conservação

ICMBio valoriza vozes dos territórios no Sapis e reafirma conservação construída coletivamente

29 de maio de 2026

Comunidades tradicionais, povos indígenas, pesquisadores, gestores e servidores dos cinco cantos do país compartilharam experiências, desafios e estratégias coletivas para fortalecer a conservação da biodiversidade e a gestão participativa das áreas protegidas

Evento ampliou espaços de escuta e troca entre diferentes saberes – Foto: Geylson Paiva/ICMBio

Todos os biomas e múltiplas vozes reunidos no mesmo espaço. A diversidade de experiências nas unidades de conservação (UCs) federais das cinco regiões nacionais marcou os debates no XII Seminário Brasileiro (Sapis) e no VII Encontro Latino-americano sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social (Elapis).  Lideranças comunitárias, conselheiros, estudantes, pesquisadores, organizações da sociedade civil, servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e representantes de instituições públicas das esferas municipal, estadual e federal compartilharam experiências e perspectivas sobre conservação, sociobiodiversidade e gestão participativa dos territórios. 

Segundo a comissão organizadora, o evento superou as expectativas quanto ao número de inscritos. Mais de 900 participantes acompanharam a programação realizada na Universidade de Brasília (UnB). Uma participação plural de representantes de povos indígenas, quilombolas, comunidades de terreiro, pescadores, marisqueiras e outros povos e comunidades tradicionais. 

Para Layra Silva, moradora dos Lençóis, na Bahia, município localizado na área do Parque Nacional da Chapada Diamantina, e representante dos povos de terreiro da Comunidade do Jarê, o Seminário é um passo importante no reconhecimento dessas populações inseridas em áreas de conservação ainda representa um desafio. “É preciso entender que nós estamos dentro do Parque de forma enraizada, porque somos um só dentro da natureza. Infelizmente, tivemos traumas ancestrais, culturais e emocionais, mas o Sapis me trouxe clareza e uma lição muito grande, principalmente em relação ao ICMBio, ao trabalho que é feito, e que, sim, nós podemos compartilhar um propósito único: cuidar da natureza!”, afirmou. 

Layra também destacou que o evento proporcionou espaços para expor os desafios e demandas de sua comunidade, além de promover a troca de experiências com representantes de outros territórios e povos tradicionais. 

A presença expressiva de servidores do ICMBio foi um dos destaques do evento. Vindos de diferentes regiões do país e vinculados a centros de pesquisa, coordenações regionais e unidades de conservação, os profissionais participaram ativamente das atividades, trocando experiências relacionadas à gestão, pesquisa, proteção territorial e articulação comunitária no contexto de distintos biomas e conjunturas sociais. Com o propósito de fortalecer diálogos sobre temáticas transversais e interseccionais voltadas à promoção de políticas de conservação construídas coletivamente, a presença dos servidores dos cinco cantos do país agregou diversidade de experiências e ampliou e qualificou o leque contribuições do evento. Mais do que apresentar trabalhos técnicos, a atuação dos analistas reforçou o papel cotidiano desempenhado pelo Instituto nos territórios e a importância da construção conjunta com as populações que vivem e se relacionam com as áreas protegidas. 

Entre os relatos compartilhados durante o seminário, o gestor do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, Ulisses dos Santos, destacou a satisfação de oportunizar a participação de parceiros da comunidade no evento. Segundo ele, reconhecer esses grupos como atores sociais que contribuem diariamente para a gestão é fundamental para que a unidade exista e permaneça viva. “Nós trouxemos uma comitiva com 15 representantes do território do Parque Nacional porque consideramos que o Sapis é um espaço de encontro, de alianças, de elo e de conexão. É quando discutimos e pensamos as áreas protegidas não apenas como órgão gestor, mas também dando voz à sociedade, que é protagonista nesse processo. Existem conflitos e diferentes visões, mas conseguimos superar isso por meio do diálogo, da colaboração e do compartilhamento de responsabilidades, pontuou. 

Para o gestor, os projetos desenvolvidos com recursos provenientes dos encargos dos contratos de concessão do parque, o segundo mais visitado do país, têm possibilitado um caminho de reparação histórica, pondo em prática o tema desta edição do Sapis: caminhos para a equidade e a paz. “A gente tem buscado construir um Parque mais equitativo, de forma que os recursos cheguem às comunidades mais vulneráveis. E entendemos que essa população se torna aliada da unidade de conservaçãodestacou. 

A importância da presença institucional nos mais diversos territórios também foi ressaltada pelo conselheiro indígena do Parque Nacional do Pico da Neblina, no Amazonas, Agostinho dos Santos Yanomami: “Eu sozinho, sem apoio, não conseguiria proteger o território. O ICMBio é um grande parceiro da nossa comunidade, juntamente com a Funai, e isso precisa ser cada vez mais fortalecido”, enfatizou. 

Para o chefe de Serviço da Gestão Socioambiental do NGI Pico da Neblina, William Ramello, os desafios de atuar em uma área onde o processo de colonização nunca se consolidou, e onde somente dentro da unidade existem 16 etnias, tornam ainda mais importante a presença e o diálogo entre o povo Yanomami, servidores e parceiros. Segundo ele, um evento como o Sapis foi fundamental nesse processo. “Uma coisa é nós falarmos sobre eles. Outra é vê-los criando conexões, defendendo seus modos de vida e compreendendo os mecanismos, as áreas temáticas do Instituto e os desafios enfrentados pelas equipes que trabalham em áreas ocupadas por povos e comunidades tradicionais”, disse. 

Na defesa dos modos de vida tradicionais e da permanência das comunidades em seus territórios, quilombolas, pescadoras, marisqueiras, entre outros grupos, compartilharam experiências relacionadas ao cuidado com os recursos naturais. Segundo a antropóloga Ana Karla, servidora do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) e gestora das Áreas de Proteção Ambiental de Guaibim e das Ilhas de Tinharé e Boipeba, Bahia, fortalecer conexões com as universidades, com o próprio ICMBio e, principalmente, entre as próprias comunidades é fundamental. “A gente sai renovado nas ideias, com reflexões críticas construídas coletivamente. Saímos revigorados e com mais esperança para voltar aos nossos territórios e continuar nossos processos de gestão das unidades de conservação, que, na verdade, representam muito mais do que isso”, destacou. 

Ao reunir diferentes sotaques, histórias, saberes e formas de relação com a natureza, o evento em mais uma edição reafirma que a conservação ambiental não se constrói de forma isolada. A diversidade presente no encontro evidenciou que proteger os territórios também significa reconhecer culturas, fortalecer vínculos e ampliar os espaços de participação dos povos e comunidades tradicionais na construção de estratégias de conservação da biodiversidade brasileira. 

 

Comunicação ICMBio