Aos 92 anos, Eugênio Giovenardi segue como um dos maiores guardiões do Cerrado brasileiro
15 de julho de 2026Criador do Sítio das Neves, primeira área de Cerrado do Distrito Federal transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), ecossociólogo dedicou mais de cinco décadas à recuperação de nascentes, à conservação da biodiversidade e à defesa do bioma.
Mês do Meio Ambiente: os 92 anos de um guardião do Cerrado
Há encontros que simbolizam uma vida inteira. Diante de uma nascente cristalina, um senhor de cabelos brancos, chapéu de aba curta e olhar sereno se ajoelha, une as mãos em forma de concha e deixa a água escorrer lentamente entre os dedos. O gesto simples traduz uma relação construída ao longo de mais de meio século entre homem e natureza.
A nascente continua viva graças ao trabalho de Eugênio Giovenardi. Aos 92 anos, o ecossociólogo, escritor e ambientalista comemora não apenas mais um aniversário, mas também o legado de uma existência dedicada à proteção do Cerrado, considerado o berço das águas do Brasil.
A coincidência faz a data ganhar ainda mais significado. Eugênio celebra seu aniversário justamente no Mês do Meio Ambiente, período em que o mundo volta os olhos para a necessidade urgente de preservar os recursos naturais. Em tempos de mudanças climáticas, secas prolongadas e pressão crescente sobre os biomas brasileiros, sua trajetória representa um exemplo concreto de que a recuperação ambiental é possível.
“Há um misto de prazer, satisfação e uma espécie de dever cumprido com a natureza”, resume.
Para ele, proteger o Cerrado nunca significou apenas conservar árvores ou animais.
“A água faz parte da vida. Foi da água que nascemos. A natureza é a casa de todos os seres vivos”, costuma dizer.
Um intelectual que transformou conhecimento em ação
Natural de Casca, no Rio Grande do Sul, Eugênio Giovenardi construiu uma trajetória marcada pela reflexão e pelo compromisso social. Ex-seminarista, é filósofo, teólogo, cientista social, ecossociólogo, escritor e consultor aposentado da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Também integra a Associação Nacional de Escritores e publicou mais de 30 livros voltados a temas sociais, ambientais e filosóficos.
Mas sua maior obra talvez não esteja nas páginas que escreveu.
Ela está viva, crescendo diariamente, em uma área de aproximadamente 70 hectares situada às margens da BR-060, na divisa entre o Distrito Federal e Goiás: o Sítio das Neves.
Ali, teoria e prática passaram a caminhar juntas.
O nascimento de um projeto de restauração ambiental
A história começou em 1974, dois anos após Eugênio se mudar para Brasília com a esposa, a jornalista e tradutora finlandesa Hilkka Mäki, e a filha, Aino Alexandra.
Ao adquirir a propriedade, encontrou um cenário bastante diferente do que existe hoje.
A vegetação havia sido degradada por queimadas sucessivas, produção de carvão vegetal e intenso pisoteio de gado. O solo estava compactado e os cursos d’água apresentavam vazão reduzida durante a estiagem.
Apesar disso, havia algo que chamou sua atenção.
Nos fundos da propriedade corria o Ribeirão das Lages, alimentado por pequenos córregos que desapareciam durante o período seco.
“Percebi que alguma coisa estava faltando para ajudar este pedaço de terra a se recompor”, recorda.
A partir dessa inquietação nasceu um dos mais importantes projetos particulares de recuperação ambiental do Cerrado.
A descoberta do caminho das águas
A inspiração veio de uma fonte inesperada: a literatura.
Enquanto lia Os Sertões, de Euclides da Cunha, Eugênio encontrou referências às antigas técnicas romanas de retenção de águas pluviais em regiões áridas da Tunísia.
A ideia despertou uma pergunta simples:
Se era possível armazenar água no deserto, por que não conservar a água das chuvas no Cerrado?
Ao aprofundar seus estudos sobre hidrologia e conservação do solo, compreendeu uma das principais características do bioma: sua capacidade de abastecer as maiores bacias hidrográficas do país.
O Cerrado é conhecido como a “caixa d’água do Brasil” porque dele nascem rios que alimentam as bacias Amazônica, Tocantins-Araguaia, São Francisco, Paraná-Paraguai e Parnaíba.
A partir desse entendimento, Eugênio desenvolveu uma solução baseada na própria dinâmica da natureza.
Após consultar especialistas, identificou oito canais naturais de escoamento das águas da chuva e construiu dezenas de pequenas barragens de contenção distribuídas ao longo do terreno, espaçadas em intervalos de aproximadamente cinco metros.
O objetivo era simples: reduzir a velocidade da enxurrada, aumentar a infiltração da água no solo e promover a recarga dos aquíferos subterrâneos.
Quando a natureza responde
Os resultados começaram a aparecer poucos anos depois.
A água passou a permanecer por mais tempo no solo.
O lençol freático foi sendo recarregado gradativamente.
As árvores recuperaram o vigor.
E aquilo que parecia impossível aconteceu.
As duas nascentes que secavam durante o período de estiagem voltaram a correr durante todo o ano.
“Depois de duas ou três décadas insistindo nesse trabalho, percebemos que duas nascentes intermitentes haviam se tornado permanentes. As árvores responderam imediatamente porque aquilo que elas mais precisam é da recarga dos aquíferos”, conta.
O sucesso da experiência transformou o Sítio das Neves em uma referência de restauração ecológica baseada em processos naturais.
Um refúgio para a biodiversidade
Hoje, a propriedade abriga um dos mais ricos remanescentes particulares de Cerrado preservado no Distrito Federal.
Levantamentos registram mais de 360 espécies vegetais entre árvores, arbustos, gramíneas e plantas frutíferas.
A recuperação da vegetação também permitiu o retorno da fauna.
Mamíferos como tamanduá-bandeira, paca, bugios e ariranhas voltaram a utilizar a área. Diversas espécies de aves, répteis, insetos e pequenos animais encontraram novamente alimento, abrigo e condições para reprodução.
O sítio tornou-se também espaço de pesquisas, educação ambiental e demonstração prática de técnicas sustentáveis de conservação de recursos hídricos.
Reconhecimento permanente
Em 2023, quase cinco décadas após o início desse trabalho, veio um reconhecimento histórico.
O Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e a Secretaria de Meio Ambiente do Distrito Federal oficializaram o Sítio das Neves como a primeira área de Cerrado do Distrito Federal transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).
A criação da unidade garante proteção perpétua ao território, assegurando que sua vegetação, nascentes e biodiversidade permaneçam preservadas para as futuras gerações.
Mais do que um reconhecimento pessoal, a medida consolida um exemplo concreto de como iniciativas individuais podem produzir impactos ambientais duradouros.
Um legado que inspira o futuro
Mesmo aos 92 anos, Eugênio Giovenardi continua defendendo uma mudança profunda na relação da sociedade com a natureza.
Para ele, o Brasil avançou na criação de leis ambientais, mas ainda precisa fortalecer políticas públicas capazes de integrar conservação, produção sustentável e educação ambiental.
“O que falta são políticas ambientais. Temos leis, mas precisamos fazer com que os biomas sejam capazes de se conservar. Faça a sua parte. Salve o Cerrado, e o Cerrado salvará, com certeza, a nossa casa comum.”
Sua trajetória demonstra que preservar o meio ambiente não depende apenas de grandes investimentos ou tecnologias sofisticadas.
Começa com conhecimento, persistência e respeito pelos ciclos naturais.
Mês do Meio Ambiente
Celebrado anualmente em junho, o Mês do Meio Ambiente tem como marco o Dia Mundial do Meio Ambiente, instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1972 durante a Conferência de Estocolmo, na Suécia, primeiro grande encontro internacional dedicado às questões ambientais.
A data busca mobilizar governos, instituições e cidadãos em torno da construção de um modelo de desenvolvimento mais sustentável, baseado na conservação dos recursos naturais, na proteção da biodiversidade e no enfrentamento das mudanças climáticas.
Histórias como a de Eugênio Giovenardi mostram que essa transformação não acontece apenas nas grandes conferências internacionais. Ela também nasce em pequenas propriedades rurais, ao redor de uma nascente recuperada, onde o cuidado diário com a natureza se transforma em um legado capaz de atravessar gerações.
