Parque Nacional

Caminhos do Pampa: trilha une natureza, memória e futuro em um dos territórios mais ameaçados do país

6 de maio de 2026

Inaugurada na Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã, no Rio Grande do Sul, rota de longo curso aposta no turismo comunitário e na valorização cultural para revelar ao Brasil a riqueza do bioma Pampa

O grupo pode experienciar três dias de imersão no bioma e na cultura local – Foto: Daniel Gobbi

“Não hay orgulho mejor em dizer: soy de la frontera” 

— Lázaro Ancinello e Evandro do Carmo 

A frase, cantada em uma milonga que ecoou entre violão e gaita durante uma noite de campo, parece resumir o sentimento que atravessa a inauguração dos Caminhos do Pampa. Misturando português com espanhol – marca típica de quem vive na fronteira entre Brasil e Uruguai –, o verso carrega a identidade de um território onde as divisas políticas nunca limitaram os laços culturais. 

No extremo sul do Brasil, onde o vento corre livre sobre os campos e o horizonte se alonga sem pressa, a abertura da nova trilha nasce como mais do que um convite ao turismo. É um gesto de reconhecimento de um território tantas vezes invisibilizado – e de tudo o que vive nele. 

Na Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, Unidade de Conservação (UC) federal administrada pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) na campanha gaúcha, a nova rota de longo curso aproxima visitantes de um território onde natureza, cultura e vida comunitária caminham juntas. 

Ali, o Pampa não se impõe pelo excesso, mas pela delicadeza. Não há floresta fechada, nem cachoeiras monumentais, nem picos tão elevados. O que existe é uma outra forma de beleza: coxilhas ondulando como mar de terra, aves rasgando o céu aberto, rios silenciosos, pedras antigas, cercas longas, casas dispersas e o cheiro de lenha acesa ao cair da tarde. 

Uma paisagem que pede tempo. E, talvez por esse mesmo motivo, ensine tanto.  

Uma trilha para conservar e conectar 

Com cerca de 360 quilômetros, os Caminhos do Pampa conectam percursos de caminhada, cicloturismo, travessias aquáticas e experiências ligadas ao modo de vida local. O trajeto atravessa quatro municípios do Rio Grande do Sul: Sant’Ana do Livramento, Alegrete, Quaraí e Rosário do Sul, no coração do bioma. 

A iniciativa integra a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade, política criada em 2018 para estruturar rotas capazes de promover conservação da biodiversidade, uso público de áreas naturais e desenvolvimento sustentável em diferentes regiões do país. De acordo com Carla Guaitanele, coordenadora geral de Uso Público e Negócios (CGEUP/DIMAN) do ICMBio, “a trilha se insere diretamente nessa política pública ao articular geração de renda, recreação em contato com a natureza e conservação da biodiversidade”. 

Em várias partes do Brasil, trilhas desse tipo têm aproximado visitantes de UCs, criado oportunidades econômicas e ampliado o valor social atribuído à proteção ambiental.  

Uma trilha de longo curso é resultado da integração de políticas públicas de conservação e uso público, aliada ao engajamento da sociedade”, afirma Carla.  

Na COP15, o diretor do Departamento de Áreas Protegidas (DAP) do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Pedro Menezes, tratou do modelo brasileiro de trilhas, com destaque exatamente a forte participação social. É um processo de construção de baixo para cima, que nasce nas comunidades e usuários, tornando a política sólida e resiliente, disse. 

No Pampa, a proposta ganha um sentido ainda mais simbólico: abrir caminhos em um bioma historicamente menos conhecido do que a Amazônia, a Mata Atlântica, o Cerrado ou o Pantanal. Para Angelice Motter, coordenadora técnica no Instituto Pró-Pampa executor do projeto, “a trilha Caminhos do Pampa é resultado de um processo participativo e territorial”. 

Antes da sinalização em campo, houve oficinas com moradores, escuta de proprietários rurais, mapeamento de atrativos naturais e históricos, identificação de áreas já utilizadas pela comunidade e definição conjunta de trajetos. O desenho final nasceu do encontro entre conhecimento técnico e saber local. Um processo que levou mais de um ano. 

Mais do que traçar linhas em um mapa, foi preciso compreender como o território já se movia por conta própria: onde as pessoas caminhavam, quais trechos eram navegáveis, que lugares guardavam memória, que paisagem despertavam encantamento, quem queria abrir a porteira e participar. 

Apoiado pelo programa GEF Terrestre, iniciativa do MMA financiada pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), o Caminhos do Pampa tem o Funbio como parceiro executor e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora.  Foi dessa maneira que a trilha deixou de ser uma rota imaginada de fora para se tornar um caminho reconhecido por quem vive dentro dele. 

Cena comum no território dos Caminhos do Pampa: rebanho em áreas de campo nativo na APA do Ibirapuitã, onde conservação ambiental e produção rural coexistem. Foto: Daniel Gobbi Sinalização indica rotas e destinos ao longo dos Caminhos do Pampa, incluindo comunidades e pontos locais como o Bolicho do Cota, integrando o território à experiência da trilha. Foto: Daniel Gobbi

O Pampa que o Brasil quase não vê 

O bioma Pampa ocupa uma pequena parcela do território nacional e está restrito ao Rio Grande do Sul em sua porção brasileira. Ainda assim, abriga uma riqueza biológica extraordinária e um dos conjuntos paisagísticos mais singulares do país. 

É também um dos biomas mais ameaçados. 

A conversão de campos nativos em lavouras intensivas, a fragmentação de habitats, espécies exóticas invasoras e mudanças no uso do solo pressionam ecossistemas inteiros. Em muitos lugares, o campo desaparece sem alarde e, com ele, formas de vida que dependem justamente da continuidade dessa paisagem aberta. 

“Só se preserva quem conhece. E quando as pessoas conhecem, entendem a importância das unidades de conservação e, no caso específico, a importância de conservar o Pampa”, afirma Raul Coelho, chefe da APA do Ibirapuitã. 

A frase ajuda a explicar por que uma trilha pode ser mais do que lazer. Ao permitir que pessoas caminhem, pedalem ou naveguem por esse território, a visitação transforma o desconhecido em vínculo. E aquilo que passa a ser conhecido tende a ser também defendido. 

Na UC, vivem aves campestres ameaçadas, felinos raros, anfíbios endêmicos, peixes restritos à região e centenas de espécies vegetais adaptadas ao campo sulino. Cada metro quadrado guarda formas de vida moldadas por milhares de anos de evolução, em uma dinâmica ecológica tão sofisticada quanto pouco percebida por quem associa natureza exuberante apenas à floresta densa. 

Mas o Pampa não é “só” biodiversidade. É também cultura. 

Trata-se de uma paisagem construída pela interação entre natureza e presença humana ao longo de milênios. Povos indígenas, comunidades quilombolas, pecuaristas familiares, trabalhadores do campo e moradores da fronteira ajudaram a formar o território tal como ele existe hoje. 

O mate compartilhado, o cavalo encilhado, o fogo de chão, a música nativista, o vocabulário próprio da campanha e o costume de receber bem são expressões dessa relação profunda entre gente e lugar. No Pampa, cultura e natureza caminham juntas. 

A APA do Ibirapuitã: cuidar da natureza com as pessoas  

Criada em 1992, a Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã é uma UC federal de uso sustentável, que leva este nome em referência ao nome do rio que cruza o território. O nome é indígena, de origem tupi-guarani, significando “arroio da madeira vermelha”. Diferentemente de áreas onde a presença humana é limitada ou removida, uma APA reconhece que é possível conservar mantendo pessoas, trabalho e vida cotidiana no território. 

Com mais de 316 mil hectares, a área é considerada a maior unidade gerida pelo ICMBio no bioma Pampa e uma das regiões mais preservadas desse ecossistema no país. 

“Aqui se estimula a pecuária sustentável. Além de ser um uso sustentável, também é uma medida urgente de enfrentamento à mudança climática, porque o campo nativo é mais resiliente do que as lavouras”, explica Raul, chefe da unidade. 

Na prática, isso significa que atividades produtivas podem coexistir com a conservação quando respeitam os limites ecológicos da paisagem. Em campos manejados de forma tradicional, por exemplo, o gado convive com a vegetação nativa e pode contribuir para a manutenção do ambiente campestre – lógica distinta da substituição do campo por monoculturas extensivas. 

A proteção do Ibirapuitã também tem relevância hídrica. A região abriga nascentes, rios e áreas importantes para a recarga de aquíferos, reforçando o valor ambiental de um território que muitas vezes passa despercebido nos mapas mentais do país. 

Proteger o Pampa, nesse contexto, não significa congelá-lo no tempo. Significa garantir que siga vivo. 

No fim do dia, o movimento lento dos cavalos acompanha o ritmo do Pampa: um bioma de paisagens abertas, onde a cultura do campo e a conservação da natureza caminham lado a lado – Foto: Daniel Gobbi

Quando conservar também é permanecer 

Ao longo do trajeto inaugural, visitantes foram recebidos no bolicho (bar simples, armazém antigo ou comércio tradicional no linguajar pampeano) de Vivaldo Siveira – o Seu Cota –, morador antigo da região, produtor rural e dono de histórias que não cabem em placas de sinalização. 

Havia churrasco, conversa correndo solta pelo pátio e a simplicidade de quem acolhe sem formalidade. “Minha casa sempre foi de porta aberta. Sempre recebi muita gente por aqui”, contou ele. 

Mas, junto da hospitalidade, também o relato de perdas silenciosas. 

Onde antes havia escolas cheias, trabalhadores nas fazendas e comunidades movimentadas, hoje sobraram distâncias maiores, casas fechadas e menos gente. O esvaziamento do campo, comum em tantas regiões brasileiras, também marcou a campanha gaúcha. 

“As campanhas tão tudo abandonadas. Não é só aqui também. Tão tudo sem gente, sem moradores”, diz Seu Cota. A frase carrega décadas de transformação social: mecanização, redução de postos de trabalho, concentração fundiária, falta de oportunidades para jovens, migração para centros urbanos… 

É nesse ponto que a trilha deixa de ser apenas turismo. “Se não fizer um evento assim, um conjunto de ação para o povo, termina o meio rural”, afirma o dono do bolicho. 

Na fala simples do gaúcho, mora uma verdade profunda: conservar paisagens depende também de garantir futuro para quem vive nelas. É assim que, como explica Carla Guaitanele, as trilhas também contribuem para a geração de emprego e renda, se apresentando como alternativa econômica para comunidades onde a atividade principal é a pecuária” 

Se não há renda, pertencimento ou perspectiva, a permanência se torna improvável. E um território sem gente perde não apenas moradores, mas memória, saberes, sotaques, culinária, histórias e formas de cuidado que nenhuma política pública consegue reconstruir sozinha depois. 

Turismo de base comunitária: renda, orgulho e reconhecimento 

Por isso, uma das propostas centrais dos Caminhos do Pampa está no turismo de base comunitária. 

O projeto formou condutores locais e buscou preparar moradores para receber os futuros visitantes, orientar trajetos, compartilhar conhecimentos sobre fauna e flora, apresentar a história da região e criar novas oportunidades econômicas ligadas ao território. 

Angelice Motter acredita que o “curso representa pertencimento, importância e a chance de se sentir parte da trilha, de se sentir parte do todo e querer fazer essa construção coletiva cada vez mais qualificada”. 

Hospedagem familiar, alimentação, venda de produtos locais, apoio logístico, guiamento e experiências culturais são algumas das possibilidades abertas com a circulação de visitantes. Mais do que uma atividade econômica, trata-se de uma mudança simbólica: aquilo que antes parecia distante ou sem valor passa a ser reconhecido como riqueza. 

Perguntada sobre qual palavra definiria a trilha, Marina Gabriela Rodrigues, conhecida por Gabi Montanhista, guia de turismo convidada para percorrer o trajeto inaugural, respondeu: sucesso. Sucesso para nós como agência, que vamos trazer pessoas para conhecer esse lugar lindo. Sucesso para os moradores, que vão contar suas histórias, vender seus produtos e ajudar a fomentar o crescimento dessa região”, resumiu a gaúcha que já conheceu um tanto do Brasil e do mundo, sem perde o encanto pelo que o estado natal oferece. 

Ela continua a descrever a experiência como “mais do que conhecer o bioma e fazer as trilhas, uma conexão muito pessoal com o nosso Pampa e com as pessoas que construíram sua história”. 

Quando visitantes chegam interessados em ouvir, aprender e permanecer por alguns dias, não circula apenas dinheiro. Circula também respeito. As populações locais se sentem valorizadas quando outras pessoas reconhecem os valores históricos, culturais, paisagísticos e ambientais, afirma Raul Coelho. 

Entre natureza, trabalho e cultura, o Pampa resiste e continua sendo vivido. Na música e na dança, os Centros de Tradição Gaúcha (CTG), se destacam na manutenção da cultura. Foto: Daniel Gobbi

Um caminho de volta 

Nos Caminhos do Pampa, há dias em que o maior acontecimento é o voo repentino de uma ave rara. Em outros, é o silêncio. À noite, o céu escuro devolve estrelas que as cidades esqueceram. Em certas casas, o visitante encontra café passado, pão caseiro, cueca virada, chimarrão rodando em roda e histórias antigas contadas como quem oferece abrigo. 

Ali, diz Angelice, há também “contato com família, aconchego e lar”. Talvez seja isso que a trilha inaugure de fato: não apenas um caminho sobre a terra, mas um caminho de volta. 

De volta para a memória de um Brasil profundo e pouco visto. De volta para a natureza sem espetáculo, mas cheia de sentido. De volta para a ideia de que desenvolvimento e conservação não precisam ser inimigos. De volta para o pertencimento. 

E quando o vento corre livre sobre os campos do Ibirapuitã, a velha milonga parece explicar tudo outra vez: Não hay orgulho mejor em dizer: soy de la frontera. 

Demais trilhas que conectam o Brasil  

Os Caminhos do Pampa integram um movimento mais amplo no país. 

No Nordeste, a trilha Caminhos da Ibiapaba, entre Ceará e Piauí, já se consolida como um desses exemplos. Com cerca de 180 quilômetros de extensão, o percurso sobre rotas históricas atravessa áreas da Caatinga, do Cerrado e da Mata Atlântica, conectando unidades de conservação como o Parque Nacional de Sete Cidades e o Parque Nacional de Ubajara. 

Já no Sudeste, no próximo mês, maio, será inaugurada a Trilha Nacional Volta ao Rio, no Rio de Janeiro, que deverá percorrer cerca de 3,5 mil quilômetros, conectando aproximadamente 100 unidades de conservação em um único grande corredor. O trajeto integra paisagens que vão das montanhas da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar até o litoral atlântico, reunindo diferentes regiões turísticas e modelos de gestão em uma mesma experiência. 

Comunicação ICMBio