GRUTA DO MAQUINÉ
1 de junho de 2026ESPLÊNDIDO PALÁCIO DEBAIXO DA TERRA
MONUMENTO NATURAL ESTADUAL PETER LUND
A Gruta de Maquiné foi a primeira a ser integrada ao circuito turístico do estado, podendo hoje ser visitada com toda comodidade e segurança. Felizmente, depois de uma história bastante acidentada, a Gruta do Maquiné foi conservada sem grandes modificações, graças à iniciativa do governador Israel Pinheiro, que pelos decretos 10.048 de 23 de setembro de 1966 e 10.645 de 22 de agosto de 1967, desapropriou parte do maciço calcário onde a gruta está situada.

Artisticamente iluminada e ligada por asfalto à BR-040, a Gruta de Maquiné situada em Cordisburgo-MG, recebeu em 2005 uma nova garantia legal de defesa e proteção. O então governador Aécio Neves, pelo decreto n° 44120/2005, garantiu definitivamente para as gerações futuras este patrimônio tão importante, declarando a Lapa do Maquiné e seu entorno imediato como uma Unidade de Conservação Estadual do grupo de proteção integral na categoria de Monumento Natural.
Em homenagem ao cientista dinamarquês Peter Lund, que dedicou parte de sua vida aos estudos da História Natural de nosso Estado, esta Unidade de Conservação recebeu o nome de Monumento Natural Estadual Peter Lund.
MONUMENTO NATURAL PETER LUND
Ao visitar a Gruta de Maquiné, o visitante tem ainda a oportunidade de conhecer a terra natal de Guimarães Rosa. Para os que apreciam literatura, Cordisburgo oferece outro atrativo: o Museu Guimarães Rosa, aberto na casa onde o grande escritor do sertão mineiro nasceu e passou parte de sua infância.
Aliás, ninguém melhor que o próprio Guimarães Rosa para descrever a Lapa de Maquiné: “De feito, diversa é a região, com belezas, maravilhal. Terra longa e jugosa de montes pós montes: morros e corovocas. Serras e serras, por prolongação. Sempre um apique bruto de pedreiras, enormes pedras violáceas, com matagais ou lavadas. Tudo calcário. E elas se roem, não raro, em formas – que nem pontes, torres, colunas, alpendres, chaminés, guaritas, campanários, parados animais, destroços de estátuas ou vultos de criaturas… quantidade de cavernas”. “E nas grutas se achavam ossadas, passadas de velhice, de bichos sem estatura de regra, assombrações deles – o megatério, o tigre-dente-de-sabre, a protopantera, a monstra hiena espélea, o páleo-cão, o lobo espéleo, o urso-das-cavernas – e homenzarros duns que não há mais. Era só cavar o duro chão, de laje branca e terra vermelha e sal”.
ORIGEM DO NOME MAQUINÉ
José Osvaldo dos Santos, conhecido como Brasinha, diretor
cultural da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, desvenda este mistério. Ele lembra que, em ‘Sagarana’, em o ‘Corpo Fechado’, Guimarães Rosa conta:
“Mané Fulo chega bêbado montado na sua mula Beija-Flor na casa do doutor e o mesmo pergunta ao Mané onde ele pretende ir. Mané Fulo responde:
– Pretendo ir nos Tões, Militões, Canindés, Maquinés!
Loucura, porque nem nunca que havia poder chegar a Fazenda do Tão, nem na do Militão, pior ainda no Canindé, nem nunca que nunca no Maquiné, principalmente com a Beija-Flor assim disposta à arrombar portas e ir embocando no domicílio de gente importante”.
Explica José Osvaldo que todos os nomes citados por Guimarães Rosa são de famílias muito conhecidas em nossa comunidade de Cordisburgo, portanto o nome destas famílias com certeza deu nomes aos lugares. Existem afirmações que o proprietário das terras onde existe a Gruta tinha o sobrenome Maquiné: Joaquim Maria do Maquiné.
A GRUTA DOS SETE SALÕES
Veja as fotos de alguns dos sete salões da Gruta.
Um verdadeiro palácio debaixo da terra.


Os espeleotemas (estalagmites e estalactites) espalhados ao longo dos sete salões internos são de uma beleza singular

A LIÇÃO DO PROFESSOR CÉLIO VALLE
Para o professor Célio Murilo de Carvalho Valle a região é rica, diversa e especial. Próximo corre o Ribeirão do Cuba, que desaparece num sumidouro abaixo da gruta do Salitre. Depois de atravessar o maciço calcário, reaparece para desaguar no ribeirão do Onça, afluente do rio das Velhas, o mais importante afluente rio São Francisco. João Guimarães Rosa, filho de Cordisburgo, em estilo inconfundível descreve um desses rios típicos das regiões cársticas: “Fim do campo, nas sarjetas entremontãs das bacias, um ribeirão de repente vem, desenrodilhado, ou o fiúme de um riachinho, e dá com o emparedamento, então cava um buraco e por ele se soverte, desaparecendo num emboque, que alguns ainda têm pelo nome gentio de anhanhonhacanhuva. Vara, soterrão, travessando para o outro soe do morro, ora adiante, onde rebrota desengulido, a água já filtrada, num bilobilo fácil, logo se alisando branca e em leves laivos se azulando, que qual polpa cortada de caju”.
A ECOLOGIA – O professor Celio Valle, sempre otimista, gosta de usar sua sabedoria na esperança de que no futuro tudo pode ser diferente, se a luz benéfica da ciência e da arte guiarem os trabalhos dos gestores públicos e dos empreendimentos industriais. Depois de visitar e registrar mais de 106 grutas situadas ao longo do Rio das Velhas, onde era intensa a exploração do salitre, como é hoje a da cal e do cimento, Peter Lund deixou escrito essas candentes e atuais palavras sobre a conservação destes nossos monumentos naturais, já então intensamente dilapidados: “Aqueles que têm o culto das sublimes belezas naturais não podem contemplar sem verdadeira mágoa a destruição metódica do principal ornamento dos trópicos; as majestosas florestas virgens: o botânico já pode talvez deplorar a extinção irreparável de muitos dos mais velhos representantes da flora deste país. Entretanto, o que vale tal perda, comparada com a destruição de milhões de destroços duma fauna extinta, que a zoologia perdeu para sempre em virtude da retirada da terra salitrosa das grutas?”
PRÓXIMA EDIÇÃO 388 – julho/2026 –
AS LIÇÕES DO PROFESSOR CÉLIO VALLE.
O guardião das grotas, dos rios e das grutas, Célio Murilo de Carvalho Valle, que no próximo 30 de agosto fará 93 anos, continua fiel à sua missão de preservar, plantar e defender a natureza. “A gente se preocupa em deixar dinheiro, casa, bens. Mas e a água? E a terra? Não podemos deixar uma terra de vidro. Precisamos deixá-la viva, pelos filhos, netos, bisnetos.” Para o professor Célio Valle, a lógica econômica ignora os limites da natureza.
