Estudantes do Instituto de Artes produzem série de ensaios sobre arte indígena
12 de maio de 2026Elaborada em parceria com o Memorial dos Povos Indígenas, coletânea contribui para ampliar visibilidade do acervo do espaço
Uma iniciativa de professora e estudantes do curso de Teoria, Crítica e História da Arte, do Instituto de Artes (IdA) da Universidade de Brasília, reitera o esforço da instituição na valorização da cultura indígena, celebrada com ênfase em 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas. Recém-lançada, a coletânea Quando a Universidade vai ao Museu: diálogos entre história da arte e antropologia no acervo do Memorial dos Povos Indígenas reúne ensaios produzidos por 20 discentes na disciplina Arte e Antropologia.
Resultado de parceria com o Memorial dos Povos Indígenas (MPI), a coletânea articula teoria e prática ao analisar obras de arte de diferentes povos originários brasileiros no acervo do centro cultural, idealizado pelos antropólogos Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro, em Brasília.
>> Confira aqui a coletânea na íntegra
Organizadora da obra, a professora do Instituto de Artes Cristina Dunaeva conta que a ideia surgiu a partir de uma tarefa que ela sempre passa para os estudantes da disciplina. “Cada vez, eu peço para estudantes pesquisarem as obras dos acervos de artes indígenas de Brasília e temos alguns acervos desse tipo. Um deles encontra-se na CAL da UnB, Casa de Cultura da América Latina, e outro justamente no Memorial dos Povos Indígenas”, conta.
Segundo Cristina, a importância do diálogo entre história da arte e antropologia é justamente o tema principal do componente curricular. “Sem entendermos o contexto social e cultural de produção das obras de arte indígenas, não conseguimos muito bem interpretar essas obras”, considera. Ela explica que a história da arte opera com o aparelho conceitual e terminológico que surgiu num contexto muito específico: o europeu, a partir dos séculos XV e XVI.
“Muitas metodologias que a história da arte propõe e ferramentas conceituais não se aplicam muito bem à análise das obras de arte produzidas em outros contextos. Uma grande base de textos que estudamos na matéria vem da área de antropologia, porque é na antropologia que foram desenvolvidos os primeiros e mais importantes trabalhos de interpretação das obras de arte indígenas”, aponta. “Este diálogo é absolutamente crucial e indispensável”, acredita.
PESQUISA – Para que o livro fosse escrito, os estudantes precisaram se debruçar sobre a observação direta das obras físicas do acervo do Memorial dos Povos Indígenas e também realizar a pesquisa sobre o contexto social de produção destas obras. “Os estudantes visitaram o Acampamento Terra Livre e tiveram diálogo direto com os representantes dos povos originários”, conta Cristina.
Para o estudante Vinícius Calixto, autor de um dos ensaios, o diálogo entre história da arte e antropologia permite ampliar concepções sobre arte. “A história da arte, quando isolada, tende a aplicar categorias, como autoria e permanência, que nem sempre fazem sentido em outros contextos culturais. A antropologia, por sua vez, traz a perspectiva interna dessas culturas, mostrando que muitos artefatos só podem ser compreendidos a partir de outros sistemas simbólicos, rituais e sociais”, diz.

Máscara Tamanduá, do povo Mẽbengôkre Kayapó. Foto: Vinicius Calixto
Vinícius analisou máscaras do povo Mẽbengôkre Kayapó, especialmente a chamada máscara Tamanduá, como uma forma de compreender a relação entre arte, ritual e organização social.
“O ponto que achei mais interessante foi justamente a diferença radical em relação à concepção ocidental de arte e patrimônio. A máscara Tamanduá, por exemplo, não é meramente um objeto de arte, mas um artefato efêmero e performático que atua como mediador entre os mundos social e natural. A prática de descartar máscaras após as cerimônias e criar novas para cada ritual demonstra que o valor Kayapó reside no processo e na performance, e não na permanência material do objeto”, observa.
Luiza Carvalho estudou uma boneca Karajá feita em madeira. “O que eu mais achei interessante foi como a boneca apresenta características que realmente estāo presentes na cultura do povo, no caso, tanto o cabelo com o ´topete´ bem apontado para cima quanto os círculos nas bochechas”, conta.
A discente lembra que, durante a pesquisa, encontrou, em um artigo da antropóloga Lilian Brandt, a história das moças Karajá que riam de uma foto da antiga nota de R$ 20 porque o cabelo da indígena na imagem estava com os fios pendentes, bagunçados.
“Comecei a estudar e buscar mais sobre como era feito o ´gel´ de resina de plantas e os grafismos, e como esses materiais foram mudando com o tempo”, diz. “Mesmo com o uso do gel e de maquiagem comerciais, o povo Karajá não perdeu sua identidade”, analisa.
Os estudantes rnld Nogueira, Eduardo Justiniano e José Eduardo Brito escreveram o ensaio Comentário sobre a arte Kadiwéu a partir da análise da peça “tigela de barro”. A observação do grupo partiu principalmente da junção entre grafismos e uma peça utilitária do povo Kadiwéu. “Percebemos como nela eram presentes aspectos de organização social, como a noção de virtuosismo feminino, presente em peças como a analisada”, diz rnld.
A estudante rnld Nogueira acredita que, a partir de abordagens da arte e da história da arte, o exercício proposto na disciplina, com um olhar para produções fora de um prisma ocidental, pode ser proveitoso, “já que, por meio de elementos estéticos, formais e expressivos, podemos também tensionar concepções de organização social na prática”.
CONTRIBUIÇÃO ACADÊMICA – Sara Seilert, curadora do MPI, lembra que a iniciativa foi recebida com muita alegria, por ser uma forma de dar visibilidade ao acervo guardado na reserva técnica.
“Acho que estamos vivendo um momento importante de inclusão dos saberes indígenas na formação acadêmica e revisão de cânones eurocêntricos. Os saberes e as práticas indígenas trazem contribuições muito valiosas, especialmente para os estudos das artes e cultura visual”, acredita.

“Fiquei extremamente feliz com o resultado, assim como os estudantes e o quadro de funcionários do Memorial dos Povos Indígenas. A publicação ficou muito bonita e bastante didática. Penso que será um material muito importante para toda a sociedade acadêmica e em geral ao nosso país”, diz a professora Cristina Dunaeva.
“Os estudos da história da arte dos povos originários são muito necessários, porque valorizam as culturas indígenas, a sua arte”, destaca a docente, que avalia a importância da universidade neste processo.
“Penso que a universidade pública é a instituição brasileira mais capaz de promover este diálogo e intercâmbio entre a pesquisa teórica e uma ação prática voltada para a sociedade que ajuda a criar ideias novas, novos olhares sobre a nossa história, repensar a nossa história e a história da arte a partir de uma reflexão crítica contemporânea”, pontua.
ATENÇÃO – As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos. Crédito para textos: nome do repórter/Secom UnB ou Secom UnB. Crédito para fotos: nome do fotógrafo/Secom UnB.
