela baixa poluição luminosa e pelo fenômeno da bioluminescência de larvas de vagalumes, além do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, também em Goiás, e do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, reconhecidos pelas excelentes condições de observação do céu noturno.
No Parque Nacional do Iguaçu (PR), uma das experiências mais recentes voltadas ao astroturismo é o programa “Céu das Cataratas”, que convida visitantes a contemplar o céu noturno em meio a um dos cenários naturais mais emblemáticos do país.
A atividade ocorre ao anoitecer e conduz os participantes até um mirante com vista para as Cataratas do Iguaçu, onde são realizadas observações do céu estrelado e apresentações que combinam conhecimentos da astronomia com saberes tradicionais dos povos originários, especialmente da cultura Guarani.
Durante a experiência, os visitantes têm acesso a explicações sobre a formação de estrelas, planetas e galáxias, além da observação de constelações e outros corpos celestes em um ambiente com baixa interferência de luz artificial, favorecendo a contemplação do céu noturno.
O crescimento do astroturismo acompanha uma tendência global de valorização do turismo de natureza e de experiências com baixo impacto ambiental. Em áreas protegidas, essa modalidade permite que visitantes explorem o ambiente natural durante o período noturno, ampliando as possibilidades de visitação e promovendo novas formas de sensibilização ambiental.
Além de fortalecer a conservação da biodiversidade, o astroturismo contribui para o desenvolvimento local ao gerar oportunidades de trabalho e renda, especialmente por meio da atuação de condutores e iniciativas de educação ambiental.
Via Láctea ilumina o céu no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO), onde a baixa poluição luminosa favorece a observação astronômica e o desenvolvimento do astroturismo
Comunicação ICMBio

