SECA x JARDINS BRASILIENSES

ÁGUA E PAISAGISMO EM BRASÍLIA EM TEMPO DE SECA

29 de julho de 2026

Maurício Andrés Ribeiro explica como cactos e suculentas podem transformar os jardins de Brasília e enfrentar a seca.

Silvestre Gorgulho

Quem mora no Distrito Federal sabe muito bem que nessa região do Cerrado o ano só tem dois períodos: o das chuvas e o da seca. O período da seca começa no final de maio e vai até o final de setembro. Julho é frio e em agosto a seca é para valer. Para falar sobre como conviver melhor com o período da seca em relação ao paisagismo, conversamos com o arquiteto, fotógrafo e escritor Maurício Andrés Ribeiro. Autor de vários livros sobre Ecologia e sobre a Índia, Maurício Andrés é um gestor ambiental consagrado em Minas Gerais e Brasília. Foi diretor do CONAMA – Conselho Nacional de Meio Ambiente e assessor especial da Agência Nacional de Águas.

MAURÍCIO ANDRÉS RIBEIRO – ENTREVISTA

 

Silvestre Gorgulho – Você conhece bem Brasília, uma cidade-parque. E sabe como é o clima da região. Há condição de um jardim projetado conviver com a seca?

Maurício Andrés – Olha, tem sim. Verdade que o sonho modernista de Lucio Costa, que desenhou a cidade-parque, tem este desafio crescente: a seca. Com até cinco meses de estiagem severa por ano, umidade relativa do ar muitas vezes abaixo dos 20% e o racionamento de água batendo à porta em anos críticos, a capital federal precisa repensar sua relação com a água nos espaços verdes.

 

Silvestre – Então por que continuamos a plantar gramados e jardins sedentos por água, como se vivêssemos na Mata Atlântica ou na Amazônia e não no Centro-Oeste?

MaurícioEsses jardins continuam a ser plantados por inércia e atraso na compreensão do que está acontecendo com o clima. A resposta está na mudança de padrões estéticos e culturais. Está numa transformação que já acontece na Califórnia e que precisa chegar com força também a Brasília.

 

Silvestre – Qual a lição da Califórnia?

Mauricio – A lição está do gramado ao paisagismo com baixo consumo de água. Deixa-me explicar melhor. Entre 2012 e 2016, a Califórnia viveu a pior seca de sua história recente. O governo estadual precisou agir. Uma das medidas mais eficazes foi o programa “Cash for Grass” (Dinheiro por Grama), que incentivou residências e empresas a arrancar gramados convencionais, verdadeiros “bebedouros” de água, e substituí-los por jardins de baixo consumo, os chamados xeriscapes [xeropaisagismo, que reduz ou elimina a necessidade de irrigação]. Foram removidos milhões de metros quadrados de grama, e os moradores receberam subsídios por cada pé quadrado convertido.

 

Califórnia – Uma das medidas mais eficazes foi o programa “Cash for Grass” (Dinheiro por Grama) que incentivou a arrancar gramados convencionais e substituí-los por jardins de baixo consumo de água.

 

Silvestre – Por que isso importa para Brasília?

MaurícioImporta e muito porque Brasília tem um clima tropical de altitude com duas estações bem-marcadas: uma chuvosa (outubro a abril) e outra seca (maio a setembro). Durante a seca, os jardins públicos e privados que dependem de grama (Paspalum notatumZoysia japonica) ou de espécies de clima temperado exigem irrigação constante – um absurdo em uma região que já sofreu com crises hídricas severas, como em 2017, quando o nível do Lago Paranoá e do Descoberto baixou drasticamente.

Cactáceas (como o mandacaru, o rabo-de-gato, o Cereus jamacaru) e suculentas (como a espada-de-são-jorge, a Sansevieria, e os Sedum) são nativas ou adaptadas a climas áridos e semiáridos. Elas armazenam água em seus tecidos e fazem fotossíntese noturna, reduzindo drasticamente a perda de água. Em Brasília, muitas já crescem felizes com a chuva da estação úmida e praticamente nenhuma irrigação na seca.

 

Califórnia – incentivos econômicos para jardins adequados ao clima seco. O resultado não foi apenas econômico (milhões de litros de água poupados por dia), mas também estético e cultural. A grama perfeita, símbolo de status suburbano, deu lugar a jardins repletos de cactos, agaves e rochas decorativas. A beleza do deserto – antes vista como árida e feia – passou a ser valorizada como elegante, resiliente e inteligente.

 

Silvestre – Depois de 66 anos de vida, essa é uma mudança de padrões: do gramado impecável ao jardim escultural. Seria possível?

Maurício – É possível, mas o maior obstáculo não é técnico, é cultural. Durante décadas, associamos “jardim bonito” a tapetes verdes uniformes, arbustos podados e flores o ano inteiro. Esse modelo consome muita água, necessita de irrigação, é insustentável e anacrônico, improprio para o tipo de clima nessa região.

 

Silvestre – Deixa eu entender. Você acha que é preciso ressignificar a estética de um jardim?

Maurício – Justamente isso. É preciso valorizar esteticamente um jardim e abandonar padrões que são adequados para outros tipos de clima. Um paisagismo com cactos colunares como esculturas, suculentas rasteiras formando tapetes de texturas, pedras de quartzo, cascalhos e topos de morro com bromélias resistentes (como a Neoregelia) pode ser tão ou mais belo quanto um jardim inglês. Em vez de competir pela água escassa, ele celebra a seca como parte da identidade local.

 

Essa é uma lição de boas práticas aplicada em Brasília. Os jardins californianos e a relação do paisagismo com a seca são alguns dos temas tratados no livro “Hidrosofia”, de Maurício Andrés, que será lançado, em Brasília, agora em agosto de 2026.

Outro exemplo: cactáceas em jardim numa clínica particular

na Asa Sul de Brasília

 

Silvestre – Maurício, você que é arquiteto e morou tanto tempo em Brasília, pode citar alguns exemplos encorajadores dessa opção por jardins adaptados para seca aqui no Distrito Federal?

Maurício – Olha, há vários exemplos que aplicam essa proposta que eu defendo: jardins bonitos e que consomem pouca água. Vamos a eles:

Jardins do Palácio do Buriti (Governo do DF): Nos últimos anos, houve substituição parcial de gramados por canteiros de suculentas e cactos em áreas de maior exposição solar, com redução mensurável no consumo de água da irrigação.

Parque Olhos d’Água (Asa Norte): Mantém áreas de cerrado preservado com espécies como a embiruçu, o pau-terra e, em trechos reabilitados, plantou-se Allamanda e suculentas nativas, reduzindo a necessidade de replantio anual.

Jardim Botânico de Brasília: Oferece cursos e exposições permanentes sobre paisagismo com cactáceas do bioma Cerrado e Caatinga, demonstrando que é possível ter cor, forma e vida com quase zero de irrigação.

Casas particulares no Lago Sul e Noroeste: Projetos premiados de arquitetos paisagistas vêm incorporando cactos colunares e agaves em projetos residenciais, com economia média de 70% na água de jardim.

 

Silvestre – Vamos a alguns desafios e recomendações. O que falta para Brasília se tornar uma referência em paisagismo com baixo consumo de água?

Maurício – Bom desafio, mas vamos a eles. Faltam cinco ações urgentes:

1) Incentivos públicos: Programa similar ao californiano, com desconto no IPTU para quem substituir gramado irrigado por ‘xeriscape` com cactáceas e suculentas.

2) Mudas e informação: Produção gratuita ou de baixo custo de mudas de cactos e suculentas adaptadas ao DF nos viveiros da Novacap e do Jardim Botânico.

3) Revisão de posturas municipais: Muitos condomínios ainda proíbem jardins com pedras e “vegetação esparsa” por acharem que é “abandono”. É preciso mudar essa regra por lei.

4) Programas de educação para o clima, hidroalfabetização e paisagismo que formem as consciências de crianças e adultos para a economia de água.

5) Premiações para os melhores e mais bonitos jardins que expressem essa hidroconsciência.

A paisagem de Brasília pede coerência e criatividade. Se a cidade foi concebida como um símbolo de futuro, que seu paisagismo também seja. Manter jardins sedentos por água em pleno cerrado não é tradição, é teimosia. A seca não é uma emergência passageira. É regra e vale sempre por meio ano.

Maurício Andrés

 

 

Silvestre – Concluindo, você acha que é possível mudar essa cultura de muita grama e jardins ingleses?

MaurícioNão só acho como, digo mais, a paisagem de Brasília pede coerência. Se a cidade foi concebida como um símbolo de futuro, que seu paisagismo também seja. Brasília já contou com o trabalho de Burle Marx e outros grandes paisagistas. Manter jardins sedentos por água em pleno cerrado não é tradição, é teimosia. A seca não é uma emergência passageira. É regra e vale sempre por meio ano. Olha, a Califórnia já mostrou que é possível trocar o verde consumista pelo verde inteligente e hidroconsciente. Cactos, suculentas e o xeriscape podem dar a Brasília uma nova identidade nos jardins públicos e privados: bonita, econômica e, acima de tudo, ética. Afinal, economizar água não é apenas uma escolha técnica, é um ato de amor pela cidade e pela população que aqui vive.