Cavalos-Marinhos do Brasil

O projeto que luta para salvar os cavalos-marinhos do Brasil

1 de abril de 2004

    Como nascem?Estando grávido, os embriões começam o desenvolvimento na bolsa incubadora do macho. Os estágios das larvas até o nascimento dos filhotinhos depende da temperatura da água e devem durar entre 12 e 21 dias. Nascem então os alevinos perfeitamente formados. Cada macho adulto pode incubar em sua bolsa cerca de 500 embriões,… Ver artigo



 







 


Como nascem?
Estando grávido, os embriões começam o desenvolvimento na bolsa incubadora do macho. Os estágios das larvas até o nascimento dos filhotinhos depende da temperatura da água e devem durar entre 12 e 21 dias. Nascem então os alevinos perfeitamente formados. Cada macho adulto pode incubar em sua bolsa cerca de 500 embriões, que ao nascerem são completamente independentes dos pais até para comer.


O que comem?
Os cavalos-marinhos são carnívoros, tanto em ambiente natural como em laboratório comem muito e sempre seu alimento deve ser constituído por presas vivas, em geral animais microscópicos: ratíferos, copépodas e náuplios de Artemia (crustáceos).


Onde vivem?
No Brasil, os cavalos-marinhos habitam regiões estuarinas e águas costeiras de norte a sul, incluindo manguezais. Eles são animais de baixa mobilidade e podem ser encontrados com muita facilidade na maré baixa, agarrados à raízes dos mangues. Os manguezais têm uma importância ímpar na vida marinha, pois são os verdadeiros berçários da fauna dos mares.


Quantas espécies existem?
No mundo todo existem 33 espécies e no Brasil temos somente duas: Hippocampus reidi, o cavalo-marinho do focinho longo e o Hippocampus erectus, o cavalo-marinho do focinho curto. Os Hippocampus reidi, que são fontes de pesquisa no Projeto Hippocampus, em Porto de Galinhas, em Pernambuco, apresentam as mais variadas cores e tonalidades. Isso é explicado pelo fator genético, pois seus cromossomos carregam genes para expressar várias cores. Também o ambiente onde vivem determina muito as cores destes animais que costumam se confundir com algas e pedras para driblar seus predadores.


Manual de sobrevivência


Afrodisíaco?
Não existe nenhuma comprovação científica, mas a cultura popular diz que os cavalos-marinhos são bons para saúde humana, para curar unha encravada, câncer e muitas outras doenças.
E é aí que está o perigo, porque atraídos por estas fantasias farmacêuticas e pela fama de curadores, os cavalos-marinhos são caçados aos montes e vendidos como peças secas nos mercados pesqueiros por míseros R$ 5,00. Chegam a estar ameaçados de extinção. Evidente que além do comércio para remédios e simpatias, têm um outro comércio forte: peixes ornamentais para aquários. No exterior existem empresas fazendo o cultivo de cavalos-marinhos para venda como peixes ornamentais.


Aliado ao comércio desenfreado, existe uma outra grande preocupação: a degradação do ambiente, a poluição das áreas costeiras, o aterramento de mangues, a pesca predatória, tudo isso levou a espécie a entrar na lista dos animais ameaçados de extinção.


O que é o Hippocampus?
Quem explica é a bióloga Rosana Beatriz Silveira que coordena o projeto Hippocampus desde 1994, no Rio Grande do Sul. O projeto pesquisa a biologia dos cavalos-marinhos brasileiros em laboratório e em ambientes naturais para confecção de programas de manejo e repovoamento para as espécies. Há três anos, desde março de 2001, esse projeto foi transferido para o município de Ipojuca, em Pernambuco, e tem sua sede em Porto de Galinhas.


Manual de sobrevivência
E Rosana Beatriz Silveira deixa três lembretes importantes para quem quiser ajudar os cavalos-marinhos:



1 – Não comercialize, não compre e não use cavalos-marinhos como remédio e como decoração, pelo menos até que este animal sai da lista de espécies em extinção
2 – Cuide das águas estuarinas, dos manques e da água do mar. Eles precisam de muita qualidade de água para sobreviverem
3 – Não retire estes animais de seus habitats.


Rosana Beatriz Silveira – Entrevista


Vamos salvar os cavalos-marinhos do Brasil








Rosana Silveira: ?Estamos lutando muito pela confecção de leis específicas que protejam e regulamentem a pesca de cavalos-marinhos no Brasil

Silvestre Gorgulho, de Porto de Galinhas
Guardem este nome: Rosana Beatriz Silveira. Ela é mãe, defensora, pesquisadora e guardiã de um dos mais belos peixes da costa brasileira: os cavalos-marinhos. A paixão extrema e a dedicação da bióloga Rosana Silveira para com os cavalos-marinhos fez com que ela se mudasse até de Estado. Nascida no Rio Grande do Sul, formada em biologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rosana foi parar em Pernambuco. Mais precisamente, na belíssima praia de Porto de Galinhas. Toda essa paixão começou em 1994, quando Rosana fundou o Labaquac e criou o Projeto Hippocampus. Um dia, ao fazer um trabalho de revisão bibliográfica de literatura científica e de divulgação para compor o acervo do laboratório de cavalos-marinhos, ela levou um susto: o abandono total da espécie. O susto acabou por nortear seu trabalho: esses peixes estavam ameaçados de extinção e, mesmo assim, eram muito procurados para decoração e para medicação. Rosana não teve dúvida: passou a se dedicar inteiramente ao estudo dos cavalos-marinhos. Eles precisavam ser salvos. Enquanto se prepara para defender sua tese de doutorado pela PUC-RS, agora em abril, sobre dinâmica populacional de cavalos-marinhos, Rosana Silveira deu esta entrevista à
Folha do Meio Ambiente:


Folha do Meio – Como foi implantar o projeto no Rio Grande do Sul e depois transferi-lo para Porto de Galinhas?
Rosana –
O Projeto Hippocampus nasceu em 1994, juntamente com o Laboratório de Aqüicultura Marinha-Labaquac, em Porto Alegre. Em 1995, ao ingressar no mestrado em Biologia Animal com dissertação sobre o ?Desenvolvimento ontogenético de Hippocampus reidi Ginsburg 1933, em laboratório?, oficializou-se o primeiro trabalho científico do Labaquac. Depois desenvolvemos outros trabalhos em meu laboratório, dando origem às publicações científicas e de divulgação. Mas todas essas publicações referiam-se à dados de laboratório, não possuíamos nenhum registro em ambientes naturais. E aqui em Porto de Galinhas, com o apoio da prefeitura de Ipojuca, tivemos a possibilidade de fazer esses registros naturais no Pontal Maracaípe.


FMA – Por que a transferência?
Rosana –
Simples, os trabalhos do Projeto Hippocampus começaram a ganhar reconhecimento pelas publicações do Labaquac. Uma matéria feita pela revista Época, em 1998, lançou nosso trabalho ao conhecimento do Brasil. Foi quando aconteceu o convite para o Projeto se estabelecer em Ipojuca, Pernambuco. Mais precisamente em Porto de Galinhas. Este convite partiu da Prefeitura Municipal do Ipojuca, por meio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Turismo e Meio Ambiente e o motivo foi a preocupação com a drástica redução dos cavalos-marinhos no Pontal de Maracaípe. Essa praia tem relevância turística para o município. pois é visitada por turistas do mundo inteiro. E um dos principais objetivos dos turistas é, justamente, ver os cavalos-marinhos em seu ambiente natural.


FMA – O projeto Hippocampus ainda continua no sul?
Rosana –
A sede do Projeto, agora, está em Porto de Galinhas e, infelizmente, ainda não temos recursos para manter uma base no sul, porém temos uma importante parceria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Departamento de Genética, Laboratório de Genética e Evolução de Drosophilas, cuja titular é a dra. Vera Gaisky e onde são desenvolvidos estudos do projeto pela colega dra. Rosane Garcia.



FMA – Tem outros projetos de pesquisa semelhantes em alguma outra parte do Brasil?
Rosana –
O Projeto Hippocampus é pioneiro no estudo do cavalos-marinhos no Brasil. Como projeto de preservação e aplicação direta dos estudos para melhoria ambiental e das populações de cavalos-marinhos ele é único.


Existem pesquisadores individuais de singnatídeos que realizam importante contribuição científica (família do cavalo-marinho), mas é do meu conhecimento que nenhum deles dedica-se exclusivamente ao estudo dos cavalos-marinhos brasileiros.


FMA – Qual o futuro do Projeto Hippocampus?
Rosana –
Crescer e servir. Um dos principais objetivos de nosso estudo é a formulação de um programa de manejo para as espécies brasileiras de cavalos-marinhos, que tornou-se possível após dois anos de estudos de dinâmica populacional no manguezal de Maracaípe e, ainda continua. Além deste programa, lutamos pela confecção de leis específicas de proteção e regulamentação da pesca desse peixe, que não existem. Para isto, assinamos um termo de atuação conjunta com o Ministério Público Federal/Procuradoria da República em Pernambuco, na pessoa do dr. Marcos Costa, que é procurador da República. Um outro objetivo, é promover o repovoamento do Pontal, esta é uma meta a ser atingida este ano.


FMA – Quais as maiores dificuldades para a pesquisa?
Rosana –
As dificuldades são de toda ordem. Esbarram no recurso financeiro, montagem de laboratórios e manutenção de pessoal qualificado. Não é pouca coisa. As atividades de cultivo para repovoamento não iniciaram ainda, por falta dos equipamentos para montagem do laboratório de alevinagem, cujo espaço físico já possuímos. Atrelados a este laboratório estão os laboratórios de fitoplâncton e zooplâncton, necessários a produção de alimentos aos cavalos-marinhos recém-nascidos e que já possuem condições básicas de funcionamento. Possuímos, ainda, o laboratório de parasitologia, onde ocorrem as necrópsias dos peixes para estudos parasitológicos/ecológicos e onde é feita a coleta, fixação e preparação do material para histologia e genética que são enviados às instituições parceiras: na área de genética, a Universidade Federal do RS. Em parasitologia e histologia/histopatologia, a Universidade Federal Rural de Pernambuco. Nossa mais nova parceira é a UFPE área de fisiologia. Os dados levantados por nosso laboratório de dinâmica populacional permitem sugerir ao Ibama, pelo Ministério Público Federal/PRPE, um tamanho mínimo para pesca comercial. É importante, também, a proibição da pesca de machos grávidos.


FMA – Vale a pena entrar no cultivo industrial de cavalos-marinhos como existe, por exemplo, com camarões?
Rosana –
Essa é uma boa questão. Sem dúvida! Não só vale a pena para quem investe, como será esta a única maneira de preservar as espécies em seu ambiente. A pesca e o comércio são intensos no mundo inteiro.


FMA – Tem algum país ou empresa que tem pesquisas mais avançadas sobre cavalos-marinhos?
Rosana –
Sim, os Estados Unidos (Havaí) e China. Já existem empresas especializadas no cultivo para comércio, porém a demanda é maior que a oferta.


FMA – O Projeto Hippocampus tem alguma atuação na área social?
Rosana –
Sim, possuímos um programa de educação ambiental, no qual recebemos a visitação de escolas e universidades para exposição acerca da biologia dos cavalos-marinhos e a necessidade de preservação das espécies e do ambiente onde elas vivem. Também visitamos escolas e universidade fazendo palestras sobre este assunto. Criamos uma parceria com os jangadeiros do Pontal de Maracaípe que são os vigilantes ambientais do projeto, já que o passeio que realizam diariamente com turistas é para visualizar os cavalos-marinhos. O sustento destes jangadeiros e de suas famílias depende diretamente do bem-estar dos animais. Ainda assim, fornecemos quatro bolsas-auxílio em sistema de rodízio para 19 jangadeiros, verba de patrocínio repassada pela Prefeitura Municipal do Ipojuca.


Mantemos parceria com a Pastoral da Criança de Ipojuca, aqui em Porto de Galinhas, que monitora 90 crianças de zero a seis de idade acompanhando seu desenvolvimento e ganho de peso. O Projeto trabalha a comunidade carente, além das informações básicas sobre saúde, higiene, sexo e anticoncepção e educação ambiental, fornece o lanche do dia do peso para as 90 crianças. Possuímos também parceria com a Casa de Jesus (Instituição Espírita), onde a proposta é a montagem e manutenção de uma creche para as crianças carentes de nossa comunidade e geração de renda para os pais que confeccionam artesanatos vendidos no balcão do Projeto.


Tudo isso necessita apoio. Estamos abertos ao auxílio e patrocínio de empresas que queiram levar adiante a bandeira do cavalos-marinhos e tudo que se criou em volta dele.