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Do Cristo às montanhas: nova trilha redesenha o Rio de Janeiro pela natureza

13 de maio de 2026

Passando por unidades de conservação federais, a “Volta ao Rio” é a maior trilha de longo curso do país e conecta natureza, cultura e comunidades no estado do Rio de Janeiro

Vista de um dos trechos da Trilha Transcarioca, integrada ao percurso da Volta ao Rio – Foto: Hugo Pereira

Da possibilidade de neve nas montanhas do Itatiaia ao calor das praias do litoral fluminense, uma nova trilha pretende revelar o Rio de Janeiro por um ponto de vista diferente: o de quem caminha. 

É assim que a Volta ao Rio surge como um grande corredor de conectividade ambiental, cultural e humana. Uma iniciativa construída coletivamente por instituições púbicas, voluntários, gestores, comunidades locais e amantes das trilhas, que transforma o que para muitos é apenas um ato do dia a dia, caminhar, em uma ferramenta de conservação da biodiversidade, geração de renda e aproximação das pessoas com a natureza. 

A trilha integra diferentes caminhos já existentes e outros em construção, reunindo experiências de caminhada, cicloturismo e travessias aquáticas em um único grande circuito fluminense. Com aproximadamente 3,5 mil quilômetros de extensão, a Volta ao Rio pretende conectar mais de 90 municípios e quase 100 unidades de conservação em todo o estado do Rio de Janeiro. 

A iniciativa é conduzida de forma integrada pela Rede Brasileira de Trilhas, pelo Instituto Chico Mendes de Conservação de Biodiversidade (ICMBio), pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA) e pela TurisRio, com apoio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Ministério do Turismo (MTur) e das prefeituras fluminenses que aderiram ao projeto. 

“Talvez, o mais bonito de tudo seja o seguinte: essa trilha não precisa ser percorrida uma vez. Ela pode ser percorrida aos poucos, ao longo do tempo, ao longo da vida”, resume Hugo Pereira, coordenador do projeto. 

Para o trilheiro Luiz Aragão, que percorre integralmente a expedição inaugural, a Volta ao Rio representa algo que vai além do esporte ou da aventura. “O Brasil precisa sair dessa loucura das cidades grandes, do concreto, do asfalto e ir para o meio ambiente. Entrar em paz com a natureza”, resume. 

Aos 60 anos, o trilheiro carrega décadas de experiência em trilhas de longo curso, mas admite que a Volta ao Rio ocupa um lugar especial: “de todas as trilhas que já testei até agora, essa é a que está me tocando mais no coração” 

Segundo ele, as trilhas de longo curso funcionam como corredores vivos de conservação e desenvolvimento sustentável. É um ganha-ganha para todo mundo”afirma Aragão sobre a geração de emprego e renda. 

Os caminhos da conservação 

A Volta ao Rio percorre áreas protegias federais, estaduais e municipais, consolidando uma ampla articulação institucional em torno do uso público e da conectividade de paisagens. Entre os territórios conectados pela trilha, estão unidades emblemáticas como o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, o Parque Estadual dos Três Picos e o Parque Nacional do Itatiaia, sendo este o mais antigo do Brasil. 

Para a coordenadora-geral de Uso Público e Negócios (CGEUP/DIMAN) do ICMBio, Carla Guaitanele, a iniciativa traduz, na prática, uma política pública construída de forma integrada. “Quando a gente olha para a integração, pensando em meio ambiente, conectividade, integração de pessoas, cultura, lazer e saúde, essa é uma excelente política pública”, afirma. 

De acordo com Guaitanele, o projeto fortalece o papel das unidades de conservação como espaços vivos de convivência entre sociedade e natureza. “Essa é a missão do ICMBio: cuidar da natureza com as pessoas”, resume. 

Uma trilha feita a muitas mãos 

A história da Volta ao Rio começou a partir da conexão entre trilhas já existentes no estado. O coordenador do projeto, Hugo de Castro Pereira, explica que a proposta nasceu da percepção de que diversos caminhos já percorriam o território fluminense, mas ainda funcionavam de forma fragmentada. 

A Volta ao Rio, no entanto, não é só conectar trilhas. Pereira é enfático ao afirmar que “a gente conecta unidades de conservação, conecta territórios fragmentados, conecta pessoas e sonhos”. 

Hoje, cerca de 50 municípios já fazem parte do circuito. Mas a proposta segue em expansão contínua, com a perspectiva de integrar, progressivamente, todos os 92 municípios do estado do Rio de Janeiro, à medida que novas prefeituras aderirem à iniciativa. Para Pereira, cada município que entra fortalece. Cada parceiro que chega amplia. Cada pessoa que acredita transforma. 

Ao longo do percurso, a trilha atravessa pequenas comunidades, áreas rurais, vilas caiçaras e destinos tradicionais do ecoturismo fluminense. Assim, a lógica da Volta ao Rio aposta em turismo descentralizado, capaz de distribuir renda ao longo do território. 

“Ele não vai ficar num hotel cinco estrelas. Vai ficar na casa da Dona Maria, comprar no mercado do Zé, usar o transporte do Antônio”explica Hugo Pereira. Na prática, isso significa fortalecer economias locais associadas ao turismo de natureza, ao mesmo tempo em que amplia o sentimento de pertencimento das comunidades em relação aos seus territórios. 

Participantes, voluntários, gestores e representantes de instituições parceiras reunidos no Cristo Redentor durante o lançamento oficial da Trilha Nacional Volta ao Rio – Foto: Marcus Carmo/ICMBioA urgência da conectividade 

A criação de corredores ecológicos e trilhas de longo curso também nasce de uma percepção urgente sobre a fragmentação crescente das paisagens naturais.  

Ao longo de décadas percorrendo trilhas pelo país, Luiz Aragão viu caminhos históricos desaparecerem atrás de cercas, muros e mudanças no uso da terra. Pode ter certeza que, nesse exato momento, quando a gente “tá” aqui fazendo essa trilha de lançamento no Brasil, vai ter alguém levantando uma cerca, construindo um muro… Alguém, um pecuarista – nada contra esses atores – comprando uma extensão de terra gigantediz. 

Em outro momento, ele relembra uma travessia interrompida na Serra da Mantiqueira após a mudança de propriedade de uma área rural: “o tempo urge. A cerca está sendo levantada, o muro está sendo levantado, o empreendimento está sendo criado”. 

Para os idealizadores da Volta ao Rio, consolidar trilhas e corredores de conectividade também significa garantir que as pessoas continuem tendo acesso à natureza e que as paisagens protegidas permaneçam integradas no futuro. 

Embora a expedição inaugural dure cerca de 90 dias, a proposta da Volta ao Rio é justamente permitir múltiplas formas de experiência. A trilha pode ser percorrida integralmente ou em pequenos trechos, em diferentes oportunidades. 

No material de programação da iniciativa, aparecem experiências que vão desde travessias na Ilha Grande até circuitos em restingas, montanhas, praias selvagens e caminhos históricos espalhados pelo estado.  

A Volta ao Rio nasce como uma trilha, mas também como símbolo de uma nova forma de pensar conservação, turismo e território. Uma caminhada que conecta paisagens, fortalece comunidades e aproxima pessoas da natureza. 

E que, passo a passo, ajuda a transformar o estado do Rio de Janeiro em um grande mosaico vivo de conservação e pertencimento. 

Outras trilhas que redesenham o Brasil 

A Volta ao Rio faz parte de um movimento mais amplo de consolidação das trilhas de longo curso no Brasil. As iniciativas unem conservação, turismo de natureza e valorização cultural em diferentes biomas do país. 

No Nordeste, os Caminhos da Ibiapaba percorrem antigas rotas históricas entre Ceará e Piauí, atravessando áreas de Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica em cerca de 180 quilômetros de percurso. A trilha integra paisagens naturais e patrimônio cultural, passando por unidades de conservação como os parques nacionais de Sete Cidades e de Ubajara. 

Já extremo Sul, os Caminhos do Pampa, no Rio Grande do Sul, avançam sobre um dos biomas mais ameaçados do Brasil. A proposta articula natureza, memória e identidade cultural nos campos sulinos, aproximando comunidades, áreas protegidas e territórios historicamente ligados à formação do Pampa brasileiro. 

Comunicação ICMBio