Reflexões sobre movimentos identitários e mudanças sociais abrem segundo bloco do Espírito do Tempo
30 de setembro de 2026Palestrantes avaliam evolução de cenários de luta por igualdade e alertam para discursos que buscam invalidar movimentos em defesa de minorias

Agenda de diálogos segue com outros quatro temas, até sexta-feira (2), no auditório da ADUnB. Foto: Raquel Aviani/Secom UnB
O Seminário Espírito do Tempo foi retomado nesta segunda-feira (28) para um novo ciclo de cinco apresentações. A primeira delas reuniu o psicanalista e filósofo Douglas Barros e a consultora de diversidade sexual, ativista e presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Bruna Benevides, para dialogar sobre o tema Movimentos identitários e transformação social. O decano de Pós-Graduação, Roberto Goulart, mediou o encontro, realizado no auditório da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte.
“O debate sobre identidade, reconhecimento e diferença é central na sociedade contemporânea e influencia áreas como educação, trabalho, cultura e política”, disse o decano na abertura do encontro. “Compreender esses movimentos é essencial para entender as transformações sociais em curso e os desafios para construir uma sociedade mais justa e plural”, completou.
Assim como no outro bloco do Seminário, a comunidade universitária fomentou as palestras por meio de perguntas enviadas previamente. Goulart explicou que os convidados receberam um briefing com os apontamentos. “Os chamados movimentos identitários têm ganhado cada vez mais espaço na cena pública, defendendo o reconhecimento, a igualdade e os direitos de grupos que historicamente foram marginalizados ou discriminados, como negros, indígenas, mulheres, LGBTQIA+, pessoas com deficiência e outros”, lembrou o gestor, que falou sobre o avanço de pautas relacionadas, mas também de “resistências e desafios”.
Douglas Barros foi o primeiro a palestrar e trouxe contextualizações políticas e econômicas que culminaram nas atuais discussões identitárias. As mudanças ocorridas desde a Segunda Guerra Mundial, passando por crises internacionais nos anos 1970 e 2000, moldaram o que ele avaliou como uma captura de identidades de grupos sociais por uma cosmovisão neoliberal. Essa análise faz parte do livro O que é identitarismo?, lançado por ele há dois anos.

Douglas Barros analisa contexto de exacerbação e intolerância a diferenças. Foto: Raquel Aviani/Secom UnB
O atual momento de debate das questões de identidade é visto por Barros em um contexto de “ultrapolítica”, em que há incitação ao ódio ao outro e às diferenças. “A ultrapolítica é quando as contradições políticas deixam de aparecer como antagonismos sociais estruturados economicamente e passam a ser apresentados como uma espécie de guerra contra um inimigo absoluto”, disse.
Ele avalia o estímulo à individualização em detrimento de sentimentos coletivos como uma característica do capitalismo contemporâneo, que atuaria na fragmentação de causas estruturais como o racismo, o machismo e a transfobia. “O nosso engano está em acreditar que a verdade dessas experiências termina nelas mesmas. Nenhuma dessas violências nasceu a partir de nada. Elas nasceram na história, nas relações sociais, nasceram nas estruturas que organizam o nosso mundo”, afirmou.
CONTROVÉRSIAS DO TERMO – Após se apresentar como travesti negra de pele clara, Bruna Benevides logo colocou em xeque o termo identitarismo. “Do que estamos falando? O que essa palavra pretende nomear?”, questionou. “E, principalmente, o que ela passa a produzir quando deixa de ser uma elaboração teórica específica e começa a circular como uma categoria ampla para descrever indistintamente diferentes formas de organização e reivindicação política?”.
O ponto central, na avaliação dela, é comparável ao que chamou de “fantasma da ideologia de gênero”. É como se um termo passasse a desqualificar, distorcer ou invisibilizar lutas de grupos sociais. Em concordância com as falas de Douglas Barros, ela mencionou a “captura neoliberal das diferenças” e falou sobre o risco de se criar a suspeição sobre quem denuncia desigualdades.

Benevides defendeu a necessidade de mobilizações organizadas do terceiro setor e disse que coletivos são passíveis de análise crítica, mas que não são promotores de segregação. “Não defendemos a organização coletiva a partir de uma identidade política para dividir a sociedade. Nós nos organizamos exatamente porque a sociedade já estava dividida”, disse a presidente da Antra.
“Quero uma sociedade na qual ninguém precise esconder quem é para ter acesso aos direitos que deveriam ser universais. Não quero deixar de ser diferente. Quero deixar de ser desigual por conta da minha diferença”, disse, após defender a luta pública e transformações efetivas por equidade e cidadania.
O QUE VEM POR AÍ – O Seminário Espírito do Tempo segue até sexta-feira, sempre às 17h, na ADUnB. Nesta terça (29), Feminismo é o tema em discussão pela antropóloga e professora da Faculdade de Direito (FD) da UnB Debora Diniz e pela educadora e pesquisadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia Rivane Arantes. No dia seguinte, destacam-se análises sobre Racismo, conduzidas pela jornalista e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Rosane Borges e pelo sociólogo e pesquisador da Cátedra Antonieta de Barros da Universidade Federal de São Catarina (UFSC) João Carlos Nogueira.
Luis Felipe Miguel, professor, cientista político e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê/Ipol) da UnB, e Valerio Arcary, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), estarão juntos, nesta quinta (1º), para debater sobre Democracia Liberal, crise de representação e fenômeno do neofascismo.
Na sexta (2), último dia do seminário, o público poderá participar de diálogo sobre Tendências e desafios das universidades frente às transformações econômicas, ambientais, sociais e culturais. Estarão presentes a poeta, filósofa, psicanalista e especialista em políticas públicas Viviane Mosé e o professor de Epidemiologia no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Naomar Almeida Filho.
O evento é realizado em parceria com a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) e a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). A iniciativa conta com o apoio da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), da ADUnB, do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães (DCE).
