ARNE SUCKSDORFF
1 de junho de 2026UMA VIDA DIVIDIDA


O “Viking das Selvas”, aos 83 anos, falava em salvar os meninos de rua, os índios e o Pantanal. Arne Sucksdorff queria voltar ao Brasil para construir seu projeto definitivo. Não conseguiu, pois faleceu em maio de 2001, mas deixou esta entrevista exclusiva para a Folha do Meio Ambiente.
Arne Edvard Sucksdorff (3/fevereiro/1917 – 4/maio/2001) é uma lenda do cinema e um dos pioneiros no movimento pela ecologia no mundo. Vencedor do OSCAR de Hollywood e Palma de Ouro em Cannes, Arne teve uma história de vida fantástica. A nova geração brasileira precisa conhecê-lo. Sucksdorff nasceu em Estocolmo, Suécia, em 1917, escreveu livros, roteiros, fotografou, dirigiu e produziu 15 filmes de longa-metragem e vários de curta-metragem.
GÊNIO DA ARTE
Mais do que um apaixonado pelo que faz, Arne foi um gênio que soube fazer. Com o documentário “Ritmo da Cidade”, ganhou o Oscar da Academia Americana de Cinema. Ganhou, ainda, a Palma de Ouro do Festival de Cannes com o filme “A Grande Aventura” e o Festival de Veneza com o filme “O Vento e o Rio”. Chegou ao Rio de Janeiro, em 1962, para dar um curso de cinema para jovens brasileiros: eram seus alunos, Vladimir Herzog, Nelson Pereira dos Santos, Eduardo Escorel, Luiz Carlos Saldanha, Arnaldo Jabor, Joaquim Pedro de Andrade e até um nordestino que acabou sendo mais artista que cineasta, José Wilker. Mas algo não estava no roteiro e entrou no script, dividindo para sempre a vida de Arne Sucksdorff: sua paixão pelo Brasil. Fascinado pela natureza, deixou o Rio de Janeiro e resolveu conhecer e fotografar o Pantanal Matogrossense. Nova paixão à primeira vista: no Pantanal morou durante 30 anos e lá escreveu, filmou fotografou, casou-se, teve filhos. Seu livro “Pantanal, um Paraíso Perdido” encantou o mundo.

Arne Sucksdorff, Flávio Migliaccio e as crianças que atuaram no filme Minha Casa é Copacabana: Toninho Carlos de Lima, Cosme dos Santos, Josafá da Silva Santos, Leila Santos de Sousa.
ARNE SUCKSDORFF: TENHO UM PLANO PARA O BRASIL

Silvestre Gorgulho
Neste ano de 2026, Suécia e Brasil celebram o bicentenário de suas relações diplomáticas. Nada como lembrar o cineasta Arne Sucksdorff um dos mais efetivos suecos a deixar um legado de aproximação entre os dois países. Durante o ano de 1999, tive muitas conversas por telefone com Arne Sucksdorff. Ele não tinha hora para ligar. Quando o telefone tocava, muito fora de hora, eu já sabia que era ele. As conversas eram longas. Um dia resolvi gravar. Sempre muito ansioso, ele estava preocupado e com a ideia fixa de fazer uma grande exposição de seus trabalhos em várias capitais europeias. Pediu para ajudá-lo. Precisava de fotos atuais dos incêndios florestais em Mato Grosso, especialmente no Pantanal. Foi quando resolvi gravar nossa conversa. Disse que iria publicar na Folha do Meio Ambiente. Senti que nem Arne esquecera o Brasil e que nem o Brasil podia esquecer Arne Sucksdorff. A entrevista saiu na edição de abril de 1999. A repercussão foi grande. Ao lê-la, o empresário sueco Jens Olesen me ligou e me colocou em contato com o cineasta mineiro Fernando Camargos, que estava fazendo um filme sobre Sucksdorff. Com as novas informações, Fernando Camargos reformulou todo seu projeto e concebeu o belo filme “Uma Vida Dividida” sobre a história cineasta sueco. Fiz a última e grande entrevista de Arne Susksdorff. Uma relíquia que vou republicar nesta edição sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente. Aos 83 anos, o Viking das Selva anuncia seu novo projeto para o Brasil: a criação da Fundação São Francisco de Assis. “Este é meu sonho. Este é o meu plano. Tenho 83 anos e quero voltar ao Brasil para salvar o Pantanal, os índios, os meninos de rua e as selvas brasileiras”.
ARNE SUCKSDORFF – ENTREVISTA

– “Sou um perfeccionista e idealista. A vida parece curta demais para se ocupar apenas de coisas que estão na média. Às vezes, me acusam de ser um sonhador irrealista. Mas estou com o escritor sueco Ivar Johansson quando ele diz que o homem não está onde estão seus pés, mas onde estão seus sonhos”. Arne Sucksdorff, o vencedor do Oscar de 1949.
Silvestre Gorgulho – O senhor é respeitado pelo seu trabalho, já ganhou o Oscar de Hollywood, foi premiado em Cannes, Veneza, Nova York, Vaticano, Moscou, Berlim. O senhor é um homem realizado?
ARNE SUCKSDORF – Com 83 anos, ainda estou à beira de entrar nas missões mais exigentes da minha vida. Tenho muitos planos e sonhos. Quero salvar os meninos de rua, quero salvar os índios e quero salvar as florestas. Esta nova geração não me conhece, mas quem tem uma certa idade lembra dos meus filmes, livros e fotos. Com 20 anos, no início da Segunda Guerra Mundial, eu já tinha feito uma série de filmes de curta metragem que chamou a atenção internacional. Mas ainda tenho muito o que fazer. E tudo que quero fazer, o principal está no Brasil.
Silvestre – Para o senhor, qual foi seu melhor filme?
ARNE – Ah, difícil. Para mim e muitos outros foi MITT HEM ÄR COPACABANA. Um filme sobre os meninos de rua do Rio de Janeiro, feito em 1962.
“Com 20 anos, no início da Segunda Guerra Mundial, eu já tinha feito uma série de filmes de curta metragem que chamou a atenção internacional. Mas ainda tenho muito o que fazer. E tudo que quero fazer, o principal está no Brasil”.
ARNE SUCKSORFF

Minha Casa é Copacabana
Silvestre – Depois de morar aqui 30 anos, o senhor voltou para a Suécia em 1988. Como ficou sua relação com o Brasil?
ARNE – Hoje o Brasil – Mato Grosso, Pantanal e as selvas – são mais a minha terra que a Suécia. Quando puder andar bem sem as muletas, vou voltar para o Brasil para realizar o maior projeto da minha vida: salvar índios, meninos de rua e a floresta com a ajuda de uma silvicultura sã para o meio ambiente.
Silvestre – Mas antes de falar de seus planos, conta para gente por que o senhor, um homem de sucesso, deixou a Suécia em 1962?
ARNE – Isso foi depois do fiasco econômico com o filme POJKEN OCH TRÄDET, onde as únicas coisas boas foram o ator Tomas Bolme e a música de Quincy Jones. A “esquerda doida”, que tinha uma conjuntura bem forte, me carimbou como um reacionário antissocial. Todo mundo acha que os fascistas representavam a extrema direita, quando na verdade – exatamente como os nazistas – são socialistas na extrema esquerda. Comunistas e fascistas são crianças com a mesma alma e são os piores coveiros para a Democracia. Foi a maior razão que eu deixei a Suécia em 1962 e emigrei para a Sardenha, na Itália. Nesse tempo recebi um convite da UNESCO e do Itamaraty para dar um curso de cinema no Rio. O curso, que era de poucos dias, me segurou por aqui mais de 30 anos.
“Tive muitos alunos. Mais do que alunos, foram grandes amigos: o Joaquim Pedro de Andrade, Arnaldo Jabor, Vladimir Herzog, Escorel, Saldanha, Alberto Salvá, Antônio Carlos Fontoura, Lucila Ribeiro, Flávio Migliáccio, Escorel, José Wilker. E tinha um que era aluno e intérprete, o Nelson Pereira dos Santos”.
ARNE SUCKSDORFF
Silvestre – Sua vinda para o Brasil foi um divisor de água para o Cinema Brasileiro. Quem foram seus alunos?
ARNE – Conhecer o Brasil, foi um atalho feliz na minha vida. Como cineasta e como defensor da natureza. Tive muitos alunos e guardo muitas saudades de todos eles. Mais do que alunos, foram grandes amigos. Lembro de todos, talvez esqueça algum, não sei: o Joaquim Pedro de Andrade, Arnaldo Jabor, Vladimir Herzog, Escorel, Saldanha, Alberto Salvá, Antônio Carlos Fontoura, Lucila Ribeiro, Flávio Migliáccio, Escorel. Tinha um menino talentoso, o José Wilker. E tinha um que era aluno e intérprete, o Nelson Pereira dos Santos. Eu até emprestei a moviola que levei, que depois doei para a Embrafilme, para o Nelson montar o “Vidas Secas”.
Silvestre – E como nasceu sua paixão pelo Pantanal?
ARNE – Depois do curso no Rio, resolvi fazer fotos e filmes sobre o Pantanal. Nunca esqueço meu primeiro contato. Foi em 1966. A sensação era como se eu tivesse chegado ao Jardim de Deus. Um parque zoológico natural. Tinha vida em cada lugar que eu pisava. Na beira do rio tinha jacarés tomando sol. De repente passava um bando de araras como uma rajada. Na planície os veados, capivaras e emas se misturavam ao gado zebu. Os abutres revelavam onde a vítima estava escondida. A onça pintada deixava os traços de sua pata redonda. Pássaros de todos os tipos. Uma maravilha e um drama em cada lugar!
“Depois do curso no Rio, resolvi fazer fotos e filmes sobre o Pantanal. Nunca esqueço meu primeiro contato. Foi em 1966. A sensação era como se eu tivesse chegado ao Jardim de Deus. Um parque zoológico natural.
ARNE SUCKSDORFF
Silvestre – E por quanto tempo o senhor viveu essa experiência?
ARNE – Foi uma experiência fantástica. Durante dois anos vivi como índio, da caça e da pesca. Foi muito interessante como o homem pode ter a experiência de viver em harmonia com a natureza e feliz sem a bênção da civilização. Não senti nem falta da música clássica, que eu gosto tanto. Isso me faz lembrar um lema antigo na Suécia, “é preferido caminhar livre nos terrenos desertos, do que estar na cadeira confortável recebendo comida dos outros”. Quanto mais eu amava o Pantanal, com mais intensidade eu me engajava contra a destruição que ameaça este paraíso.
Silvestre – E de onde vinha esta destruição?
ARNE – Olha, além da terrível ameaça da caça e pesca predatórias, da queima da floresta, as cidades e as fazendas crescem pelos quatro cantos do Pantanal. Nenhuma das cidades tem instalações para tratamento de esgoto. E os esgotos vão diretamente para os rios que abastecem o Pantanal. É a mesma coisa com os agrotóxicos usados na agricultura. Era comum ver lagoas esbranquiçadas, tantos eram os peixes mortos boiando com ventre para cima. Quando pássaros e outros animais comem os peixes contaminados, os venenos se espalham na corrente alimentícia. O mercúrio produzido na lavagem de outro e a poluição industrial tornam a situação ainda mais sombria.
Silvestre – Como vê a construção da hidrovia no Pantanal?
ARNE – O projeto da hidrovia é muito caro, mas sou contra porque os rios que vêm do Norte deverão ser dragados e alargados para se tornarem navegáveis e serem utilizados no transporte de cargas. Para que se tornem navegáveis e as rotas mais curtas, muitas curvas serão cortadas. Isso pode trazer a erosão, o desmatamento da mata ciliar. Tanta violência contra a natureza me faz lembrar o entomologista Ivar Trädgardh: “O homem precisa aprender como as malhas seguem no tecido da vida, antes que ele comece a desfiá-las”.
Silvestre – O senhor fala do Pantanal e do Brasil como se ainda tivesse planos para eles?
ARNE – E eu tenho. Com 30 anos de vivência na selva e no Pantanal, estou criando a Fundação São Francisco de Assis, que entre outras coisas tem o objetivo de determinar como estas regiões ricas podem ser exploradas sem a destruição da natureza. Para mim, arrumar e cuidar da casa dos seres humanos de uma maneira digna é uma questão humanitária.
Silvestre – Mas antes de falar de seus planos, como foi sua volta para a Suécia depois de morar esses 30 anos no Brasil?
ARNE – Quando eu voltei para a Suécia, em 1988, eu estava pobre como um mendigo. Estava muito abatido com derrotas e acidentes. Maria, minha esposa e mãe dos meus filhos Cláudio e Anders, pequenos na época, sofreu uma doença mental devido a um trauma de infância. Além disso eu sofri um acidente de carro que quase me custou a vida. Em março do ano passado sofri uma fratura no fêmur. Quem não conhece o que é dor antes, conhece depois. Tudo isso acabou com minhas finanças. Mas tão logo eu largue estas muletas, volto ao Brasil para realizar o maior projeto de minha vida: salvar os índios e os meninos de rua, utilizando uma silvicultura sã para o meio ambiente.
“Tão logo eu largue estas muletas, volto ao Brasil para realizar o maior projeto de minha vida: salvar os índios e os meninos de rua, utilizando uma silvicultura sã para o meio ambiente”.
ARNE SUCKSDORFF
Silvestre – O senhor acha que encontrará apoio para seus projetos?
ARNE – Acredito que sim. Sempre tive apoio da imprensa brasileira que me apelidou de “O Viking da Selva”. Também o Ministério das Relações Exteriores do Brasil sempre me apoiou. Recebi, há pouco, uma carta do Chanceler brasileiro. Foi uma carta de agradecimento, dizendo que minha luta foi um exemplo de pioneirismo e minha coragem foi importante para salvar os Parques e ajudar na elaboração de leis que protegessem a natureza. Terei apoio do Banco Mundial e também dos muitos amigos que fiz pelo mundo, especialmente aqui na Suécia. O rei e a rainha já me garantiram seu apoio.
Silvestre – E o senhor ainda tem forças para levar em frente tantos planos?
ARNE – Sou um perfeccionista idealista. A vida parece curta demais para se ocupar apenas de coisas que estão na média. Às vezes me acusam de ser um sonhador irrealista. Mas estou com o escritor sueco Ivar Johansson quando ele diz que o homem não está onde estão seus pés, mas onde estão seus sonhos. Quando eu tinha 7 anos, sonhei que era um índio. E já vivi com os índios. Quando eu tinha 9 anos, sonhava em caçar tigres que comem homens. Também já fiz isso. Mulheres lindas também nunca faltaram em minha vida. E quem não sonha em ficar independente economicamente? Também vou ficar. Olha uma coisa. Trabalho como cidadão do mundo e meu lema é: – Para quem segue sempre sua consciência, a vida nunca é vazia e sem sentido.

Arne Sucksdorff e a mulher, Maria da Graça, criaram uma ariranha
como animal de estimação.
Silvestre – Conta, então, qual é seu projeto?
ARNE – Meu plano é comprar uma grande fazenda de gado no Pantanal e lá montar um competente centro de pesquisas e demonstrações. Junto ao centro vou construir umas duas vilas ecológicas, para menino de rua, equipadas com escolas e assistência médica. A natureza exuberante é saudável para o corpo e a alma, portanto é o melhor lugar para recuperação. A verdade é que nas grandes cidades, como Cuiabá, os meninos de rua convivem com os riscos e acabam se afundando na prostituição e drogas. São presas fáceis para os traficantes.
Silvestre – E como realizar esse sonho?
ARNE – Você quer saber onde vou arrumar o dinheiro? Lógico, preciso de muito dinheiro. Mas veja só, há 26 anos eu fui dono de 63 mil hectares de floresta no Mato Grosso. Em 1971, durante a ditadura, essa terra foi confiscada, apesar de ter sido uma medida contra a Constituição. Por isso entrei com um processo no Supremo Tribunal de Justiça. Agora, tudo indica que vou receber uma indenização muito grande. Suficiente para realizar esse projeto. E como disse, tenho quase certeza de que o Rei e a Rainha da Suécia vão ser os patrocinadores da Fundação São Francisco de Assis que vou criar.

Silvestre – E como vai funcionar esta Fundação?
ARNE – Bem, Silvestre, é o que disse. Você me conhece. Vou comprar uma fazenda no Pantanal e criar esta Fundação para administrar o projeto. Quero recuperar os meninos de rua, ajudar os índios e fazer todo um trabalho de preservação da natureza, com pesquisas e demonstrações agronômicas. Quero introduzir espécies de árvores no Pantanal, como o Leucena que não espalha raízes horizontalmente, mas penetram verticalmente na terra. Assim a Leucena é ideal para diminuir e parar a erosão na beira dos rios.
Silvestre – E esta Fundação terá outras finalidades?
ARNE – Além destes trabalhos agronômicos, quero que ela dedique muito à educação. Tão importante quanto criar oportunidades para quem está excluído da sociedade é conscientizar e educar. Mostrar o valor da Cidadania. Tanto para quem vive nas cidades e como nos campos.

Silvestre – Alguma mensagem aos brasileiros?
ARNE – Primeiro, pela Folha do Meio Ambiente, quero dizer que a natureza é o sorriso de Deus, um raio de luz na escuridão dos seres humanos. Quando eu era pequeno, tinha um professor de matemática que todos os alunos adoravam. E ele iniciava cada aula, lembrando o seguinte: “Pensar é bom. Pensar certo é melhor. Pensar grande é melhor ainda”. Temos que pensar e agir com amor, ter a verdade como arma e não esmorecer nunca. Cada um tem que cumprir bem sua missão e os governantes têm que cumprir as missões pessoais e as missões para as quais foram eleitos. Se Fernando Henrique Cardoso cumprir suas missões, como cidadão e como Presidente da República, também conseguir que cada brasileiro cumpra seus deveres e todos paguem seus impostos, a situação brasileira vai melhorar significativamente. Se o governador Dante de Oliveira me ajudar, eu mesmo vou cuidar para que o Mato Grosso não tenha mais meninos de rua e que esse Estado se torne um modelo para os outros. Mas tudo depende de pensar certo e grande. É como eu disse, para quem segue sua consciência, a vida nunca é vazia e sem sentido. Meu amigo, só os peixes mortos se vão pelas correntezas dos rios.
