O VELHO DO RIO DA VIDA REAL
1 de julho de 2026Roni Peterson é o guardião do rio Verde no Sul de Minas

Tem aqueles que moram à beira do rio. O Roni Peterson vive dentro do rio, entre o trecho que fica entre Varginha e Elói Mendes, no lugar conhecido como Ponte dos Buenos. Durante muito tempo eu ouvia falar de um “doido que morava no rio”. Quando fui entrevistá-lo, descobri o ser humano maravilhoso que ele é. Um homem com uma missão sublime, que muitas vezes coloca em risco a própria vida para proteger o rio Verde. Ele já foi ameaçado por conta de garimpeiros e outros clandestinos. Mas não recusa de sua missão.

Roni Peterson: o Velho do Rio que luta pela preservação das águas do rio Verde.

Rio Verde explorado por dragas para retirar areia e também pelo garimpo clandestino. Conheça mais sobre o rio Verde: nascente, percurso e foz no no Lago de Furnas.
Quem assistiu à novela PANTANAL se lembra muito do Velho do Rio. Na versão original da novela, em 1990, exibida pela TV Manchete, o personagem foi vivido pelo ator Cláudio Marzo. No “remake” da novela (2022) exibido pela TV Globo, quem assumiu o papel foi o ator Osmar Prado. O Velho do Rio foi um ser mítico, protetor das águas, que surge quando o rio precisa ser defendido. Aliás, em ambas as apresentações, também trabalhou um ator que nasceu em São Lourenço, cidade cortada pelo próprio rio Verde.
Bom saber que a vida imita a arte e, muitas vezes, a supera.
Pois é, o Velho do Rio da ficção virou carne e osso no rio Verde onde está localizada a Ponte dos Buenos. Ele tem nome, história e cicatriz: Roni Peterson. Assim como o personagem, Roni é guardião, é voz do rio, é quem aparece quando ninguém mais aparece. A diferença é que o dele não é encantamento. É realidade, suor, ameaça e coragem todos os dias, entre Varginha e Elói Mendes.

As dragas do garimpo clandestino e para retirada de areia estão ao longo do rio Verde. (foto: Roni Peterson)
A ROTINA DE QUEM VIVE PELO RIO
Todo santo dia, ao amanhecer, Roni Peterson grava um vídeo. É o jeito dele de agradecer a Deus pelo novo dia. Na câmera, ele mostra os patos selvagens que chegaram um dia e decidiram ficar. Para ele, já viraram domésticos. Mostra também o café fumegante na serração, aquele vapor subindo na neblina da manhã que dá vontade na gente de parar tudo e tomar um café junto com ele.
É simples, é real e é nessa rotina que a gente entende: Roni não só defende o rio. Ele vive em comunhão com ele e mostra seu encantamento para seus seguidores.

Ao cuidar das águas do rio, Roni Peterson passou a cuidar de sua biodiversidade. Salvou também os pássaros, peixes, os animais ribeirinhos e, até pessoas.

Todo santo dia, ao amanhecer, Roni Peterson grava um vídeo. É o jeito dele de agradecer a Deus pelo novo dia.

Roni Peterson não só defende o rio Verde. Ele vive em comunhão com ele e mostra seu encantamento para seus seguidores.
A MISSÃO DE RONI PETERSON
Numa época em que a dor apertava demais, o próprio Roni pensou em dar cabo da vida ali, nas águas do Rio Verde. Mas foi no meio ao lixo que encontrava no rio Verde, que o Velho do Rio descobriu sua boia de salvação. Sim, sua vida passou a defender a vida do rio retirando sacos e sacos de lixo. A sujeira, o abandono do rio e busca por uma água pura trouxeram a Roni Peterson novos desafios e o fizeram a mudar de ideia. Veio a decisão final: ao invés de tirar a própria vida, ia passar a cuidar da vida do rio.
Ao cuidar das águas do rio, Roni passou a cuidar de sua biodiversidade. Salvou também os pássaros, peixes, os animais ribeirinhos e, até pessoas.
Roni já tirou da água três pessoas que queriam se despedir nas águas do Rio Verde. Hoje essas pessoas são amigas dele. Duas famílias inteiras passaram a conhecê-lo, a respeitá-lo, a chamá-lo de irmão. O rio que quase levou a vida dele, virou o lugar onde ele salvou outras vidas.
Mas cuidar do rio também é lidar com visitantes indesejáveis. Uma vez, cortaram um pé de goiabeira que ele mesmo tinha plantado às margens. A indignação veio na hora. Dava vontade de reagir, de revidar. Mas Roni se conteve. Aprendeu ali, na prática, que para ser guardião não basta ter força no braço. Precisa ter paciência no coração. Ele entendeu que a violência afasta as pessoas do rio. O que ele quer é justamente o contrário: trazer mais gente para cuidar junto. Fazer um mutirão de gente do bem para proteger um bem maior: as águas que alimentam e salvam.
Ser guardião não é fácil. É acordar cedo na Ponte dos Buenos para recolher o que a pressa dos outros jogou na água. É enfrentar indiferença, poluição, ameaça de garimpos clandestinos. É entender e esclarecer as pessoas sobre a ignorância de quem corta uma árvore sem pensar. É fazer de tudo isso sua rotina de vida, sem abandonar o rio.
A luta de Roni não passou despercebida. A EPTV – a Rede da TV Globo do Sul de Minas, resolveu dar visibilidade ao seu trabalho e fez um documentário sobre seu projeto que virou meio de vida. Assim, seu exemplo e sua rotina alagou o Brasil e mostrou que sua solidariedade e generosidade podem ser repetidas e ampliadas por outras margens de tantos outros rios que cortam cidades e fazendas. O Brasil viu o homem que vive pelo rio, que chora pelo rio, que não desiste do rio.
O Rio Verde corre mais forte porque tem o seu Velho do Rio vigiando suas margens entre Varginha e Elói Mendes. E eu, que um dia ouvi falar do “doido do rio”, hoje tenho a honra de contar a história do homem que escolheu a vida, aprendeu a ter paciência, e nos convida a fazer o mesmo.
Obrigado, Roni. Por transformar dor em cuidado, por nos lembrar de agradecer ao amanhecer e por provar que os guardiões de verdade não vivem, necessariamente, no luxo dos shoppings-center, nem nos gabinetes de gestores públicos e privados. Mas vivem por aqui, anônimos, em cada cantinho de nosso país, onde fazem de seu viver um momento de esperança e dão, despretensiosamente, um abraço de solidariedade na natureza.
Como Roni Peterson, aqui, na Ponte dos Buenos!
MAIS INFORMAÇÕES: Conheça mais detalhes
sobre a nascente, bacia e foz do rio Verde.
