BRASÍLIA

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31 de agosto de 2026

O urbanismo revolucionário das superquadras sensíveis à água e que dá qualidade de vida

Silvestre Gorgulho

O conceito de “super-quadras” como extensão residencial

aberta ao público, em contr

Brasília enriqueceu os dicionários da Língua Portuguesa com neologismos clássicos desde sua inauguração. Por exemplo, Plano Piloto. Buscando o significado no dicionário ou na internet, está lá: “Plano Piloto é a região administrativa central de Brasília, projetada pelo urbanista Lúcio Costa em formato de avião”. Outro exemplo, superquadra. Se você for ao Google, a definição: “Superquadra é uma forma de organização urbanística. No Brasil é conhecida como a experiência morfológica realizada na área residencial de Brasília”. Outro exemplo: tesourinha. Além do nome de uma ave muito conhecida, está lá no dicionário: “Em Brasília, as tesourinhas são passagens subterrâneas e viadutos em formato de alça que cruzam o Eixão e os Eixinhos, que servem para mudar de direção e entrar nas superquadras sem precisar de semáforos”. Os três conceitos – plano piloto, superquadra e tesourinha – nasceram com Brasília e estão ligados à vida na capital da República.

Em abril passado, Brasília completou 66 anos de inauguração. Nessas quase sete décadas, a capital evoluiu, adensou e virou a terceira maior cidade do País. Mas, as suas quatro características urbanísticas continuam as mesmas, mesmo porque desde 1987 é uma cidade tombada pela Unesco.

Dentro dos pontos principais do plano Piloto estão o Eixo Monumental, o Eixo Rodoviário (Asas Sul e Norte) e as áreas residenciais, divididas nas famosas Superquadras. O Plano Piloto de Brasília tem ao todo 96 superquadras residenciais, divididas de forma igual entre a Asa Sul e a Asa Norte. A grande característica das superquadras é que os blocos têm apenas seis andares e se sustentam em pilotis. São áreas muito arborizadas, com apenas um único acesso comum, garantindo um tráfego mais calmo, evitando o trânsito de não moradores. Elas se completam com escolas, igrejas e comércios variados. É sobre as superquadras que vamos conversar com o arquiteto e escritor Maurício Andrés Ribeiro.

MAURÍCIO ANDRÉS RIBEIROENTREVISTA

aposição ao de “condomínio”

como arcos fechados e privativo,

foi inovador e revelou-se válido e civilizado.

Lucio Costa 3/XII/85

Silvestre Gorgulho – Maurício, você é mineiro, mas mora em Brasília há muito tempo. Por onde passou e trabalhou, você é um profissional sempre atento às questões ambientais, urbanísticas e sustentáveis. Pergunto, o que você acha do projeto Lucio Costa e, especialmente, sobre as superquadras?

Maurício AndrésOlha, sou fã do urbanista Lucio Costa. E eu falo isto de uma maneira profissional, por ter estudado a trajetória dele, e sobretudo porque durante 26 anos de minha vida, morei em apartamentos, em superquadras na Asa Sul de Brasília, e tive o privilégio de vivenciar um padrão urbanístico de alta qualidade. Brasília é a concretização de uma utopia. Uma cidade com um projeto que revolucionou o modo de viver.

Silvestre – Você é um pesquisador das questões hídricas e ambientais. Você foi diretor-executivo do Conama e trabalhou muito tempo na Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Como você vê a questão do manejo da água dentro desse mundo das superquadras?

Maurício – Devemos ressaltar a importância da concepção urbanística das superquadras em Brasília. Inventadas há mais de 66 anos por Lucio Costa, tornaram-se um padrão urbanístico desejável, que precisa ser revalorizado no contexto das mudanças climáticas e de seus eventos extremos. Foi uma criação urbanística que traduziu de forma pioneira aquilo que atualmente se chama de cidades-esponja, defendida pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, que ao invés de conduzir a água por meio do concreto de obras rígidas utiliza a infraestrutura verde para absorver, limpar e reutilizar a água da chuva no próprio local onde ela cai, evitando enchentes graves. Quero lembrar ainda que as superquadras podem ser vistas como exemplos pioneiros daquilo que propõe o movimento das cidades sensíveis à água que se originou décadas depois na Austrália. Elas buscam formas de convivência harmônica com a água, respeitam o ciclo hidrológico, facilitam a infiltração. Constroem jardins filtrantes, valetas para conduzir a água de chuva, telhados verdes, áreas de infiltração em cada lote, evitando que as enxurradas se avolumem.

 

Silvestre – Nesse ponto, o espaço verde nas superquadras é muito generoso.

Maurício É verdade. Ali as árvores crescem livremente, com amplos espaços. A fiação é subterrânea e elas não sofrem podas radicais como vemos em outras cidades em que as árvores são confinadas em passeios estreitos e com fiação aérea. Em Brasília, ciência e arte se aliaram no planejamento do desenho urbano, paisagismo, urbanismo e arquitetura. As superquadras são uma inspiração para um modelo saudável de cidade sensível à água.

Beleza e qualidade de vida nas superquadras em Brasília.

Silvestre – Na verdade, quando Lucio Costa, Niemeyer e Burle Marx criaram a Superquadra Modelo, que está na 308/108 Sul, eles plantaram um modelo não só original como de muita qualidade de vida.

Maurício –  E não é só isso. Brasília virou uma cidade-parque. Evidente que outros paisagistas contribuíram para esverdear a paisagem de todo os Distrito Federal. É bom lembrar que não havia conhecimento sobre paisagismo e arborização urbana no Cerrado. Tudo foi aprendido experimentalmente. Hoje, Brasília é um grande parque nas Asas Sul e Norte, entremeado por edifícios e casas onde as pessoas vivem. Essas generosas áreas verdes são esponjas que absorvem grande parte da água de chuva e reduzem os riscos e danos das inundações catastróficas que acontecem em outras cidades.

 

Silvestre – E tem o lado da convivência, da humanização do ambiente.

Maurício – Esse é um legado que o urbanista deixou não só para os brasilienses, mas para todo o mundo. A superquadra é amigável para com as crianças, com muitos espaços para elas brincarem, nos pilotis abertos e sem cercas dos prédios. Nas áreas verdes os moradores passeiam com seus animais de estimação, nos playgrounds cercados ou não. Eu vivi isso quando morava em Brasília durante a pandemia do Covid-19. As quarentenas e a necessidade de ficar em casa tornaram mais nítida a qualidade do urbanismo e da arborização da cidade.

Paisagismo da superquadra modelo: 308 sul

Silvestre – Eu hoje moro da 308 Sul, uma superquadra modelo, e entendo perfeitamente o que você está dizendo.

Maurício – Sim, você que mora ali pode ver duas coisas diariamente: primeiro, o número de turistas que visitam essas superquadras. Turistas nacionais e estrangeiros. Sobretudo estudantes de arquitetura, engenharia e paisagismo. É visível esse ambiente saudável das superquadras que dispõem de espaços para exercícios físicos sem aglomerações ao ar livre. Na pandemia, elas contribuíram muito para aliviar o isolamento necessário na emergência sanitária, para promover a saúde e para evitar que o vírus se espalhasse. Elas mostraram qualidades valiosas com seus amplos espaços públicos, muito verde, muita ventilação e iluminação natural, pouca densidade, ambientes saudáveis e já testados pela prática e vivência. Tais espaços são muito apropriados e evitam que as crianças e idosos fiquem confinados nos apartamentos.

Silvestre- Quem estuda a construção de Brasília, percebe que JK foi um gênio político e administrativo. Ele construiu a nova capital na hora certa.

MaurícioSempre pensei nisso. Brasília incorporou um Brasil muito maior ao que já existia beirando o litoral. Foi uma redescoberta do País. E tudo isso em cinco anos. O presidente JK prometeu e cumpriu fazer 50 anos em apenas cinco. Uma verdadeira revolução sem dar um só tiro. E tem mais: Brasília foi construída pelo estado, em terras públicas previamente desapropriadas. Não sofreu as limitações impostas pelo mercado, pelo lucro e pela redução de custos que sacrifica os espaços públicos, as áreas verdes e a qualidade ambiental, como aconteceu em outros lugares.

Vista aérea da superquadra 308 Sul de Brasília, podendo ver a Escola Parque, modelo educacional de Aluísio Teixeira, e a Igrejinha de Fátima, projeto de Oscar Niemeyer.

 

Silvestre- E como você vê a gestão nas superquadras?

Mauricio – Este é outro dado interessante. Cada superquadra tem sua prefeitura, numa gestão urbana descentralizada. A mobilização dos moradores em torno de objetivos locais é o ponto de partida para várias benfeitorias urbanas: a implantação de playgrounds para crianças, a gestão dos resíduos, as questões de segurança e o controle da poluição sonora.

Silvestre – Mas nem tudo são flores. Hoje existe a questão da mobilidade urbana e, muito pior, em algumas entrequadras, na área norte, acontecem inundações severas.

Maurício – Muito bem lembrado. Inicialmente não aconteciam inundações urbanas na cidade. Entretanto, em algumas áreas houve excessiva impermeabilização do solo por estacionamentos, pistas de automóveis e construções variadas. Isso interferiu no sistema de drenagem. Maiores volumes escorriam depois de chuvas fortes e passaram a ocorrer inundações a jusante dessas áreas impermeabilizadas. Outras causas que contribuem para as inundações são o entupimento das redes de drenagem, a falta de manutenção adequada e os eventos extremos associados ao aquecimento global.

 

Silvestre – Ano que vem, em dezembro de 2027, serão 40 anos do Tombamento de Brasília. Como arquiteto, o que você pode dizer sobre uma cidade tombada com apenas 27 anos?

MaurícioEsta foi outra revolução que Brasília provocou no mundo e nos trabalhos da Unesco. Aí temos que dar glória e agradecer o então governador José Aparecido de Oliveira que viu e provou para a Unesco que Brasília tinha que ser tombada por ser uma cidade mais importante em futuro do que em passado. Por isso, Brasília tornou-se a única cidade moderna inscrita na lista do patrimônio mundial da UNESCO, o que a protegeu das investidas das empresas imobiliárias para adensá-la e verticalizá-la. O espírito que inspirou a criação das superquadras nessa cidade deve ser resgatado e valorizado, para que continue a inspirar outros projetos de urbanização no Brasil.