Novo gênero de caranguejo é identificado no Parque Nacional do Pico da Neblina (AM)
8 de maio de 2026Descoberta demonstra a importância dos povos indígenas, em espacial dos Yanomamis, e das unidades de conservação na preservação da biodiversidade
A descoberta de Okothelphusa trefauti por pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo ocorreu durante uma expedição científica realizada em 2022, no Parna do Pico da Neblina – Foto: Divulgação
No extremo norte da Amazônia brasileira, o Parque Nacional do Pico da Neblina, sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), reafirma seu papel central na proteção e revelação de uma biodiversidade ainda pouco conhecida pela ciência. O território de 2,3 milhões de hectares está sobreposto a uma área Yanomami, onde um novo gênero e uma nova espécie de caranguejo de água doce foram descobertos. O achado raro reforça a importância estratégica dos povos indígenas e da unidade de conservação na preservação da biodiversidade.
O animal foi batizado de Okothelphusa trefauti. O nome do gênero combina “Oko”, que significa caranguejo na língua yanomami, com “thelphusa”, termo usado para caranguejos de água doce. Já a espécie homenageia o herpetólogo Miguel Trefaut Rodrigues, que liderou a expedição responsável pelo achado.
“A gente ainda não conhece toda a biodiversidade existente. Cada nova expedição descobre formas de vida novas e únicas e, devido à grande dimensão do parque, acreditamos que encontraremos muito mais”, conta o chefe do parque, Cassiano Gatto.
O ambiente, protegido e monitorado pelo ICMBio, é um dos mais isolados do país, o que explica tanto a raridade de expedições quanto o surgimento de espécies únicas.
O chefe do parque, o biólogo Cassiano Gatto, reforça que, especialmente nas regiões mais altas das montanhas, a proporção de plantas e animais que não existem em nenhum outro lugar do planeta podem chegar a 30% do total de espécies. Condições extremas das montanhas, como solo pouco fértil e extremos de umidade e temperaturas, permitem o desenvolvimento desta biodiversidade única, o que torna sua conservação um desafio diante das consequências da mudança do clima.
“Ainda não exploramos as florestas de altitude, por exemplo. Há muito ainda a registrar para fazermos o monitoramento de fauna e flora nos próximos anos – contamos com a participação dos nossos parceiros Yanomami para nos ajudar nessa tarefa”, reforça a chefia da unidade.
Descoberta a 1.730 m de altitude
A descoberta, feita por pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), ocorreu durante uma expedição científica realizada em 2022 na Serra do Imeri, dentro dos limites do parque. Em um riacho de floresta de altitude, a cerca de 1.730 metros, os cientistas encontraram três indivíduos do crustáceo — um macho e duas fêmeas — enquanto realizavam coletas de girinos.
Mais do que uma nova espécie, o estudo — publicado na revista científica Zootaxa — confirmou algo ainda mais significativo: trata-se de um gênero completamente novo dentro da família Pseudothelphusidae, um grupo já conhecido de caranguejos de riachos montanhosos da América do Sul. Esse tipo de avanço taxonômico é considerado raro, especialmente em grupos relativamente estudados.
A análise foi liderada pelo zoólogo Marcos Tavares, que identificou características morfológicas e genéticas distintas no material coletado. Inicialmente, o animal parecia pertencer ao gênero Microthelphusa, usado de forma provisória em classificações incertas. No entanto, o aprofundamento dos estudos revelou uma linhagem única, levando inclusive à reclassificação de espécies venezuelanas relacionadas.
Segundo Tavares, o fato de a equipe ter encontrado um exemplar macho foi decisivo. Nos caranguejos dessa família, estruturas reprodutivas masculinas — chamadas gonópodos — são fundamentais para diferenciar espécies e gêneros. Essas características, altamente específicas, funcionam como uma “assinatura biológica” essencial para a taxonomia.
O novo caranguejo apresenta hábitos predominantemente terrestres, deslocando-se por galerias e áreas úmidas próximas a cursos d’água, onde se alimenta de pequenos invertebrados. Como outros membros da família, possui desenvolvimento direto, sem fase larval, o que limita sua dispersão e favorece o surgimento de espécies endêmicas — muitas vezes restritas a um único topo de montanha.
Grupo de pesquisadores e convidados que participaram da expedição de 2022 na Serra do Imeri liberada pelo professor Miguel Trefaut da USP – Foto: Divulgação
Ciência e conhecimento tradicional
Fortalecer a integração entre a ciência e o saber tradicional dos indígenas Yanomami é a estratégia do ICMBio no Parque Nacional do Pico da Neblina para descobrir novas espécies, conservar o bioma, os modos de vida tradicionais e seu conhecimento associado.
É desejo Yanomami fortalecer essa construção e integrar técnicas e ferramentas para o monitoramento e manejo dos recursos naturais: Urihi- a floresta-mãe, no idioma Yanomami. “Para isso, é fundamental inovar no ‘fazer pesquisa’, agregando valor ao conhecimento tradicional. É importante dialogar com os indígenas, consultá-los e envolvê-los nas pesquisas realizadas em seu território, revelando ainda mais saberes antes guardados”, conclui Gatto.
Desafios Futuros
A mesma condição de isolamento também traz vulnerabilidades à unidade, que hoje enfrenta pressões externas, como o garimpo ilegal e o aumento da temperatura — ameaças concretas à conservação desse sistema ecológico, desenvolvido ao longo de milhares de anos. A mudança climática pode impactar diretamente esses ambientes sensíveis nos próximos anos, colocando em risco espécies que sequer foram completamente estudadas.
A descoberta do Okothelphusa trefauti e de outras novas espécies no local evidenciam, portanto, mais do que a riqueza biológica da região: mostra como a atuação dos indígenas Yanomami e do ICMBio, por meio do Parque Nacional do Pico da Neblina, é decisiva para que ciência e conhecimentos tradicionais caminhem juntos, protegendo a rica biodiversidade da Amazônia.
Comunicação ICMBio
