ICMBio subsidia atualização da Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção
24 de junho de 2026Trabalho conduzido pelo Instituto avaliou mais de 15 mil espécies da fauna brasileira e embasou a nova portaria do MMA, que reúne 798 espécies ameaçadas. 180 novas espécies foram incluídas e 156 espécies deixaram de ser consideradas ameaçadas
Entre as espécies que passaram a integrar a lista estão a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) – Foto: Lucas Leite
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) concluiu mais um ciclo de avaliação do estado de conservação da fauna brasileira, consolidando um dos maiores esforços de diagnóstico da biodiversidade realizados no mundo. Os resultados do trabalho técnico-científico conduzido pelo Instituto subsidiaram a atualização da Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, publicada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
O documento é um dos principais instrumentos para a proteção da biodiversidade brasileira, pois identifica as espécies que correm risco de desaparecimento e orienta políticas públicas, ações de conservação, programas de recuperação, processos de licenciamento ambiental e outras iniciativas voltadas à proteção da fauna.
Previstas na Política Nacional da Biodiversidade, as listas oficiais também servem de referência para o planejamento de ações de conservação, a definição de prioridades para pesquisa e monitoramento e a elaboração de planos de recuperação das espécies ameaçadas.
A atualização contempla os grupos de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e invertebrados terrestres. Os peixes e invertebrados aquáticos são tratados em norma específica publicada em abril deste ano.
O trabalho integra um amplo conjunto de ações coordenadas pelo ICMBio para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e apoiar a tomada de decisões em conservação. Neste ano, também foi publicada a primeira Lista Nacional Oficial de Espécies da Funga Ameaçadas de Extinção, um marco para o reconhecimento e a proteção dos fungos no país.
A nova versão substitui a lista anterior, de 2022, e incorpora os resultados das avaliações conduzidas pelo Instituto, com a participação de especialistas, instituições de pesquisa e organizações da sociedade civil. A portaria reúne dois anexos: a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, com 788 espécies ou subespécies, e a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Extintas, que contabiliza nove espécies reconhecidas como extintas no país.
“O conhecimento produzido de forma contínua pelo Instituto Chico Mendes, em parceria com a comunidade científica, constitui uma base essencial para que o país tome decisões qualificadas sobre conservação, desenvolvimento e uso sustentável dos recursos naturais. Conhecer o estado de conservação das espécies é uma condição indispensável à nossa missão”, ressaltou o presidente do ICMBio, Mauro Pires.
Um dos maiores esforços de avaliação da biodiversidade do mundo
A atualização da lista foi construída ao longo de 15 oficinas técnicas coordenadas pelo ICMBio, com a participação de mais de 200 especialistas da comunidade científica e instituições parceiras. O conjunto de informações foi consolidado pelos Centros Nacionais de Pesquisa e Conservação do Instituto e encaminhado ao MMA em março de 2025, apresentado à Comissão Nacional da Biodiversidade (Conabio) em abril e aprovado em junho.
Embora o número total de espécies ameaçadas tenha passado de 774 para 798, a atualização revela uma dinâmica muito mais ampla do que o crescimento líquido dos registros. O processo resultou na inclusão de 180 espécies e na retirada de 156 espécies da lista anterior, refletindo tanto alterações reais no estado de conservação quanto o avanço do conhecimento científico sobre a biodiversidade brasileira.
“A adição e a reclassificação de espécies na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas são resultado de uma robusta análise técnica que identifica a efetiva situação da fauna brasileira, em um esforço realizado conjuntamente por governos, academia, sociedade civil e setor econômico. É um trabalho conduzido ao longo de anos que evidencia os avanços da ciência brasileira”, afirmou o ministro do MMA, João Paulo Capobianco.
Casal adulto de bugios-pretos (Alouatta caraya)- Foto: Italo MourthePanorama da fauna ameaçada
Entre as espécies ameaçadas, 168 estão classificadas como criticamente em perigo (CR), das quais 25 são consideradas possivelmente extintas (CR-PE). Outras 285 encontram-se na categoria em perigo (EN) e 336 são classificadas como vulneráveis (VU). Apenas uma espécie, o mutum-do-nordeste (Pauxi mitu), permanece na categoria extinta na natureza (EW), com exemplares mantidos apenas em cativeiro.
Os invertebrados terrestres representam o maior grupo da lista, com 264 espécies ou subespécies ameaçadas de extinção. Em seguida aparecem as aves, com 242 registros, os répteis, com 123, os mamíferos, com 102, e os anfíbios, com 59 espécies ou subespécies.
Entre as espécies que passaram a integrar a lista estão a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), reclassificada como vulnerável (VU), além do bugio-preto (Alouatta caraya) e do tamanduaí (Cyclopes rufus).
A inclusão de uma espécie na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção indica que ela enfrenta risco significativo de desaparecimento e passa a ser reconhecida legalmente como prioritária para ações de conservação. Essa classificação fortalece mecanismos de proteção, orienta políticas públicas, amplia a mobilização institucional e contribui para evitar a extinção das espécies.
Por outro lado, há espécies que deixaram a lista de ameaçadas. Dentre as 156, algumas foram retiradas em razão de revisões taxonômicas, enquanto outras passaram a integrar categorias não ameaçadas, como Menos Preocupante (LC), Quase Ameaçada (NT) ou Dados Insuficientes (DD). Em diversos casos, a mudança decorre do aumento do conhecimento científico sobre a distribuição e ocorrência das espécies. Em outros, reflete melhorias efetivas em seu estado de conservação.
A retirada de espécies da lista representa um importante indicador dos resultados alcançados por ações de conservação. Casos como os da harpia (Harpia harpyja) e do sagui-branco (Mico rondoni) demonstram, entretanto, que os avanços obtidos exigem monitoramento permanente e manutenção dos esforços de proteção para evitar novos declínios populacionais.
Tamanduaí (Cyclopes rufus)- Foto: Alexandre MendonçaEspécies extintas
A Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Extintas permaneceu estável em relação ao levantamento anterior, contabilizando nove espécies — duas de anfíbios, seis de aves e uma de mamífero.
Entre as espécies da categoria Extinta (EX) está a perereca-gladiadora-de-sino (Boana cymbalum). Endêmica das porções altas da Serra do Mar, em São Paulo, a espécie não é registrada desde 1962, apesar de décadas de buscas em seu habitat histórico. Estudos apontam que fatores como expansão urbana, poluição industrial e doenças contribuíram para seu desaparecimento.
Monitoramento contínuo fortalece a conservação da biodiversidade
A classificação das espécies segue os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), referência global para a avaliação do risco de extinção. Entre os fatores analisados estão a redução populacional, o tamanho das populações, a distribuição geográfica, a perda e a fragmentação de habitats, além de outras pressões que afetam a sobrevivência das espécies.
O Brasil, país com a maior biodiversidade do planeta, conduz uma das mais amplas avaliações de fauna do mundo. Atualmente, mais de 1,2 mil espécies encontram-se classificadas em alguma categoria de ameaça.
As informações são periodicamente disponibilizadas no Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (Salve), e subsidiam a atuação integrada de órgãos governamentais, comunidade científica, setor produtivo e sociedade civil na proteção da biodiversidade brasileira.
Ao atualizar continuamente o diagnóstico sobre o risco de extinção das espécies brasileiras, o ICMBio fortalece a base científica necessária para a tomada de decisões e para o cumprimento dos compromissos nacionais e internacionais de conservação da biodiversidade. A ciência evolui continuamente, novas ameaças surgem e o conhecimento sobre a biodiversidade se amplia a cada ano. Por isso, o Instituto mantém o monitoramento permanente da fauna brasileira e já se prepara para os próximos ciclos de avaliação, garantindo que o país disponha de informações cada vez mais qualificadas para proteger seu patrimônio natural.
Tradição brasileira na avaliação do risco de extinção
O Brasil é um dos países pioneiros na elaboração de listas vermelhas de espécies ameaçadas de extinção. A primeira lista oficial foi publicada em 1968 e, desde então, a avaliação do risco de extinção consolidou-se como uma política de Estado, com impactos diretos sobre diversas políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade.
A partir da criação do ICMBio, o país ampliou significativamente a escala das avaliações. Até então, o processo concentrava-se em espécies consideradas candidatas à ameaça. Com a nova abordagem adotada pelo Instituto, passou-se a avaliar todas as espécies de vertebrados formalmente descritas e com ocorrência no Brasil, além de grupos selecionados de invertebrados.
Essa mudança representou um salto expressivo na produção de conhecimento sobre a fauna brasileira. A lista publicada em 2003 foi elaborada a partir da análise de aproximadamente 1.800 espécies e registrou 627 espécies ameaçadas. Já a avaliação que subsidiou a lista de 2014 considerou 12.254 espécies e identificou 1.173 espécies ameaçadas.
Atualmente, o Instituto Chico Mendes avalia mais de 15 mil espécies da fauna brasileira, configurando um dos maiores esforços individuais de avaliação do risco de extinção do planeta.
Comunicação ICMBio
